Pesquisar neste blog e nos da lista

segunda-feira, julho 31, 2006

Mariposa, Joseph Tany

Mariposas


Mariposas se batem no vidro, milhões de mariposas em frenesi, em festa, assustadoras, batem no vidro da janela que tende a se abrir ante a fúria das borboletas noturnas, silenciosas fazendo batucada de samba louco no vidro.

O vidro reflete as borboletas e as paredes refletem o som da batucada na sala escura de madrugada escura de mariposas negras que batem no vidro, forçando a janela que resiste, mas quer se abrir ante a fúria das mariposas que resistem àdureza do vidro da janela cerrada e escura da cor das mariposas e da madrugada que ecoa nas paredes como as mariposas se refletem no vidro.

domingo, julho 30, 2006

Solidão, Manuela Pinheiro


Limpeza


Em um único escarro bem dado cuspiu todos os amigos do bolso para o outro lado da rua da amizade.

Ouvidos tapados com cera de abelhas mal-criadas nas árvores da praça, como menores abandonados, para não ouvir novos amores.

Sem palavras, sem lágrimas, nada.

Gritos interiores no silêncio da noite, jacintas surdas, vaga-lumes cegos, morcegos insones, fábulas de mariposas e solidão.

Sorveu o sangue dos vampiros e o sêmen dos impotentes, lambuzou-se nos lábios inferiores das garotas da Playboy e ficou rolando na rede como um peão horizontal perdido e tonto. Nas vagas da maresia da vida que o embalam em sua pobreza.

sábado, julho 29, 2006

Tô ruim, mas não morri


Quando adoeço, costumo me isolar, não suporto ficar dando trabalho aos outros ou ser tratado como um dodoizinho-bilu-bilu, mas dessa vez a coisa tá braba. Nunca uma gripe me deixou tão mal! São três dias constirpado, uma tosse de vira-lata que pegou chuva, dor por todo o corpo, febre e nenhuma vontade de comer, embora não tenha relaxado com a hidratação. Tô precisando de uma mãe; qualquer uma serve. Pelo menos o telefone e o celular estão desligados para ninguém me peerturbar. Vou ali tentar respirar por algum orifício alternativo, se conseguir, eu volto.

sexta-feira, julho 28, 2006

Elle Indio, Piedra


Amor guarani


Voam, voam flores na aragem e o tempo voa. Voa infinitamente alto, tão alto que a vista não alcança. Voa longe, voa cinco anos, cinco tão distantes-próximos anos que as pernas parecem pequenas para percorrê-los.

Voa alegre e único o tempo, vôo de guaynumby arrastando notícias de um dia que não foi.

Voa o tempo graracy-aba cabelos do sol, arrastando nos filhos da noite notícias do outro mundo, qualquer mundo, onde o amor é alegria com os amores e alegrias de todo o mundo da ponta do longo bico.

Vôo eu nos teus brincos sendo tu flor e eu teu guaynumby, quem sabe?, guynamby!

Vôo festivo de alegre ave fazendo curvas e dribles no espaço de nós dois.

Tremo, tremo nesse espaço único e inacabável, infinito espaço que nos separa. Sugo tuas pétalas no ar, teu perfume persistente em busca do âmago, da essência, do átomo reluzente que forma tua estrutura inigualável das flores mais primeiras.

Vim do ipê em que reinavas à procura da juçara onde és majestade e recebo paãs no peito, doces e ardentes dos teus olhos distantes enquanto não chego e não sei se chegarei.

Enquanto não chego, te trago presa, guardada, em uru, nambi, patigurá, patuá, moco... Sei lá o que, dentro do peito.

Canto agora minha maranduba, minha poranduba, tuxaba inesgotável, morubixaba sem fim, moacara de longa data, nhengaçara inacabável de braços que tu querias para tua cintura, o amor.

Teu peito de ubiratã rejeita meus afagos, mas faço toryba aos teus acenos. Monto minha moroca longe dos teus rios e te observo do outro lado do pará, vestes nas mãos, elevando minha apem até as nuvens.

Tapuia que sou, me refugo nos matos e ipon-juca em tua defesa, quem ousa te olhar.

Cejy brilha no céu e tu naterra enquanto eu, morto na mata, sonho com o que vi, e verjo e sonho e espero e guardo.

Te encho de canitares nas noites mal dormidas, te enfeito de contas, te coloro de penas e pena que seja sonho.

A-por-u me comporto de dia, a-poro-tim à noite. Pelos teus cabelos ercebo que tua tribo é outra e tento me converter. Sou marabá caçador não de onças ou jaguares, de ava-canoeiros, quatis, surucucus, mucuri, honras ou malvadezas, sou marabá caçador de cunha filha da lua, dona da noite, de cunhataí. Sou caraíba perdido na busca de quem sou no corpo ignorante do amor que tenho. Sou ajurrendy-pira de Cojy nascido, por Tupã gerado, membyra de Ceci e vou morrer no porá imenso de tua boca.

quinta-feira, julho 27, 2006

Gaiola, Cândido Portinari


O que se prende?


O menino e a gaiola, dupla inseparável, procuram prisioneiro pelo prazer do canto.

Prendendo o menino se sente livre, correndo no mato, subindo na mangueira, fugindo de casa...

A gaiola e o menino, almas gêmeas, buscam, não se sabe, o bico ou o canto?

O canto não se prende, é a voz da liberdade chamando pela soltura que se espalha ao vento.