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segunda-feira, junho 26, 2006

Thinking Head

Filosofia


- Por favor, sente-se, pode ficar à vontade.
- Obrigado.
- Em que posso ajudá-lo?
- É meio difícil começar. Não sei por onde.
- Tem algo em particular que o aflige? Tem algum problema que julga grave?
- Não, doutor, talvez seja esse o problema: não tenho problemas.
- O que o trouxe aqui?
- Posso chamá-lo de Eduardo?
- Claro, é meu nome.
- Assim posso imaginar que estou conversando com um amigo, fica mais fácil.
- Me chame de Eduardo, sem problemas, mas tem que ficar claro para o senhor que não somos amigos. Sou um especialista que pode ajudá-lo. Não que eu não queira ser seu amigo, mas aqui nossa relação é profissional.
- Não se preocupe, Eduardo. Não tenho nenhum complexo de exclusão. Aliás, não tenho nenhum complexo.
- Pelo visto o senhor conhece alguns jargões psicanalíticos...
- Pois é, há anos venho lendo sobre filosofia, antropologia, psicologia, religiões.... Tudo para encontrar um sentido para a vida.
- Qual a sua formação?
- Sou arquiteto.
- Sei, um homem das exatas.
- Mas essa inquietação vem de muito antes da faculdade.
- O senhor acha que só terá sossego quando encontrar uma explicação lógica e racional para a existência da vida, é isso?
- Eduardo, qual é a única certeza que todos temos?
- ...
- Vamos lá, me diga. É o que diz todo mundo e é uma certeza absoluta.
- A morte?
- Exato, a morte. A única certeza que temos é que cada um de nós morrerá um dia. Só que a morte é um piscar de olhos. Se a vida fosse um livro, a morte seria o ponto final. Não existe um livro sem ponto final. Até o "Sargento Getúlio", que não tem uma vírgula em todo ele, tem ponto final. Um livro, para ser bom, tem que ter um enredo imprevisível. Se você souber o que vai encontrar na próxima página, o livro não tem graça.
- E o senhor quer entender o enredo da vida...
- Por isso eu tenho que entender porque ele foi escrito, com que intenção, entende?
- Unrum.
- Nessa busca de anos, encontrei milhões de certezas. Cada pensador, cada filósofo e até mesmo pessoas comuns que encontro pelas ruas, todos têm certezas incontestáveis, pelo menos para si próprios. Os que não conseguem discutir a respeito culpam a Deus, o destino ou qualquer outra coisa mais inexplicável que o próprio Deus. Só que cada explicação me desperta mais perguntas que respostas. São muito vazias, cheias de espaços em branco. Menos a morte. Esta é exata, mais rápida que um suspiro.
- Tem gente que leva anos doente, em processo de depauperação do organismo, até que a morte venha.
- Mesmo moribundos, ainda estão vivos. Vivo, vivo, vivo, morto. Pronto, a morte é só isso. Um suspiro. Ela é simples de entender. É o fim, simplesmente.
- O senhor, então, não acredita em vida pós-morte, reencarnação, essas coisas.
- Eduardo, a vida, que está aqui em mim, à minha frente, à volta de mim, eu não entendo, vê se vou me preocupar em entender a morte.
- O senhor teria dificuldade em simplesmente viver, ao invés de preocupar-se tanto em decifrar a vida?
- Mas eu não sou diferente de qualquer outra pessoa nesse ponto. Jesus Cristo explicou a vida, Nietzsche explicou, Picasso, Carla Perez... Todo mundo acha que entende a vida, se convencem disso e não se questionam mais, só que eu sei que lá no fundo, no seu íntimo, apenas se recusam a discutir, a analisarem outras ópticas. É como sofrer calado. Se preocupam, simplesmente, em levar a vida da melhor maneira dentro daquilo que acreditam ser a vida. Você também deve ser assim, todos são.
- E o senhor diz que não tem problemas...
- E não tenho mesmo. Tenho uma profissão que adoro, a família que qualquer homem desejaria, uma renda altamente satisfatória, projetos e obras espalhados pela cidade e elogiados, o carro que quero... Do modo simplista de encarar a vida, não tenho nenhum problema, apenas não sei para que tudo isso.
- Pense assim: milhares de pensadores, religiosos, filósofos por milhares de anos não conseguiram desvendar esse mistério e eles só tinham tempo para isso, por que você é que tem que decifrar isso tudo?
- Qual é, Eduardo? Se Santos Dumont pensasse assim, até hoje estaríamos viajando em lombo de burro. Mas não quero decifrar nada, apenas entender.
-...
- Acabou minha hora?
- É, acabou.
- E quando nos vemos de novo?
- Você tem algum compromisso agora?
- Não, estou à toa.
- Que tal a gente terminar essa discussão tomando uma cerveja?
- Beleza! Conheço um boteco que tem um bolinho de bacalhau que é uma delícia.

sábado, junho 24, 2006

Bolero

Bolero


As sextas-feiras, até as seis da tarde, eram cruéis, lentas para Divanilma, as horas não passavam. O expediente da enfermeira não acabava nas sextas-feiras. Quando, por fim, o relógio batia a hora da saída, era a primeira a bater o ponto e correr para o ponto em que a espera pelo ônibus era uma eternidade.

