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domingo, agosto 01, 2010

Renovação impossível

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Há quatro eleições voto na mesma candidata para vereadora. Ela elegeu-se apenas uma vez e, durante quatro anos, foi a mais atuante na Câmara. A Professora Iracy é petista das antigas, briguenta, honesta e capaz. Está afastada da direção local do partido nesses anos em que a honestidade anda bem afastada dos objetivos do PT.

O atual presidente é amigo de vinte anos, mas não dividimos intimidades. Talvez divido à minha aproximação com a Iracy, ele ache que eu seja eleitor contumaz do partido também para outros cargos. Dia desses o encontrei na rua, veio com uma cobrança boba. “Ouvi dizer que você vai votar no Serra”, me disse. Confirmei. E ele: “pô, você mudou um bocado”. Entendendo que ele me achava eleitor do Lula, rebati de pronto, “o PT também mudou um bocado”. Desconcertado, ele deu de ombros e seguiu caminho.

Mais tarde nos encontramos na casa de um amigo comum e ele voltou ao papo. Queria saber por que eu não votaria na Dilma. Não perdi meu tempo explicando que não votara em Lula, mas usei argumento rápido, daqueles que a gente usa quando não quer dar trela ao interlocutor. “Ora, se eu não tivesse qualquer motivo para não votar na Dilma, votaria pela necessidade de haver alternância no poder. Aliás, não era esse o discurso do PT nos tempos de sua criação?”.

Fui na ferida. Mas petista é do tipo que arrudeia para não perder a discussão, mesmo quando não há qualquer argumento. A resposta dele foi a mais infantil que eu poderia esperar, “é, mas têm poderes que devem se repetir”, na clássica posição relativista esquerdista que prega que o “o que é bom pra nós, é excelente; o que não nos serve, não serve para a humanidade”.

Esse preâmbulo todo para entrar no tema proposto pelo José Parra ( @ParraJose , para os tuiteiros), que sugeriu que eu falasse dobre a renovação do Congresso nas eleições deste ano.

Mesmo entre os eleitores mais politizados existe o discurso de que é necessário renovar todo o Congresso e a linha de atuação dos governos federal e estaduais, mas isso só deve ser feito se o meu candidato for eleito. Todos devem sair, menos aquele em quem votei.

O presidente local do PT quer que seu partido se eternize no poder, mas eu também voto, há dezesseis anos, na mesma candidata a vereadora. Sem perceber, nos tornamos hipócritas políticos.

Pela minha vontade, como cidadão, eleitor e completo insatisfeito com a postura dos políticos nacionais, a renovação deveria ser obrigatória, sacramentada por lei, como o é o voto, o serviço militar e a educação formal. Se os eleitores teimam em escolher gente mal preparada e/ou mal intencionada, que se acabassem as reeleições.

Não consigo entender, por exemplo, por que a reeleição só é permitida uma vez no Poder Executivo e infinitas no Poder Legislativo. Por que um prefeito só pode se reeleger uma vez, tendo que ficar fora do processo eleitoral por quatro anos para poder tentar nova eleição, enquanto que vereadores, deputados estaduais e federais e senadores podem reeleger-se em carreirinha pela vida inteira?

Não adianta clamarmos ela renovação do Congresso ou das Assembleias Legislativas, se a legislação permite que os políticos se reelejam ad aeternum.

Se não fossem esses políticos profissionais que fazem as leis, poderíamos requerer, na condição de cidadãos mortais, que as reeleições fossem banidas. Qualquer políticos só poderia exercer um mandato, por melhor que ele fosse. Sacrificaríamos os poucos bons para nos livrarmos da eternização dos péssimos, que são a regra.

Raramente um prefeito ou governador deixa de ser reeleito. Num país em que a fiscalização é quase nenhuma e a legislação é frouxa, os caras usam a máquina pública, inclusive o pessoal, gastam o erário assinando cheques generosamente em época de campanha, compram votos com benesses, abusam do poder econômico, compram consciências e mantêm-se no cargo. Os dois presidentes que se candidataram à reeleição, as venceram.

Deixemos um pouco nossas vontades pessoais de lado e pensemos no macro, no bem do país. Não reelejamos. Não votemos em quem quer que seja que já exerça cargo público.

Por melhor que seja seu deputado estadual, deputado federal ou senador, não vote nele.

Óbvio que essa é uma divagação que não terá reflexo nem na minha mulher, mas não custa nada tentar e, para dar o exemplo, votarei em alguém novo para todos os cargos, como votei no Juca Chaves para senador, há quatro anos e prometo não votar na Iracy daqui a dois anos.

 

©Marcos Pontes

3 comentários:

Neto disse...

O mais interessante é perceber que partidos, organizações, grupos ou pessoas, de fato, mudam mesmo com o tempo. Até mesmo àquelas que tem as mais arraigadas ideologias e conceitos. Mudanças, nesses casos, não pressupõe atraso, pressupõe oxigenação, melhoria de vida, etc. Traz receios inicialmente é verdade, mas pressupõe ousar e caminhar para o futuro (a um melhor futuro). E isso é o que realmente importa não é mesmo? :)

PS. faz tempo que não vinha por aqui. Parou de me seguir no twitter, rapaz! rs

Bea - Compulsão Diária disse...

Marcos, a reeleição, muitas vezes, é desejável, pois permite planejar a condução de um país, cidade, estado a mais longo prazo. Porém, dá margem à manipulação orçamentária e uma série de maracutaias. Evidente que o crime não é consequência da ereeleição. Penso que cria uma intimidade, um carreirismo.
Por isso sou a favor do parlamentarismo por sua flexibilidade e capacidade de reação à opinião pública, prevê que as crises e escândalos políticos possam ser solucionados com um voto de censura e a correspondente queda do governo e, até mesmo, a eventual dissolução do parlamento, seguida de novas eleições legislativas, sem ruptura política.
É instável? Não. é mais leve, mais ágil.

Carlos Emerson Jr. disse...

O FHC perdeu o governo (e a popularidade) quando brigou pela criação da reeleição. Eu mesmo deixei de votar nele e ainda acho que fez um péssimo segundo mandato.

Enfim, a renovação política, em todas as instâncias, é necessária e urgente, ou vamos ficar nas mãos das oligarquias de gente como Collor, Sarney, Renan, Lula e seu PT, o PMDB, os bispos da Universal e por aí vai.

Nenhum dos três principais candidatos fala em acabar com a reeleição, o que talvez mostre que sua disposição para bancar uma verdadeira e legítima reforma eleitoral é ZERO!

Sinceramente ? Vença quem vencer, nós perderemos essa eleição. Infelizmente...