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sábado, abril 07, 2007

Le Chaleur D'Amour


Muros

Se me jogarem pedras
Levantarei um muro.

Se me faltar o pão
Plantarei o trigo.

Se me ferirem a mão
Usarei a outra.

Se me ferirem a outra
Usarei os pés.

Se mos amputarem
usarei a palavra.

Se me calam a voz
Usarei os gestos.

Se me tirarem o som
Trabalharei as cores.

Se me levam a visão
Usarei os pensamentos.

Se me deixarem louco
Ainda tenho o coração.

Se me tirarem vovê
Estarei morto.

quinta-feira, abril 05, 2007

Dálcio, Correio Popular, SP


  • De um garotinho de 6 anos: "Ser normal é muito chato". Os pais desse vão ter muitos problemas...


  • De um amigo para uma bunduda que usava uma calça de cós baixo: "Isso não é um cofrinho, é a Casa da Moeda!"


  • Alguém viu um PAC por aí? Esse pacote me lembra o Fome Zero, todo mundo ouve falar, mas ninguém vê.


  • A Associação Brasileira dos Controladores de Vôo divulgou uma carta pedindo desculpas à população brasileira pela paralisação que fizeram essa semana. Hnestamente, acho que não tinha que pedir desculpas nenhuma e, sim, exigir que o governo atual e os anteriores o fizessem, assim como a Infraero. Pouco tem-se feito para evitar o caos que estorou com a queda do avião da Gol. A gente vê muita maquiagem de aeroportos, mas pouco investimento em segurança de vôo, formação de controladores, infraestura para emergências... Os controladores de vôo são apenas a parte fraca dessa corda e, lógico, tomados para cristo. A culpa é mais acima.

terça-feira, abril 03, 2007

Nina Alexandrina


Passos

De quem são esses passos
afundados na areia
que sigo como a uma trilha,
pouco se me dando onde darão?
Tantos pés aqui pisaram
e se esqueceram no mar,
milhares de pés...
Estes últimos sigo
sabendo que não os encontrarei,
mas sabendo que neles há alma,
há vida e sangue
e talvez o prazer guardado
de deixar seus formatos no chão.
Talvez de uma banhista de topless,
ou de vendedor de sanduíches naturais
ou ainda de militar em férias.
Podem ser de uma ex-freira
que abandonou o hábito
por final de semana ensolarado.
Quem sabe os passos incertos
de alguém que procurava rastros
que seguiria sem qualquer motivo?

segunda-feira, abril 02, 2007

Clauro, O Imparcial, SP


  • "Macaco velho não põe avião em Cumbica", do chargista S. Salvador.


  • Vai ficar difícil o governo evitar a CPI do Apagão Aéreo, ou seja lá que nome a imprensa vai arrumar pra ela. Waldir Pires, por conta de sua biografia ilibada, foi mantido a duras penas no cargo de ministro das Forças Armadas, mas também vai ser difícil Lula agüentar a pressão. Se é culpa desse governo ou não, é uma discussão que pouco importa, o fato é que nem Lula, nem FHC e nenhum outro presidente fez qualquer coisa para evitar uma crise desse tamanho. O que tem-se feito é maquiagem nos aeroportos, paliativos em equipamentos, e uma baita corrupção na Infraero, que, como senhora de todas as decisões, superfaturou obras, cobra taxas exorbitantes para passageiros e para as companhias aéreas, mas não se posiciona contra o esquecimento a que são relegados os estressados controladores de vôo.
    Quando, no governo de Ronald Reagan, os controladores de vôo estadunidenses se rebelraram contra as más condições de trabalho e os baixos salários, Reagan demitiu todos, readmitiu uma nova leva, melhorou os salários, criou regras de segurança para que cada controlador se encarregasse de, no máximo, 12 aviões por vez, e criou uma jornada de trabalho de 6 horas diárias. No Brasil a maioria dos controladores de vôo são militares - greve nem pensar, só porque criticou as condições de trabalho um pobre sargento amargou 30 dias de cadeia -, com salários de R$ 1.300 reais para um terceiro sargento, jornada diária de 8 horas, chegam a tomar conta de até 22 aviões por vez... Sem falar que tem equipamentos velhos e ultrapassados. Óbvio que a bomba explodiria um dia. Explodiu, mas na lerdeza de tartaruga paraplégica com que acontecem as decisões oficiais no nosso país, já se vão mais de 6 meses empurrando-se com a barriga, sem alguém capaz de resolver o problema.
    A Aeronáutica não quer abrir mão desse filão; alega questão de segurança nacional. Bobagem! É só uma questão de status e de grana. Um dia alguém ainda vai investigar o tanto de corrupção que existe nas Forças Armadas brasileiras. Eu sei de algumas, mas, sem documentos, não sou maluco de expor.
    A Aeronáutica também se recusa a ceder seus radares para os aeroportos, o que eu acho certíssimo. É cobrir a cabeça e descobrir os pés. Se os aeroportos precisam de equipamentos novos, que se compre e não fique nesse joguinho de comadre suburbana que fica pedindo açúcar emprestado à vizinha.


  • Estilista que rouba vaso de cemitério; rabino super-star que rouba gravatas na Flórida... Essa vida de celebridade deve ser mesmo muito árdua.


  • Você sabe como salvar um advogado do afogamento? Não? Ainda bem!


  • Eu gosto de comer peixe. Tem cada receita deliciosa... Mas se a coisa continuar como está, mesmo com tantos rios e tanto mar, vai se tornar artigo raro na feira. Primeiro, aquela série de mortandades no Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul; semana passada a mortandade por envenenamento industrial de toneladas de peixes no Recôncavo Baiano; agora outro acidente ecológico de grandes proporções no Rio São Francisco, em Minas Gerais... Pô!


  • Os letrados brasileiros têm mania de colocar a culpa de nossas mazelas nos governos ou nos pobres e incultos. Rico morre de acidente de carro por causa das estradas mal conservadas pelo governo - certíssimo; pobre morre de bala perdida ou a facadas; rico sabe votar, pobre só elege maus políticos - como se Maluf não tivesse um grande percentual de votos das classes A e B, né, Hebe Camargo?; rico morre de overdose de drogas porque tem um monte de pobres vendendo - sei... Pobre até parece que pode viajar de jatinho para a Colômbia todo mês para fazer suas encomendas; preto pobre é ladrão; rico ladrão foi enganado pelo sócio ou pelo contador; e por aí vai. Mas o que dizer de universitários classe média da UnB que incendeiam alojamento de estudantes por eles serem negros, africanos, muitos refugiados de guerra?

domingo, abril 01, 2007

Ghost Woman, Nelson Soucasaux


Fantasmas

Aqueles fantasmas do tempo,
fantasmas que não se perdem nos álbuns de família,
fogem do fundo dos copos, das gavetas,
e sentam-se à mesa para almoçar comigo
sem qu'eu sinta suas presenças.

Depois, feito corpos vivos,
fazem ruídos me seguindo pelas ruas
no toc-toc dos saltos de seus sapatos ectoplasmáticos.

Não me deixam vê-los
nem se deixam aparecer,
tentam evitar que os perceba,
mas são tão ruidosos, participativos,
que de imediato os noto
quando refaço algo há muito feito,
não importando há quanto tempo.