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quinta-feira, novembro 30, 2006

A Fuga


A Fuga


Ariovaldo não agüentara as pressões sucessivas no dia-a-dia vindo de todos os lados e ainda por cima. Cobranças no trabalho, em casa e até dos amigos, de quem esperava apoio e fortaleza.

Partiria para o mundo, apenas a identidade e alguns trocados no bolso da calça, uma muda de roupas no saco de estopas que usaria à guiza de sacola e pernas na estrada. Por precaução, jogou um pacote de biscoitos e uma garrafa de água mineral junto com a camisa e a calça.

O sol de derreter chumbo ardia o crânio e dentro não o desanimaria. O cimento das calçadas irradiava o calor pelo solado do tênis, mas não evitaria que seguisse seu rumo rumo à liberdade, à leveza de viver, para longe de tantos problemas que o cercavam e não prometiam diminuir caso se mantivesse estático, amarrado, sem tomar uma atitude.

A dobrar a primeira esquina um frio subiu-lhe pela espinha, quase fanzendo-o travar o passo, mas não cederia, enfrentaria o carrasco que se aproximava.

- Aonde o senhor pensa que vai?

Silêncio como resposta e o olhar desafiador.

- Vamos pra casa, meu filho. Primeiro vai fazer o dever de casa, depois está liberado para jogar bola com os amiguinhos, tá bom?

Droga! Mais uma vez vencido pelo inimigo. Queria ver se seu pai continuaria mandando assim quando ele fizesse dez anos, só queria ver...

terça-feira, novembro 28, 2006

Ventanas


Pela Janela


Ainda pequenininha descobriu a janela. Na pontinha dos pés, braços apoiados no peitoril, punha-se a observar a rua. Na verdade, apenas um arremedo de rua, apenas um caminho tortuoso cercado por mato, casas esparsas, uma ou outra com uma cerquinha de madeira crua. Passavam vacas e cachorros e, de vez em quando, gente a pé. Para onde ia aquela gente? Raramente as via voltar. A mulher gorda passava com sua sacola de feira carregada de cheiro verde, sempre na mesma direção; o leiteiro com sua burrinha carregando os dois latões na ilharga, todas as manhãs; o velhinho de chapéu de palha de abas largas e a enxada no ombro, só ia, todos os dias; seu próprio pai que chegava à tardinha nunca saía. Dia após dias, os mesmos personagens.

Certa manhã percebeu que não precisava mais ficar na posição incômda e cansativa da ponta dos pés. Com as palmas plantadas no chão a vigília era mais agradável e demorada.

Viu as carroças chegarem com pedras, tijolos e areia. Na manhã seguinte os homens e suas ferramentas que cavavam linhas retas entrecruzadas, colocavam pedras e argamassa nessas valas, erguiam as paredes. Ela via a gestação e o parto das casas vizinhas, os novos moradores que chegavam aos poucos com suas muitas ou poucas tralhas, o que dizia se eram pobres ou muito pobres.

No primeiro de setembro a mulher gorda da sacola com verduras deixou de passar e a menina conheceu a saudade. As vacas tornaram-se mais escassas, as crianças mais abundantes e quando ambos se encontravam as crianças mostravam seu lado impiedoso atirando pedras e paus nos animais que debandavam na carreira que suas gorduras permitiam. Conhecera a imbecilidade racional.

De não sabia onde, no fim de uma tarde fria surgira um automóvel que passara rápido e barulhento levantando poeira. Com o susto que levara mal percebera que o monstro ruidoso era azul empoeirado. Depois deste outros apareceram, a cada semana com maior freqüência e as carroças lentas e silenciosas com seus cavalinhos simpáticos rareavam.

Amanhecia e ela ia para a janela enquanto as crianças iam para a rua. Brincavam de pega-esconde, amarelinha, bola, trepavam nas árvores menos a cada Mês, faziam algazarra entre gritos, risadas e ,às vezes, choro. No fim do dia voltavam para seus ninhos sujas, cansadas e felizes.

