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domingo, agosto 06, 2006

Casa de fazenda


Aleivosia


Era aleivosia mesmo, Teófes, tô te dizeno! Como eu num haverá de sabê a deferença entre aleivosia e gente de carne e osso? Lósco que era voisa do ôtro mundo, to te falano.

Purque eu sei, ora. Óia, falá cumigo inté que ela falo, mai eu num posso dizê o que foi, tu num ia gostá de sabê.

Num inséste, Teófes, num posso falá, não. Dosulivre!

Que ôme teimoso! Se eu to falano que era aleivosia, é purque era, disgrama.

E come que tu sabe que num inzéste?

Ah, o pade disse... Logo o pade. Num é esse pade que fala que é pecado, vai posinferno quem deseja a muié dos ôtro? E apois. É o mesmo pade que reza a missa todin-a oiando pus juêio de dona Zândi de Urbino da farmaça. Num é ele que diz que é pecado negoçá fora do casamento? Pois num é ele mesmo que coiseia com umas trêis carola lá na sacristia e todo mundo sabe? Pur que eu haverá de querditar nele quando diz que num inzéste visage? Apois eu lhe afirmo que inzéste e eu vi com esses zói que hai de vê Jesus Cristin-o no dia do juízo. Tu vai crê ni mim ô num pade mintiroso?

Oxe! Quando que eu mintí pa tu?

Ah, mai num tem valença. Nóis tava interessado na mesma muié e dizem que no amô e na guerra vale tudo, num dizem? E apois? Mai tu tomem mentia pa eu, ô tua acha que eu num sei que quem mandava aquelas frô pa ela era tu? O peó é que ela num ficô nem cum eu nem cum tu. Terminô fugino com o engomadin-o lá das Grota Grande. A gente perdemo junto.

Como? Só vai crê n'eu de eu disse o que ela falô? Posso não, Teófes, num vai sê bom pa tu sabê.

Ta, foi ansim. Eu tava lá nos fundo do cercado. Era meia noite quando iscuitei os porco fazeno algazarra. Peguei a socadêra e fui lá pensano que pudia sê cobra, cachorro do mato, filiça ô outro bicho.

Rodei o terrêro todo, cavuca de cá, cavuca de lá e nada. E os porco grunindo. A lua tava cheiona, amarela, alumiano tudo, facim de vê tudo derredó. Mai eu num via nada.

Cansado de percurá, sentei na cerca, iscorei a ispingarda no morão, peguei uma paia e fiquei ali pitano, isperano aparecê o bicho que causava o rebuliço. Aos pôco a porcada foi carmano, carmano e vortô o silênço. Só os grilo, os sapo, os vaga-lume e os bacurau imbaxo do lua, e eu pitando aquela gostozura que Deus deu.

Cabei o cigarro, vi que tava tudo na paiz do Sinhô e arresorvi vortá pra rede. Quando dici da cerca e me virei pa pegá a socadêra, ela tava impé do lado. Muito alta, branca mais branca que a luz da lua, cum vistido branco inté os pé que nem triscava o chão, os zói azuzim, azuzim, oiando pa eu.

Subiu um gelo pelo ispin-aço, sinti os cabelo ripiá, minhas perna bambeô, a boca secô. Num cunsiguia mais me mexê. Ela oiava pa eu com os zoião azul. Daí ela me preguntô um-a coisa que eu, gaguim que nem o Zelotéro, quais sem voz,respundi. Daí ela falo ôtra coisa e sumiu no ar.

Posso dizê não, Teófes, num inséste.

Que cabra mais teimoso!

Ah, é? Só querdita se eu dissé? Intonce vô dizê.

Ela priguntô se eu era o Teófes Figueira dos Anjo. Eu dixe que num era. Aí ela dixe que eu adiscurpasse ela, que ela que ela quiria falar era cum o Teófes. Pronto, tu priguntô, eu falei.

Pêra, Teófes! Vorta aqui! Num dianta se iscondê, não, Teófes, uma noite ela te acha! Vorta, Teófes! Corre, não, ôme!

Num te falei, Raonílio, que esse tar de Teófes é um cagão? Ganhei a aposta? Intonce paga a pinga que apostemo.

sexta-feira, agosto 04, 2006

Pra piorar o já péssimo estado de espírito, hoje seria aniversário do meu pai e já não posso lhe dar um abraço ou apenas um telefonema. Essa, sim, é uma saudade que não vai acabar.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Tô com raiva!

Quando estiver de saco cheio, passe pedra-pome.


Tô de saco cheio e não tenho pedra-pome, então agüentem.




Por que meus posts prediletos são os menos lidos e menos comentados? Será que tenho um gosto tão esquisito assim? Oh, como sou incompreendido!




