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sexta-feira, junho 30, 2006

Eita preguicinha boa...


Estava planejando passar essas duas semanas de recesso em Niterói e Rio, mas depois de um fora e de um bolo, preferi ficar por aqui mesmo. A casa está nas mãos do pedreiro que deve estar terminando a reforma quilométrica, enqunato isso estou na praia tomando água de coco e vendo o por do sol (mentira, tô enchendo o rabo de cachaça e acordando depois que o sol se põe). Nos vemos na segunda (caso eu ainda tenha casa e pc) com um texto que terminei de escrever e de que gostei muito. Vou aproveitar pra visitá-los na volta. Tá todo mundo trabalhando direitinho? Coitados...

quarta-feira, junho 28, 2006

Raças


Iguais?


Um amigo comentava comigo sobre a violência do jogo entre Portugal e Holanda. Segundo ele, tudo havia começado pela falta de fair play dos jogadores holandeses que recusaram-se em devolver a bola aos portugueses depois que o jogo foi interrompido para que um atleta luso tivesse atendimento médico.

O escritor Ruy Castro, na biografia de Mané Garrincha, "A Estrela Solitária", diz que foi Garrincha quem criou essa prática de interromper a partida para que um adversário fosse socorrido. Na época, o Anjo de Pernas Tortas, como dizia Nelson Rodrigues, foi ovacionado e elogiado pela imprensa. Esse tipo de atitude não mudou as regras do esporte, mas tornou-se uma lei tácita que ninguém ousa desobedecer sob a pena de ser hostilizado pela platéia. Mas, cá pra nós, se seu time estivesse perdendo, a poucos minutos do final da partida eliminatória da competição, você daria colher de chá para a outra equipe?

Esse exemplo de tolerância bem poderia ter sido criada por algum soccer player estadunidense durante o governo de Bill Clinton, quando a chatice do "politicamente correto" tornou-se uma praga mundial. Virou educação compulsória.

Eu até gosto das intenções iniciais: maior respeito ao próximo, aceitação das minorias e sua valorização, igualdade diante das leis, respeito ao bem público e ao bem comum e coisas do tipo. Mas tem sempre um chato a mais que perde a mão na receita e exagera no fermento.

Da valorização à supervalorização foi um salto. Da política afirmativa vieram as cotas. Do apoio veio o paternalismo.

Não se pode mais falar o que se pensa, só é permitido falar o que agrada. Não se pode mais agir como se quer, apenas de modo que não ofenda quem quer que seja, como se fosse possível agradar a todos. Pagu e Leila Diniz seriam apedrejadas em praça pública se ressuscitassem hoje com os mesmos hábitos.

A própria democracia não é mais a mesma. Se não, vejamos o exemplo dos próprios jogadores de futebol. Ninguém fala o que pensa com medo de ser punido, suspenso ou até enxotado do esporte pelos generais de cartola da FIFA, da CBF ou da imprensa. É uma rasgação de seda que dá nojo.

As minorias ditam as regras e a imprensa lhes dá os jornais, revistas e câmeras. Sem Terra (e sem caráter) destroem propriedades privadas e não são punidos; processam o Tiririca porque ele cantou para a namorada fedorenta que era negra; Michael não-sei-de-quê vende milhões de discos porque se declara gay e é pego fazendo "imoralidade" com um namoradinho ocasional num banheiro público; Marina Silva, semi-analfabeta, ganha o cargo de ministra por ser mulher, seringueira e amiga de Chico Mendes; evangélicos de Salvador pregam a violência contra macumbeiros - minoria ainda menor que os evangélicos - e mais milhares de exemplos esdrúxulos poderiam ser dados.

Nada contra as minorias, repito, muito pelo contrário, mas esse protecionismo, antes de igualar os humanos, está criando um fosso e uma sociedade de castas. Ou você é rico ou pobre; branco ou preto; sem terra ou latifundiário; da barraca da moda ou farofeiro; metropolitano ou periférico; certo ou errado, no último caso, merecedor da fogueira da inquisição social; do sul ou de outro planeta; tem cabelos lisos ou é feia; gordo ou magro... As diferenças ficaram mais evidentes e mais discriminadas.

Assim não posso evitar a ironia: se você é mulher, homossexual, negra, pobre, analfabeta, deficiente física e mental, judia e mora longe, pode se candidatar à presidênciada república que é capaz de ser alçada ao cargo por cota.