Viu uma delas sair de casa deitada num caixão branco, cercada de flores, de vestidinho branco, quatro homens a carregando, as mulheres atrás, véus cobrindo seus rostos que choravam enquanto cantavam um hino triste e compassado, entre elas sua própria mãe. Nenhuma criança. Elas espiavam o cortejo por trás de suas próprias janelas À noite a ouviria falar ao marido que precisavam vaciná-la contra sarampo.

Chegaram os caminhões carregando pedras, milhões delas, todas do mesmo tamanho e formato, outros carregando homens e ferramentas. Era uma barulheira animada que depois de algum tempo dava sono dada a repetição. Como vieram, partiram. Deixaram as pedras arrumadinhas sobre a rua, escondendo a terra, fazendo desenho igual ao dos tacos em que ela pisava.

Na semana seguinte vieram outros caminhões com mais homens e postes e fios. Enterravam os postes interligando-os com os fios, puseram lâmpadas enormes nos postes, puxaram fios até as casas e se foram. A partir daísuas tardes ficaram mais longas, gostava de ver as janelas acendendo quando o sol se apagava, uma a uma, aos pouquinhos.

Chegaram as televisões e as crianças sumiram das ruas. Não havia mais pega-esconde, baleado, bola... A gurizada foi substituída por automóveis, as cercas por muros, as janelas por grades, as árvores por postes, as estrelas por lâmpadas.

A vizinhança estranhou. Naquela manhã a janela da mulher triste não se abrira.

segunda-feira, novembro 27, 2006

A gramática portuguesa tem mais excessões que regras. Cientificamente, isso faz dela uma excessão.


Benett, Diário dos Campos, PR


  • Só um lembrete: o livro dos blogueiros continua à venda. Interessados, procurem a Loba Euza.

  • Diquinhas para os turistas que visitarão o Rio:
    1. Se vêm de muito longe, viagem de avião só até Vitória ou uma cidade mais perto, depois sigam de ônibus. Desembarcar no Galeão faz de vocês grupo de risco;
    2. Deixem as camisas havaianas, os tênis com meia com que pretendiam ir à praia em casa. Tentem passar desapercebidos, como um nativo. Tênis na praia é sinônimo de cartões de crédito, celulares, máquinas digitais e, quem sabe, dólares fáceis para os ratos de praia;
    3. Nada de perguntar como se chega ao Bondinho do Pão de Açúcar, ou ao Copacabana Palace, a não ser para o dono do Hotel em que estiverem hospedados. E mesmo assim se tiver seguro de que o cara é confiável. Se até a polícia tem gang para assaltar turistas, como confiar num paisano qualquer?
    4. Pochete? Além de brega, apetrecho feio à beça, é chamariz para assaltante;
    5. Puxe o "s". Pode até ser que não cole, se vocês tiverem praticado pouco, mas não custa nada tentar;
    6. Em último caso, entreguem tudo, não reajam, não peçam para o CB, sangue bom, deixar os documentos. Eles não gostam nem da mãe, imagina se vão atender aos seus apelos.

  • Nunca mais tinha falado de política por aqui, né? Mas essa novela do PMDB com Lula, a tal ponto que não sabemos mais quem foi eleito para presidir o país, vai fazer um dos dois lados se arrepender. Algo me diz que não serão aqueles do partido dos gabirus.

  • Quer dizer que as contas de campanha de Geraldo Alckmin não fecham? Ganharam um doce todos aqueles que disseram que eram todos iguais.