Descia a duas quadras de sua casa e percorria a distância sem sentir qualquer cansaço nas pernas que trabalharam de um lado para o outro nos corredores do hospital durante todo o dia. Ao abrir a porta, o casaco já estava na mão, os sapatos desafivelados eram jogados para qualquer lado, da bolsa só retirava a carteira que transferia para outra bolsa menor, de alça fina e longa. Despia-se apressada em direção ao banho. O melhor xampu, o sabonete especial que não usava para trabalhar, não ficava bem uma enfermeira recendindo a sândalo e amêndoas enquanto limpava urinóis e fazia curativos.

O perfume caro, metade do salário, a saia rodada e colorida com a blusa de seda vermelha passada de véspera e deixada sobre a cama antes de sair para o trabalho, a meia-calça sóbria e os sapatos de salto agulha que a deixavam mais alta, elegante e com leveza no andar, andar de gueixa, como ela gostava de dizer.

Um olhar demorado e analítico no grande espelho. Nada poderia estar errado, nem mesmo um fio da sobrancelha cuidadosamente escanhoada. Uma olhada no relógio de parede, havia tirado o de pulso que julgava deselegante para uma dama em tais circunstâncias, além de não querer dar bola para o tempo depois que saísse.

Andava pelas ruas de paralelepípedo, uma nova Divanilma, despertando olhares enquanto se dirigia para o Baile do Valdívio, onde dezenas de cavalheiros, já impacientes, a esperavam e dançavam com qualquer uma para que a espera fosse menos dolorosa. Cada um alimentava a esperança de que essa noite teria a sorte de ter seu convite para dançar aceito.

Para consolo dos rivais, nenhum conseguiria. Sabiam que Divanilma esperava o par perfeito, o homem com quem dançaria pelo resto da vida.

Sua mesa, à margem da pista de dança, estava pronta como sempre. Valdívio a recebia na porta. Consorte com sorte e vítima das invejas masculinas. A conduzia até a mesa, lhe puxava a cadeira e, célere, trazia sua cuba libre com mais cola e gelo que rum.

O passo seguinte era o cortejo dos dançarinos solicitando seu par, educadamente dispensados.

Naquela sexta-feira, porém, um novato no baile, desavisado da história de Divanilma, não temeu a dispensa já esperada pelos demais.

Paletó e calça brancos, camisa vermelha contrastando com a fina gravata azul, sapatos pretos, primorosamente lustrados, Ferizórdio, encnstado com os cotovelos no balcão, encantou-se com a morena desde que a viu entrar, braços dados com Valdívio. Observando suas ancas balouçantes e as batatas das pernas fortes e grossas equilibando-se graciosamente sobre os saltos finos, Ferizórdio percebeu o potencial do par perfeito para o bolero.

Com a ginga segura de quem sabe usar muito bem as pernas na pista, Ferizórdio aproximou-se de Divanilma. Com exceção do bolero, silêncio total, dezenas de olhos observando sua aproximação, inclusive os de Divanilma. Os homens torciam para ela livra-se do invasor ousado como se livrava deles; as mulheres, enciumadas, não queriam ver mais um homem fisgado pelo charme passivo de Divanilma.

- Bela senhorita, Firizórdio, seu criado. Muita satisfação.

Enquanto apresentava-se, tomava a mão da moça e beijava.

- Tão bela dama dar-me-ia a satisfação de acompanhar-me nessa dança?

Dançaram juntos até os primeiros brilhos do sol e há vinte anos continuam dançando todas as sextas-feiras no Baile do Valdívio.

quinta-feira, junho 22, 2006

Homem público é político; mulher pública é prostituta. Tudo a ver.


Frank, A Notícia, SC


Nessa novela toda da Varig, não penso em outra coisa senão na situação difícil por que devem estar passando os funcionários e suas famílias.




Só não reclamo das mudanças de horários nas repartições públicas em dia de jogo porque os usuários também estão em frente da televisão. Até os moribundos adiam a hora da morte para não atrapalharem a partida.




O Tribunal de Justiça de São Paulo obriga a promotoria a apagar 48 horas de gravações da entrevista que a Rede Globo fez com Suzane Von Richthofen. O juíz entende que as gravações vão contra o privilégio de sigilo na rlação entre advogado e cliente. Mais uma comprovação de que há uma grande diferença entre justiça e verdade.




