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sexta-feira, janeiro 15, 2010
Haiti
domingo, janeiro 10, 2010
Revanchismo por decreto
Não é difícil perceber que países com governo ditatorial, como forma sub-reptícia de conquistar a simpatia do mesmo povo que prende em caixas de fósforos de opções e liberdades, costumam colocar em seu nome termos que incluem esse povo, como, por exemplo a República Popular da China ou República Democrática Alemã, que era justamente a metade alemã sob o jugo soviético.
Não é à toa, portanto, que o Item I do Parágrafo 2° do Decreto N° 7.037 ou Eixo Orientador do dito cujo: Interação democrática entre Estado e sociedade civil.
Onde está a interação democrática se o tal decreto foi costurado nos escurinhos dos gabinetes do subchefe de assuntos jurídicos da Presidência da República e da ministra da Casa Civil? Se houve a tal “ampla discussão com a sociedade”, como diz o mui mal intencionado Vanuchi, ela se deu em foros da esquerda, sem a ampla participação popular e sem que em seus programas tenha ficado explicitado que das discussões românticas, utópicas e revanchistas sairiam os artigos, parágrafos e alíneas de uma constituição feita por meia dúzia para subjugar duzentos milhões.
Ao utilizarem os termos “democrático” e/ou popular, os ditadores sabem que seu autoritarismo não se coaduna com o modus vivendi de cidadãos do século 20, quando esse expediente entrou em moda, e nem do século 21, em que a Venezuela de Chávez sofre um paulatino golpe de estado, sistematicamente copiado e aprimorado por seus vizinhos.
Aproveitando-se da vaidade do presidente, seus assessores e conselheiros mais inteligentes vêm fazendo do Brasil seu quintal. Não são poucas as vezes, nesses sete anos de governo, que o presidente diz desconhecer medidas tomadas pelo seu governo. Do mensalão até este decreto, a desculpa da ignorância apareceu muito mais vezes do que poderia ser considerado razoável, em se tratando do mandatário que é comandado pelos a quem deveria comandar.
José Dirceu, Greenhalgh, Marco Aurélio Garcia, Dilma – cada vez mais – e o Göebels poderoso e vingativo, redivivo na figura despótica de Franklin Martins, são algumas das luas pardas que agem como titeireiros do boneco Lula. Manobram com sua ladainha escorregadia o gosto pelas câmeras e pelos jornais que inflam o ego do presidente e o fazem assinar o que bem desejam. A ignorância, a burrice política e histórica de Lula o deixam à mercê de seus manobristas, como reféns das vontades dessa tropa, ficamos nós, cidadãos desunidos.
Com a pecha de democracia representativa, também defendida no tal decreto, usa-se de uma redundância para dar forma às más intenções autocráticas. A democracia, definida como regime “do povo, para o povo e pelo povo” é, per si, representativa, óbvio. Os eleitos o são para nos representar. Não há democracia representativa, ou ela é democracia ou não. O sendo, já é representativa. Mas o enriquecimento lingüístico da expressão é uma outra mania desses legisladores do Executivo para incluírem “o povo” em decisões das quais ele foi excluído.
Entre os muitos absurdos que prega o decreto, um que vem chamando muito a atenção, é a terceira ou quarta tentativa desse governo de calar a imprensa que não lhe agrada. Já na primeira semana depois da posse, criou-se, pela imprensa amiga do Palácio do planalto, a terminologia PIG, Partido da Imprensa Golpista, para incluir qualquer veículo ou jornalista que se opusesse ao todo ou em parte às decisões do governante-mor ou de sua curriola. Até simples blogueiros passaram a ser incluídos nesse PIG pela imprensa amiga-remunerada, pelos partidários idiotas úteis, pelo próprio presidente ou pela turma que ouve o galo cantar, mas não sabe onde, como definia os Maria-vai-com-as-outras o grande Stanislaw Ponte Preta.
As tentativas anteriores frustradas, não foram suficientes para acalmarem a fúria de Dima, Martins, Dirceu e o próprio Lula, em calar que ousasse levantar a voz contra a ditadura que se estabelece paulatina e vagarosamente. Pois o tal decreto prevê o fechamento de jornais e revistas e a cassação das concessões de exploração de canais de rádio e televisão quando determinado veículo transmitir programa ou notícia que contrarie a vontade do poder central, fantasiado de “interesse público”. Lembra a marcha da Tradição, Família e Propriedade que apoiou profundamente o golpe de 64 e que foi muito criticada por essa mesma esquerda que a repete.
