Quando aconteceu a tragédia do furacão Katrina, arrasando New Orleans, a principal crítica que se fez ao então presidente George W. Bush, além da demora de envio de recursos às vítimas, do desvio de dinheiro para o socorro, foi a ausência dele no local.
Parecendo alguém que conhecemos, o presidente da mais poderosa militar, econômica e tecnológica nação do mundo afirmou que jamais havia sido alertado para a real magnitude da tragédia que se avizinhava. O presidente tatibitati não enviou tropas suficientes, gêneros alimentícios, remédios e assistência em quantidade e em tempo aceitáveis. Pior, ausentou-se, ele próprio.
Ao contrário dele, o prefeito de Nova Iorque, Rudolph Giuliani, não arredou pé dos arredores do atentado duplo ao World Trade Center. Sua ação pronta, a disponibilidade imediata de todos os recursos disponíveis e, principalmente, sua liderança constante o alçaram ao patamar de herói nacional, sendo mesmo lembrado à disputa pela presidência, disputa que, muito provavelmente, seria vitoriosa, não fosse o câncer para lhe interromper a trajetória.
A comparação entre esses dois atos levam bem à diferenciação entre chefe e líder. Bush tinha às mãos todos os recursos que quisesse, seja material, seja de pessoal, do seu próprio país ou de nações amigas, principalmente daquelas que têm brigadas bem preparadas e equipadas para socorrer vítimas de tragédias naturais, mas se ausentou. Sua boçalidade de semideus, a prepotência texana, lhe diziam que sua simples envergadura da faixa presidencial (isso é apenas uma figura de linguagem. Faixas presidenciais só existem em paizinhos subdesenvolvidos) bastavam para resolver tudo. Já Giuliani tinha noção de que a presença do chefe, o exemplo do guardião legal de um povo ajudam a elevar a moral dos seus comandados, não deixam esmorecer o ânimo, fazem o sangue da tropa circular mais rápido e desprega as mãos dos corpos inertes, levam à ação efetiva. A boa palavra e o exemplo contagiam.
Vimos agora, por quase 24 horas, Sebastián Piñera ao lado de sua tropa, depois de 69 dias de planejamento, investimento, engenhosidade, desprendimento e, principalmente, presença junto aos seus subordinados, resgatar um a um dos 33 mineiros que se encontravam confinados a mais de meio quilômetro abaixo de seus pés.
Piñera, independentemente dos dividendos políticos que arrebanhará, para despeito dos que têm alma pequena, foi líder. Não deixou de valorizar seu ministro de minas e o engenheiro chefe, outros dois comandantes que não arredaram pé do sítio em que se montou o quartel general de campanha e ação.
Não bastasse o presidente, estava ali a primeira dama, serena, acompanhando as famílias dos mineiros, aflitas e ainda mais inquietas com a proximidade do resgate. Não foi simplesmente uma boca de silicone e feições de botox sob uma cabeleira aloiradamente artificial maquiada para as capas de revistas e jornais. Foi companheira do seu homem e ombro amigo de seu povo.
Não pude deixar de escrever este texto, não pelo clamor da obviedade do momento, mas porque, enquanto assistia ao último homem sair daquela cápsula, um caixão que tira da terra ao invés de empurrá-lo para o fundo, me veio à mente a presença desses líderes e chefe em momentos cruciais para seu povo. Como se diferenciam os que dão ordens porque podem dá-las e os que sabem ouvir seus comandados e municiarem-nos de recursos para que executem da melhor forma a tarefa que sabem fazer.
Por dois anos Santa Catarina sofreu com enxurradas, cidades foram destruídas, vidas foram perdidas, famílias ficaram sem teto, e onde estava o presidente brasileiro? Entocado no palácio. Até os recursos parcos e atrasados que o governo federal enviou foram desviados. Investigações que apurariam o envolvimento das mãos sujas do filho presidencial foram engavetados.
Tragédias outras, em pouco espaço de tempo, ocorreram em São Paulo e Rio de Janeiro e o presidente da República sequer tirou a sunga verde com que se bronzeava nas águas reservadas da Praia do Forte.
Mais recentemente Recife e o interior pernambucano também sofreram o flagelo das enchentes. Nem em seu estado natal o presidente pôs os pés. Fez um voo de helicóptero, e só. Muito mais por propaganda do que por solidariedade.
Definitivamente, nosso Brasil não tem um estadista ou um líder no comando, no máximo um chefe que sequer sabe dar ordens e impor moral. Suas ordens são descumpridas e, quanto ao moral, cada contribuinte que dê seu jeito de elevar a sua.
©Marcos Pontes