Tenho dois contos e duas crônicas prontas, mas nenhuma paciência pra colocá-los aqui hoje. Vão ficar esperando na gaveta. Não gostou? Nem eu. Empatamos.




Tô ranzinza mesmo!




Levei um pé na bunda, tô com uma tremenda dor-de-cotovelo, mas não vou cortar os pulsos, nem encher a cara e nem correr atrás da primeira calcinha que passar (se bem que não é má idéia). Mas também não vou ficar de chororô e nem tentar explicar nada, afinal, todos vocês já devem saber muito bem como e o que é isso. Então pronto, tamos conversados. O pior do pé na bunda são os efeitos colaterais, os demais prazeres deixam de dar prazer por algum tempo.




Quando eu voltar ao normal, volto. Pode demorar dois minutos, uma semana ou um ano, por isso vamos combinar assim: vocês fazem de conta que não me viram e eu faço de conta que não vim aqui. Combinado?

quarta-feira, agosto 02, 2006

Elomar


Faviela


Abença, madin-a, cabei de chegá do Reno das Pedra das bande de lá. Meu pai mandô queu vince aqui te salvá. Tomem qu'eu subesse das nova de cá, de nada isquecesse de li priguntá, qu'eu vince e vortasse sem mais delatá. Desse no qui desse preu li respostá.

Tem pressa das bota, chapéu, muntaria, apois que amain-ã se rompê o dia vai junto c'as frota lá pras Aligria pras béspa das boda de Caçula e Fia. Cum prijistença alembra que é próxa e já quaji às porta a vinda do Grande Rei Jesus, o nosso redentô.

Manda priguntá se a vida pressas banda miorô. É que lá nos Impedrado nossa luta inté faiz dó.

Se a fulô do gado maió, também das min-uça, se as cria vingô; da roça só indaga das mendioca, só, plantada na incosta do mato-cipó.

Findo o priguntóro já torno a istradá. Donde é o lavatóro? Dêxeu me banhá.

A casa sutura sizuda as janela, vejo a camarin-a de renda mais bela, da sala à cunzin-a só inda num vi ela. Prigunto pro via daquela donzela.

Risposta, madin-a, cadê Faviela? Min-a alma duvin-a que hai arte do mal. Min-a alma difin-a margosa de fel. Só faiz sete lua qui li di o anel. Jurô que era min-a pru tinta e papel.

Foi no minguante dessa passada, tão de repente deu-se o sucesso qui já nem güento mais essa dô.

Vino dos confim da istrada um mitrioso aqui poso. Se arribo de madrugada e Faviela, ai, de mim levô!


Malvada malunga, culpada foi ela. Jurô que era min-a pru tinta e papel. Foi imbora a run-ia, ingrata e infiel.

A bença, madin-a, já volto a istradá e tudo que tinha pra li priguntá.

Min-a alma difin-a, margosa de fel; só faiz sete lua qui li di o anel; jurô que era min-a pru tinta e papel; foi imbora a run-ia, ingrata e infiel.




Raramente escrevo o texto de outro autor por aqui, mas a ressalva, dessa vez, tem dois motivos: primeiro que o autor de Faviela
é Elomar Figueira, de quem sou fão há muito. Clicando na foto dele, lá em cima, você será levado à sua biografia, feita pela Faculdade de Comunicação da UFBA. O segundo motivo é que esse é um daqueles textos que a gente lê e dá uma inveja danada de ter sido escrito por outra pessoa, a gente fica pensando "Putz!, como que gostaria de ter escrito isso!".

Faviela
é, na verdade, a letra de uma música que você pode ouvir aqui, além de outras músicas de Elomar. Não espero que gostem tanto quanto gosto, mas, se ouvirem, gostaria que colocassem aqui suas opiniões. Curtam.

terça-feira, agosto 01, 2006

Concha y mi amigo, Kelly Lynn Jones


- Amigo de verdade éo que continua amigo mesmo depois de perder dinheiro ou a mulher para o outro amigo.

- Ter amigos é muito bom, mas acordar às sete da manhã de domingo para ouvir lamúrias é coisa de masoquista.

- Favores não se pagam com pregas.

- Se eu entrar numa briga que um amigo arrumou sem razão, será para bater nele.

- Por autopreservação devemos ter sempre um amigo policial e outro amigo bandido.

- Em três ocasiões diferentes o mesmo amigo, bêbado, ameaçou me bater. Na quarta bati nele.

- Quando a gente está na pior é que conhecemos os verdadeiros amigos e, se formos maus amigos, preferiremos os em melhor situação.

- Convenhamos, é muito bom receber aquele velho amigo que nos abandonou quando estava por cima e nós na pior, no momento em que ele está por baixo e estamos bem.

- Políticos não têm amigos, têm cúmplices.

- Diz-me com quem andas que te direi se vou junto.