Por mais que negue o revanchismo - e falar a gente fala o que quiser, se há verdade nas palavras, é outra história – ele está explícito no documento e dá-se justamente por ter Lula provado da aprovação popular. A população começa a confundir - depois de muito esforço do ministério e da imprensa amiga - PT, Lula e governo. Tendo Lula 80% de aprovação popular, misturaram os três no mesmo caldeirão e utilizam-se dessa confusão popular para aplicarem seu socialismo. Se Brizola já falava no socialismo marrom, referindo-se ao socialismo que queria criar aos moldes brasileiros, a equipe inteligente, porém mal intencionada, traçou sua linha programática.
Num país em que até assassinato prescreve, pelo Código de Processo Penal em vigência, como justificar que a esquerda raivosa tente prescrever a Lei da Anistia e ressuscitar atos ilegais por parte dos governos de então, mais antigos que a própria Lei que os anistiou? Pior, por que só determina a investigação de crimes praticados pelos agentes do governo e não pelos praticados pela própria esquerda? Essa, aliás, tem sido uma característica muito forte no governo petista: a discriminação, o separatismo, a cisão entre classes, cidadãos e ideologias. Já jogaram pretos contra brancos; índios contra citadinos; pobres contra ricos... E assim tem-se mostrado nas sublinhas do decreto, criando discriminações contra seus opositores e os situacionistas. Um governo eleito para presidir para todos os brasileiros, teima em separar a população entre brasileiros e golpistas. Dá-nos um golpe atrás de outro e se fantasia de vítima.
Haviam várias esquerdas no período de exceção e hoje ela se divide em três: a que está contra o revanchismo, portanto vista como traidora pela situação; a completamente ignorante que vai para o lado que a maré bater, repetindo palavras de ordem e os discursos dos mandatários; e a que elabora o golpe à sociedade, capitaneada por Vanuchi e Dilma.
Não existe revolução essencialmente popular. Ela não ocorreu na Rússia de 1917, nem na China de Mao, nem em Cuba em 1959 e nem na marcha dos caras pintadas contra Collor em 1992. Todas as revoluções foram orquestradas por pequenos poderosos que ansiavam pelo grande poder. Aqui se desenha uma revolução socialista sob a batuta dos socialistas maquiavélicos, inteligentes, raivosos e vingativos. Usa-se a massa de manobra popular, alienada e ignorante e os donos do capital que sustentam qualquer governo, independentemente de ideologia, desde que mantenha o lucro (ironia os socialistas usarem os mais capitalistas para imporem sua revolução) para massacrar qualquer opinião contrária. Não se assustem se, depois de estabelecida essa república sindicalista ditatorial, voltarmos a falar de política a portas fechadas com medo dos alcaguetes e da polícia política que se formará (aliás, ela já existe desde que o PT é PT, apenas não foram lhes dadas as braçadeiras negras que lhe dão poder de prender, bater, cassar e matar a oposição).
O plano vem em forma de um decreto, ferramenta ditatorial tão combatida por todas as esquerdas quando eram oposição e os generais o utilizavam para comandar o país.
Os governistas lançaram o balão de ensaio de uma constituinte há alguns meses. Muito provavelmente esse projetão já estivesse montado e pronto para ser apresentado aos parlamentares como esboço da nova Constituição Federal. Como a idéia de uma Assembléia Nacional Constituinte foi, de pronto, rechaçada por boa parte da imprensa e pela parte da população que pensa e, por isso mesmo, viu desenhado o golpe que se armava, a camarilha parda que se esconde sob a saia da ministra-candidata resolveu fazer sua própria constituinte e conseqüente constituição, socialista, irada e revanchista.
©Marcos Pontes
P.S.: Esse texto será enviado por e-mail a todos os senadores.
P.S. 2: Quem se interessar em ler o Decreto na íntegra, o endereço é este.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
Lula chegou com atraso
Ficou famosa a ameaça de Mário Amato, então presidente da FIESP e de grande influência nas decisões políticas brasileiras na campanha presidencial de 89. Amato dizia que se Lula se elegesse, centenas de empresários deixariam o país e levariam suas empresas. Os efeitos devastadores de uma bomba se espalharam na campanha do “sapo barbudo”, como Amato chamou Lula.
