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sexta-feira, agosto 11, 2006

Cotidiano


Cotidiano


Salta rápido, o relógio já chamou, não tens mais chance.

A mesma pasta na mesma escova, o mesmo pão com manteiga e chá que o café está caro e falta leite. O mesmo ônibus, as mesmas caras, o mesmo caminho. O mesmo chefe, o mesmo trabalho...

É tempo de repetição do que não te agrada, mas te suporta como amor de maddrasta que beija e belisca.

quinta-feira, agosto 10, 2006

Pintura para Lola, Lola Rincón


- Amor é bom, mas dói.

- De tanto procurar e não encontrar o amor ideal, casou-se com qualquer um.

- Paixão é labirinto
Que une periquita e pinto.

- O otimista acha que amor é para sempre; o pessimista coloca prazo de validade.

- Seu amor-próprio era tanto que casou-se consigo mesmo e divorciou-se por ciúme.

- O amor viaja quilômetros; a paixão viaja metros; o tesão mal chega à esquina.

- A solteirice é egoísmo ou auto-preservação?

- O escritor tem a vantagem de fazer declarações de amor públicas para a amante e a esposa achar lindo.

- Quais as chances de ganhar na Mega Sena? Bem maiores que as de encontrar a cara-metade entre 6 bilhões de pessoas.

- Amizades raras são entre um homem e uma mulher e entre mulheres. Quando existem, são as mais fortes.

- "Amor platônico é a fome sem a vontade de comer", Chico Anísio.

quarta-feira, agosto 09, 2006

Kadinski


Segue


Como aqueles que por anos a fio carregam seus mortos em fronhas por lavar, carrego meus vivos que me impedem de morrer por uma simples questão de amor que não quer acabar.

Lençóis cheirosos e mal dobrados nas camas comunitárias onde já dormi são testemunhas induvidáveis dos que me guiam e seguem e me impedem de pensar em morte.

A curiosidade dos próximos dias e das caras curiosas, engraçadas, sérias, rabugentas ou sem feições que hão de vir; a perspectiva de novas camas e redes comunitárias, barracas de camping, muriçocas e carapanãs e os lençóis cheirosos e mal dobrados me impedem de pensar em morte.

Ainda existem violões, músicas e cantores e muita gente para ouvir em platéias barulhentas e mal comportadas em bares, discos, fitas, vídeos... então, para que pensar em morte?

E há livros verdes, azuis, incolores, de versos, poesias, besteiras, bulas, panfletos, ensaios e crônicas, bem ou mal escritos e seus autores falantes, indiferentes, intectuais e intelectualóides, por isso já nem penso que existe morte.

terça-feira, agosto 08, 2006

Foto de Raghu Rai

Miséria


Na boca do mundo um grito calado do que chora de fome, frio e dor, esquecido pelos becos porcos.

Nos olhos do mundo lágrimas secam ao relento e se molham de sereno das noites pelas ruas.

Nas pernas do mundo o cansaço de andar em vão em busca de migalhas que se esparramam em outros chãos.

Nos braços do mundo a carência de um abraço, de um afago, de carinho, do maltrapilho das cidades.

No estômago do mundo a falta do alimento, do calor da sopa, do feijão de que não se sabe o paladar.

Nos mundos do mundo as almas quase mortas perambulam famintas à procura da vida não dada.

segunda-feira, agosto 07, 2006

El Deseo y El Mito


As juras de amor


Adamastor era um prodígio em promessas de amor. Não prometia o que não podia cumprir para a mulher amada, mas a si próprio.

Josefa, sua primeira paixão, terminara o namoro por conta dos ciúmes de Adamastor. Ele não brigava, não se descabelava, mas fechava a cara e ficava sem falar a cada vez que a via com outro homem, fossem colegas do trabalho dela, colegas de faculdade, amigos de infância e até os irmãos, tanto dele quanto dela.

Sentiu-se ridículo na noite em que chegou ao forró que acontecia todas as sextas-feiras na faculdade e a viu feliz, rodopiando na pista com um crioulo alto, bonito e ótimo dançarino. Nem falou com ela. Escorou-se no balcão e encheu a cara de cerveja até que ela o viu e se aproximou. Já o conhecendo bem, sabendo que ele a vira com Otacílio, recebendo dele aquele silêncio hostil, afastou-se dizendo que no dia seguinte conversariam.