Já o Ministério público Federal solicita que sejam devolvidos às autoridades suíças os documentos enviados por aquele país que comprovam que Paulo Maluf movimentou mais de US$ 200 milhões em contas numeradas abertas em bancos de lá. A justificativa é que o governo da Suíça não permite que esses documentos sejam usados como provas criminais em outros países e o Ministério Público quer manter boas relações com o governo suíço, o que poderá ajudar em investigações futuras. Na minha cabecinha pequena e quadrada, ficam algumas dúvidas: se não pode usar tais documentos, que diferença eles podem fazer no processo? Mesmo enfraquecendo as denúncias contra o político paulista, o MPF prefere não usar as provas mais consistentes contraele? Como pode a Justiça nacional se sujeitar às vontades de outro país? Sei não, mas é muita pataquada.




Hoje tem jogo, né? Hoje começam minhas férias, né? Eu não gosto de assistir a futebol, né? Bom, pelo menos vou encher a cara enquanto os amigos se esguelam diante de vinte e três desocupados suados e milionários.

quarta-feira, junho 21, 2006

"Comerciante morre estrangulado com golpes de facão"
(Atlantica News)

Eder, Charge On Line

A manchete aí de cima saiu no site de notícias daqui de Eunápolis. Enviei um e-mail para o redator que me agradeceu e corrigiu.




Amiguinha, sente aqui no meu colinho e confesse: O que a leva a assitir a uma partida de futebol? Devem ser aqueles homens musculosos, bonitões, elegantes, com uma conta bancária gordinha, não? Acreditem, seus namorados e maridos também. Calma, titio Freud explica. A negação é o primeiro estágio.




O cientista brasileiro (se não, seria jamaicano) Renato Malcher Lopes, do Instituto Cérebro Mente de Lausanne, Suíça, descobriu porque a maconha dá "larica", aquela fome insaciável depois de uma puxada. Agindo no cérebro, por um lado a maconha aumenta o prazer ao se saborear um alimento; por outro, inibe o mecanismo cerebral que avisa ao cérebro que o corpo já está saciado da fome. Não sei quanto a você, mas eu não conheço nenhum maconheiro gordinho. Minha sugestão para a próxima pesquisa do Instituto.




Atenção, amiguinhos, mais dois e-mails com "cavalo-de-tróia" estão circulando pelaqui. Um é sobre o Bussunda. Os autores, provavelmente, apostam no prazer sórdido do brasileiro em ouvir história sobre quem já morreu. O segundo vem como a notificação do Orkut de que alguém escreveu em seu scrapbook. Segurem sua curiosidade e não os abram.

terça-feira, junho 20, 2006

"Não sabemos quem é mais louco, se o presidente Bush ou o presidente do Irã. Ambos foram eleitos democraticamente. O que é confuso, porque aprendemos desde sempre que a democracia é o melhor sistema de governo que existe."
(Harold Bloom)

Eu nem acharia tão ruim...


As bolsas de aposta de Londres apontam, pela primeira vez, a Argentina como mais favorita que o Brasil. Fico imaginando com que cara Galvão Bueno e os platinofóbicos ficarão se isso acontecer...




Hoje está em moda no Brasil sentir ódio por quem faz fortuna ou ganha um dinheirinho a mais do que a média. Qualquer um que tem um poder aquisitivo melhor, dono de empresa, fazendeiro, que ganha na loteria, ou o que for, passa a ser ofendido, odiado pelos demais. Que ranço desgraçado esse que criamos por aqui. A meu ver, é pura inveja, afinal de contas quem não gostaria de ficar rico? O que não admitimos é que o vizinho fique primeiro.




Por falar em riqueza, o maluco-mor da Bolívia diz agora que vai estatizar a energia, as ferrovias e as telecomunicações. É o efeito Chavez que, ainda bem, anda meio distante daqui, salvo pela Heloísa "maluca" Helena e o Enéas. E há quem vote num deles...




Todos contra o consumidor! O Tribunal de Justiça de São Paulo, atendendo a "pedidos" dos banqueiros, desobrigou os bancos de diminuirem o tempo de espera em filas, mesmo tendo sido aprovada uma lei estadual nesse sentido. Não tem jeito, a corda só arrebenta do nosso lado. Atrelado a essa decisão paulista, qualquer outro estado pode decidir o mesmo, daí vamos ver diminuírem o número de caixas e termos que dormir nas portas das agências à espera de um bom lugar, como já fazem os velhinhos na Previdência.




Seguindo a novela sem-fim, ainda sem fim, o PMDB já admite uma coligação com o PT. É a velha história, o PMDB parece o Silvio Santos, entra governo, sai governo e eles continuam amiguinhos do ocupante do trono. E há quem votes nesses calhordas...




Fernando Gabeira, numa luta quixotesca, bateu de porta em porta, encheu tantos saquinhos que terminou conseguindo a criaçãoda CPI dos Sanguesugas. O problema agora é saber quem vai compor tal CPI, uma vez que são mais de 300 parlamentares envolvidos com a máfia. Breve no Guiness Book: Brasília serve a maior pizza do mundo!