Passaram-se os anos, Lula se elegeu e a previsão de Amato passou a ser motivo de chacota, o mundo mudou, o socialismo já havia provado ser um erro, a União Soviética, nave-mãe dos comunistas do paneta, havia implodido levando à derrocada do sistema em todo o leste europeu. Os poucos países que mantiveram o socialismo repressivo marcavam passo, passavam fome, mendigavam migalhas ao resto do mundo. Até a China mudou, tornando-se um “socialismo de mercado”, cedeu ao capitalismo sem dar o braço a torcer. A Coréia do Norte só existe porque a Rússia e a China a sustentam para fazerem contrapartida ao poderia ianque.
O socialista Luiz Inácio também quietou o facho. Tornou-se “paz e amor” a pedido do marqueteiro chegado a rinha de galos, saboreava o sabor da fortuna, mesmo tendo amealhado a dita cuja depois de suspender o macacão aos 27 anos de idade, provando a máxima popular de que quem trabalha não tem tempo de ganhar dinheiro. Os capitães de empresa e grandes empresários, se acalmaram, relegaram a um lugarzinho esquecido no passado as ameaças de Mário Amato.
Durante sete anos de mandato o governo mostrou ser um capitalista feroz, embora estatista, um trapalhão estratégico que alimentava os vizinhs miseráveis dando hidrelétrica pro Paraguai, refinadoras de petróleo para Equador e Bolívia, dinheiro para o louco venezuelano e por aí adiante. Banqueiros lucraram como nunca na históriadessepaís, o crédito ficou mais fácil, levando a pobretalha ter a sensação de que era rica, criando uma bolha que ainda não estourou porque a classe média tem bancado o consumismo desenfreado. Não havia o que temer.
Mas eis que uns alopradinhos, achando o presidente muito à direita, resolveram lembrá-lo de que ele era um comunista juramentado, não podia trair a clase. pior, tinha que compensá-los por ter presidido sete anos para seus amigos milionários, dividindo a grana da classe média para os mais pobres a título de justiça social e distribuição de renda, sendo, de fato, uma expropriação da poupança dos remediados, em forma de impostos, para bancar os regalos dos ricos e as esmolas-compra-votos dos pobres.
A candidata e um aspone, o tal Vanuchi, botaram na mesa da anta bípede o tal decreto, ferramenta que nossa democracia já dava por falecida, criando a tal Comissão da Verdade, desencavando questões sepultadas pela Lei da Anistia, um ranço de revanchismo que essa malta azeda há 24 anos, desde a entrega da faixa presidencial por Figueiredo para o highlander Sarney.
Os mentores da lei criada bem ao estilo absolutista stalinista, na calada da noite e escondidos pelos barulhos de fogos do Natal, ainda não foi devidamente assimilada pela população, talves nem mesmo pela esquerda, também pega de surpresa. Mas os produtores rurais e os militares já perceberam o perigo pesado e escuro que nos ameaça. Ameaça a todos.
Frustrada mais uma vez a tentativa de calar a imprensa, um esforço milionário do Franklin Martins e sua Confecon, o viés autoritário disfarçado com um sorriso nos lábios e brincadeirinhas futebolísticas do presidente volta a mostrar os caninos sedentos. Os jovens desavisados, os sectários analfabetos políticos seguidores da UNE em sua empáfia de juventude são a grande massa de manobra usada para apoiar a medida. A mesma juventudo que a 30 anos estava lutando pela liberdade de expressão. São o que Alexandrovich Bezmenov, espião soviético dissidente da KGB, chama de idiotas úteis. Vejam este vídeo, muito interessante e esclarecedor.
Demorou sete anos, conquistou a simpatia do povaréu e a confiança dos capitalistas e aí deu o bote. Com sete anos de atraso, o sapo barbudo temido por Mário Amato mostrou a garras e a liberdade tão comemorada com o fim do regime militar mais uma vez se vê ameaçada de mordaça e grilhões.
©Marcos Pontes
quarta-feira, janeiro 06, 2010
terça-feira, janeiro 05, 2010
Estou com medo da juventude
Me dirijo à caixa da padaria e aguardo enquanto um garotinho de uns dez anos escolha a bala que deseja na vitrine do balcão. A atendente, uma senhora, também aguarda pacientemente o pequeno freguês se decidir. Provavelmente o menino tinha dificuldade em escolher entre tantas tentações, mas as duas moedas em sua mão limitavam a seleção.