Ele, apaixonado, não conseguia se afastar. Foi à casa dela já imaginando a discussão que aconteceria. Ela o recebeu com um disco de Caetano Veloso no toca discos de onde se ouvia a Música de Fernando Lobo, Chuvas de Verão. Podemos ser amigos simplesmente, coisas do amor nunca mais, amores do passado no presente refletem velhos temas tão banais.... Sentiu que a catástrofe seria pior do que previra.

Ela foi direto ao assunto: não poderia mais conviver com tanto ciúme, não mudaria sua maneira de ser por conta da paranóia dele. Ah!, o Otacílio é gay. Não houve negociação, estava tudo acabado.

Com o fim do namoro, mais de ano de dor de cotovelo. Nenhuma mulher o interessava. Fez-se a promessa de que nunca mais deixar transparecer sua ciumeira. A controlaria desde então. E nos namoros seguintes, sofria sorrindo.

Superada a fase de dores por Josefa, surgiu a Anerita. Linda, alegre, garota de praia. Mil e um motivos para ter ciúmes, mas ela nunca percebeu e isso lhe serviu como terapia. As horas de distância doíam, mas não geravam ciúme, sósaudade. A procurava durante todo o dia, telefonava, fazia visitas surpresas no trabalho só para vê-la por uns cinco minutos, mandava flores não para presenteá-la, mas para receber o telefonema de agradecimento. Virou uma cola.

Sentindo-se sufocada, Anerita o chamou para uma conversa definitiva. Não dava mais, ela não tinha tempo nem mais para o salão de beleza, da saidinha com as amigas, de curtir a solidão de um por do sol nos dias em que se sentisse melancólia. Ele tentou, mas não houve como regatear. O namoro estava rompido.

Mais um ano de coração dolorido, solidão, sentia o amor morrer em seu peito.

Jurou nunca mais sufocar uma mulher. Seria um homem sem ciúmes e liberal desde então. Não apareceria de surpresa, telefonaria antes, proporia o cinema, não mais imporia, mandaria flores em datas especiais e a mais longo prazo.

Eis que surge Mysti, moça independente, pós-graduada, bem empregada, dona do próprio nariz, o protótipo da mulher do novo século. A promessa que fizera de jamais se apaixonar de novo ruiu diante daqueles olhos verdes.

Sem ciúmes, sem grude, um homem seguro, esse era o novo Adamastor. E Mysti adorou. Se completavam. Ele viajava a negócios e ela entendia; ela fazia serão na sexta-feira e ele não cobrava sua presença. Ela tirava um dia para sair com as amigas e colocar os papos em dia e ele não se importava; ele jogava bola na praia aos domingos e ela o encorajava para o esporte. Tudo lindo, tudo perfeito.

A perfeição, porém, era aparente. Miguelino, amigo de Adamastor, quase irmão, chegou com a notícia ruim. Vira Mysti na rodoviária se despedindo de um belo rapaz que estava embarcando num ônibus para Palmas. Beijos calorosos, abraços intermináveis e muito choro. Mysti o traia.

A traição ele não admitia nem mesmo de seus amigos com as namoradas ou esposas. Ninguém é obrigado a ficar com ninguém, se estivesse era por gosto, não havia, portanto, motivo para trair. Não engoliria aquilo.

Por telefone acabou o namoro. Não disse o motivo, mas sabia que ela saberia, afinal, consciência ela havia de ter.

Sofreu de amor próprio destruído, sofreu pela vergonha da traição, sofreu pelo amor-perfeito perdido.

Prometia agora nunca mais sofrer por amor. Não se envolveria seriamente com mais nenhuma mulher, não se permitiria apaixonar.

E assim viveu por cinco anos. Só que o cérebro esqueceu-se de combinar com o coração.

Giselda apareceu para destruir suas convicções. Linda, quase infantil, arrebatadora. Ela apaixonou-se e o convenceu a se apaixonar também, mas ele relutava. Sofria para não admitir que amava. A afastava embora a desejasse. E ela se afastou.

Hoje ele sofre por não ter admitido que amava e chora sozinho.