segunda-feira, junho 26, 2006

Thinking Head

Filosofia


- Por favor, sente-se, pode ficar à vontade.
- Obrigado.
- Em que posso ajudá-lo?
- É meio difícil começar. Não sei por onde.
- Tem algo em particular que o aflige? Tem algum problema que julga grave?
- Não, doutor, talvez seja esse o problema: não tenho problemas.
- O que o trouxe aqui?
- Posso chamá-lo de Eduardo?
- Claro, é meu nome.
- Assim posso imaginar que estou conversando com um amigo, fica mais fácil.
- Me chame de Eduardo, sem problemas, mas tem que ficar claro para o senhor que não somos amigos. Sou um especialista que pode ajudá-lo. Não que eu não queira ser seu amigo, mas aqui nossa relação é profissional.
- Não se preocupe, Eduardo. Não tenho nenhum complexo de exclusão. Aliás, não tenho nenhum complexo.
- Pelo visto o senhor conhece alguns jargões psicanalíticos...
- Pois é, há anos venho lendo sobre filosofia, antropologia, psicologia, religiões.... Tudo para encontrar um sentido para a vida.
- Qual a sua formação?
- Sou arquiteto.
- Sei, um homem das exatas.
- Mas essa inquietação vem de muito antes da faculdade.
- O senhor acha que só terá sossego quando encontrar uma explicação lógica e racional para a existência da vida, é isso?
- Eduardo, qual é a única certeza que todos temos?
- ...
- Vamos lá, me diga. É o que diz todo mundo e é uma certeza absoluta.
- A morte?
- Exato, a morte. A única certeza que temos é que cada um de nós morrerá um dia. Só que a morte é um piscar de olhos. Se a vida fosse um livro, a morte seria o ponto final. Não existe um livro sem ponto final. Até o "Sargento Getúlio", que não tem uma vírgula em todo ele, tem ponto final. Um livro, para ser bom, tem que ter um enredo imprevisível. Se você souber o que vai encontrar na próxima página, o livro não tem graça.
- E o senhor quer entender o enredo da vida...
- Por isso eu tenho que entender porque ele foi escrito, com que intenção, entende?
- Unrum.
- Nessa busca de anos, encontrei milhões de certezas. Cada pensador, cada filósofo e até mesmo pessoas comuns que encontro pelas ruas, todos têm certezas incontestáveis, pelo menos para si próprios. Os que não conseguem discutir a respeito culpam a Deus, o destino ou qualquer outra coisa mais inexplicável que o próprio Deus. Só que cada explicação me desperta mais perguntas que respostas. São muito vazias, cheias de espaços em branco. Menos a morte. Esta é exata, mais rápida que um suspiro.
- Tem gente que leva anos doente, em processo de depauperação do organismo, até que a morte venha.
- Mesmo moribundos, ainda estão vivos. Vivo, vivo, vivo, morto. Pronto, a morte é só isso. Um suspiro. Ela é simples de entender. É o fim, simplesmente.
- O senhor, então, não acredita em vida pós-morte, reencarnação, essas coisas.
- Eduardo, a vida, que está aqui em mim, à minha frente, à volta de mim, eu não entendo, vê se vou me preocupar em entender a morte.
- O senhor teria dificuldade em simplesmente viver, ao invés de preocupar-se tanto em decifrar a vida?
- Mas eu não sou diferente de qualquer outra pessoa nesse ponto. Jesus Cristo explicou a vida, Nietzsche explicou, Picasso, Carla Perez... Todo mundo acha que entende a vida, se convencem disso e não se questionam mais, só que eu sei que lá no fundo, no seu íntimo, apenas se recusam a discutir, a analisarem outras ópticas. É como sofrer calado. Se preocupam, simplesmente, em levar a vida da melhor maneira dentro daquilo que acreditam ser a vida. Você também deve ser assim, todos são.
- E o senhor diz que não tem problemas...
- E não tenho mesmo. Tenho uma profissão que adoro, a família que qualquer homem desejaria, uma renda altamente satisfatória, projetos e obras espalhados pela cidade e elogiados, o carro que quero... Do modo simplista de encarar a vida, não tenho nenhum problema, apenas não sei para que tudo isso.
- Pense assim: milhares de pensadores, religiosos, filósofos por milhares de anos não conseguiram desvendar esse mistério e eles só tinham tempo para isso, por que você é que tem que decifrar isso tudo?
- Qual é, Eduardo? Se Santos Dumont pensasse assim, até hoje estaríamos viajando em lombo de burro. Mas não quero decifrar nada, apenas entender.
-...
- Acabou minha hora?
- É, acabou.
- E quando nos vemos de novo?
- Você tem algum compromisso agora?
- Não, estou à toa.
- Que tal a gente terminar essa discussão tomando uma cerveja?
- Beleza! Conheço um boteco que tem um bolinho de bacalhau que é uma delícia.

sábado, junho 24, 2006

Bolero

Bolero


As sextas-feiras, até as seis da tarde, eram cruéis, lentas para Divanilma, as horas não passavam. O expediente da enfermeira não acabava nas sextas-feiras. Quando, por fim, o relógio batia a hora da saída, era a primeira a bater o ponto e correr para o ponto em que a espera pelo ônibus era uma eternidade.

Descia a duas quadras de sua casa e percorria a distância sem sentir qualquer cansaço nas pernas que trabalharam de um lado para o outro nos corredores do hospital durante todo o dia. Ao abrir a porta, o casaco já estava na mão, os sapatos desafivelados eram jogados para qualquer lado, da bolsa só retirava a carteira que transferia para outra bolsa menor, de alça fina e longa. Despia-se apressada em direção ao banho. O melhor xampu, o sabonete especial que não usava para trabalhar, não ficava bem uma enfermeira recendindo a sândalo e amêndoas enquanto limpava urinóis e fazia curativos.