Por fim, já resoluto, o menino aponta pra algum papel colorido, “duas dessa”. A atendente se dobra e pega uma bala. A criança, já saboreando o doce por antecipação, exaltado a corrige “essa não, a outra”. Novamente a senhora erra de doce. Quase possesso a criança esbraveja, “essa não, sua burra! Eu disse aquela!”.
Educado sob normas rígidas daquelas em que os pais repetiam diariamente para respeitarmos os mais velhos, e não esquecer as palavras que abriam qualquer porta: por favor, com licença e muito obrigado, me espantei com a ira da criança, o desrespeito com que se dirigiu à nobre trabalhadora, a agressividade em suas palavras.
Reações desse tipo de jovens e crianças têm-se tornado corriqueiras, por incrível que possa parecer. Não são poucas as notícias de estudantes que agridem professores, de jovens motoristas que resolvem questões de trânsito com agressões físicas, de bandidos menores de idade, de filhos dando ordens e até sabão nos pais cada vez menos disciplinadores.
Os netos da geração de 68 foram educados pelos rebeldes que não confiavam em ninguém “com mais de trinta anos”, que ouviram seus pais serem reprimidos pela televisão, pelas revistas, pelo cinema e por outros amigos quando davam uma palmada ou levantavam a voz para colocar a criança “no seu lugar”. Criou-se uma culpa coletiva nos pais mais rígidos, mas não os orientaram como fazer a transição da disciplina da peia para a disciplina do diálogo. Os pais, que antes eram orientadores, se viram perdidos, sem parâmetros, não sabiam mais educar.
Hoje falar em disciplinar os filhos pode ser doloroso para os ouvidos dos mais liberais, como se disciplinar fosse sinônimo de surrar, sendo, tão somente dar disciplina, que, por sua vez, significa, segundo o dicionário Aulete, “Instrução, ensino dados por um mestre a seu discípulo; submissão do discípulo à instrução e orientação do mestre; Respeito e obediência a regras, métodos, autoridade superior etc.; Conjunto de princípios e métodos estabelecidos para o funcionamento adequado de qualquer instituição, atividade etc.; Ordem, arrumação, organização”. Não pode-se considerar errado, portanto, disciplinar um filho, um aluno ou qualquer outra criança, o erro estaria se a maneira de se fazer isso for desrespeitosa para com a criança, para com sua integridade física ou psicológica.
Disciplinar é impor os tão famosos limites, é ensinar-lhe o que ensinavam os “antigos” como, por exemplo, que o seu direito termina onde começa o direito do próximo; a coisa pública deve ser respeitada porque não tem um dono, todos somos donos; os mais velhos podem até errar, mas devem ser respeitados, assim como devem ser respeitados os irmãos, os colegas, os vizinhos... São muitas as regras da boa convivência e do respeito mútuo, difícil, parece, está sendo os pais e responsáveis saberem como colocar esses limites sem sentirem a famigerada culpa.
Nada do que foi dito até aqui é novidade, pode até parecer piegas para muitos dos que lerem, mas, mesmo sendo sabido por todos, algo de novo está proibindo que esses princípios sejam retransmitidos para as gerações seguintes. Estamos formando gerações dos detentores de todos os direitos e poucas obrigações, o que dá ainda mais medo das gerações seguintes.
Já vi filho de treze anos dar esporro no próprio pai, um doutor médico, na frente de seus professores e colegas; já vi jovem empurrar idoso em fila de banco e ainda proferir o odioso “sai pra lá, velho”; já vi filha de doze anos mandar a mãe para lugares anatomicamente inadmissíveis; já li em jornal menor assassinar casal de velhinhos aposentados a pauladas porque esses teriam revidado a um assalto, sendo o senhor mutilado nos membros; já vi filhos, não poucas vezes, mandarem os pais calarem a boca e, pior, os pais obedecerem.
Confesso que estou amedrontado com a juventude que nos cerca. Medo de chamar a atenção do motoqueiro que passa com sua moto sobre a calçada do comércio sem medo de atropelar alguém, de pedir ao rapaz para voltar ao final da fila por que nós chegamos antes, de comunicar a um aluno que ele reprovou na escola.
Ficar refém desse sentimento de insegurança diante da juventude que deveria ser preparada para nos substituir melhor do que nós fomos em nossa geração é um dos sentimentos mais frustrantes, já que engloba em si a incompetência de minha geração que não soube melhorar o mundo a partir de seus descendentes e a sensação de que, por conta de nossos erros na educação, o mundo será menos seguro e gradável na próxima geração.
©Marcos Pontes