O perfume caro, metade do salário, a saia rodada e colorida com a blusa de seda vermelha passada de véspera e deixada sobre a cama antes de sair para o trabalho, a meia-calça sóbria e os sapatos de salto agulha que a deixavam mais alta, elegante e com leveza no andar, andar de gueixa, como ela gostava de dizer.

Um olhar demorado e analítico no grande espelho. Nada poderia estar errado, nem mesmo um fio da sobrancelha cuidadosamente escanhoada. Uma olhada no relógio de parede, havia tirado o de pulso que julgava deselegante para uma dama em tais circunstâncias, além de não querer dar bola para o tempo depois que saísse.

Andava pelas ruas de paralelepípedo, uma nova Divanilma, despertando olhares enquanto se dirigia para o Baile do Valdívio, onde dezenas de cavalheiros, já impacientes, a esperavam e dançavam com qualquer uma para que a espera fosse menos dolorosa. Cada um alimentava a esperança de que essa noite teria a sorte de ter seu convite para dançar aceito.

Para consolo dos rivais, nenhum conseguiria. Sabiam que Divanilma esperava o par perfeito, o homem com quem dançaria pelo resto da vida.

Sua mesa, à margem da pista de dança, estava pronta como sempre. Valdívio a recebia na porta. Consorte com sorte e vítima das invejas masculinas. A conduzia até a mesa, lhe puxava a cadeira e, célere, trazia sua cuba libre com mais cola e gelo que rum.

O passo seguinte era o cortejo dos dançarinos solicitando seu par, educadamente dispensados.

Naquela sexta-feira, porém, um novato no baile, desavisado da história de Divanilma, não temeu a dispensa já esperada pelos demais.

Paletó e calça brancos, camisa vermelha contrastando com a fina gravata azul, sapatos pretos, primorosamente lustrados, Ferizórdio, encnstado com os cotovelos no balcão, encantou-se com a morena desde que a viu entrar, braços dados com Valdívio. Observando suas ancas balouçantes e as batatas das pernas fortes e grossas equilibando-se graciosamente sobre os saltos finos, Ferizórdio percebeu o potencial do par perfeito para o bolero.

Com a ginga segura de quem sabe usar muito bem as pernas na pista, Ferizórdio aproximou-se de Divanilma. Com exceção do bolero, silêncio total, dezenas de olhos observando sua aproximação, inclusive os de Divanilma. Os homens torciam para ela livra-se do invasor ousado como se livrava deles; as mulheres, enciumadas, não queriam ver mais um homem fisgado pelo charme passivo de Divanilma.

- Bela senhorita, Firizórdio, seu criado. Muita satisfação.

Enquanto apresentava-se, tomava a mão da moça e beijava.

- Tão bela dama dar-me-ia a satisfação de acompanhar-me nessa dança?

Dançaram juntos até os primeiros brilhos do sol e há vinte anos continuam dançando todas as sextas-feiras no Baile do Valdívio.

quinta-feira, junho 22, 2006

Homem público é político; mulher pública é prostituta. Tudo a ver.


Frank, A Notícia, SC


Nessa novela toda da Varig, não penso em outra coisa senão na situação difícil por que devem estar passando os funcionários e suas famílias.




Só não reclamo das mudanças de horários nas repartições públicas em dia de jogo porque os usuários também estão em frente da televisão. Até os moribundos adiam a hora da morte para não atrapalharem a partida.




O Tribunal de Justiça de São Paulo obriga a promotoria a apagar 48 horas de gravações da entrevista que a Rede Globo fez com Suzane Von Richthofen. O juíz entende que as gravações vão contra o privilégio de sigilo na rlação entre advogado e cliente. Mais uma comprovação de que há uma grande diferença entre justiça e verdade.




Já o Ministério público Federal solicita que sejam devolvidos às autoridades suíças os documentos enviados por aquele país que comprovam que Paulo Maluf movimentou mais de US$ 200 milhões em contas numeradas abertas em bancos de lá. A justificativa é que o governo da Suíça não permite que esses documentos sejam usados como provas criminais em outros países e o Ministério Público quer manter boas relações com o governo suíço, o que poderá ajudar em investigações futuras. Na minha cabecinha pequena e quadrada, ficam algumas dúvidas: se não pode usar tais documentos, que diferença eles podem fazer no processo? Mesmo enfraquecendo as denúncias contra o político paulista, o MPF prefere não usar as provas mais consistentes contraele? Como pode a Justiça nacional se sujeitar às vontades de outro país? Sei não, mas é muita pataquada.




Hoje tem jogo, né? Hoje começam minhas férias, né? Eu não gosto de assistir a futebol, né? Bom, pelo menos vou encher a cara enquanto os amigos se esguelam diante de vinte e três desocupados suados e milionários.