  • Quem me conhece há algum tempo já percebeu que sou um sujeito bem humorado, mas altamente irritadiço. E uma das coisas que me irritam profundamente é "babyrose". Não sabe o que é a "babyrose"? É uma doença também conhecida como "Sindrome de Baby", uma referência àquele personagem da Família Dinossauro, o Baby. Fácil perceber quem sofre do mal. O doente exige ser amado, até mesmo por quem nem conhece. É uma carência afetiva implacável! O acometido pelo mal não fala exatamente o mesmo bordão do personagem da série - "tem que me amar! Tem que me amar!" - mas o comportamente grita isso a todo momento.

  • Cultura inútil e desocupação quando se juntam geram coisas como o chinês que recitou, de cor, 67.890 decimais do número pi. Pra que serve isso, sabedeus. Eu, bom de matemática e professor da matéria, confesso que só sei de cor as seis primeira casas decimais e raramente uso três.

domingo, novembro 26, 2006

- Joãozinho, qual o masculino de sadia?
- Perdigão.


Fred, Correio da Paraiba


  • É comum os estudantes dizerem que História é uma matéria "decorativa", os mais íntimos falam "decoreba". Os professores da disciplina se rebelam, com toda a razão, sobre isso. Agora, convenhamos, enquanto História for ensinada de uma maneira tecnicista vai ser difícil conquistar o alunado, sem falar dos livros, na sua maioria sem qualquer atrativo para adolescentes e crianças. Será que os autores não perceberam que nessas faixas etárias gosta-se de tramas, conflitos, contos com reviravoltas e mistério? Por que, então, não se conta a História como se contassem uma estória?

  • Conversa entre duas amigas que escutei hoje de manhã:
    - Marilda, o que faz um promotor?
    - Promotor de Justiça?
    - É.
    - Ele representa o povo em ações cíveis, criminais, comerciais... No Judiciário, pelo menos segundo a Constituição, ele defende a sociedade quando alguma lei é violada.
    - Nossa! Então ele é um sujeito importante.
    - Ô!
    - E quanto ganha um promotor?
    - Assim, por baixo, eu diria uns 8 mil.
    - Jura?
    - É, por aí.
    - Burra! Burra! Burra! Idiota!
    - Oxe! Que foi?
    - Um promotor ontem ficou me cercando, me cantando, pediu meu telefone e eu não dei. Burra! Anta!
    - Ué, mas os promotores daqui, pelo que eu sei, são todos casados. Você fez bem em dispensar o traste.
    - Ele disse que é solteiro. Acho que vou ligar pra ele. Me deu um cartão e me convidou pra festa que ele vai promover.
    - Hã!?
    - É. Ó aqui o cartão dele.
    - Marânia, você é burra mesmo.
    - Que foi? Que foi?
    - Esse sujeito é promotor de eventos, não de justiça, bitolada!
    - E promotor de eventos ganha bem?
    - Deus ajuda as criancinhas, os bêbados e os mentecaptos.... Promotor de eventos só ganha dinheiro quando dá calote nos outros. Fique longe dele que você ganha mais.

  • Há uma semana eu estava tentando colocar isso aqui, mas sempre me esquecia. O Fantástico da semana passada abriu com uma repotagem sobre a modelo que se matara de anorexia, suicídio por insanidade. Logo depois vem a matéria do esquelético Dráuzio Varela pregando que você "tem que ser magro". Uma no cravo, outra na ferradura.

sexta-feira, novembro 24, 2006

Se não pode vencê-los, não capitule, não junte-se a eles.


Cotoco, Hemetério


Tipinhos


Reclama do tempo por mania.
Se chove, xinga São Pedro;
Se há sol, maldiz o dia.

Rejeita a comida por birra.
Se é sopa, empurra o prato;
Se é pastel, prefere esfirra.

Se o dia é claro, fecha a vista;
Na noite escura abre os olhos.
Odeia o adorado, não gosta da benquista.

Dorme cedo porque quer.
Não trabalha, não estuda,
Não é rico nem esmoler.

Mas de tudo sabe tudo,
Em cada coisa é doutor.
Diz-se sábio, não sortudo.

Nada satisfaz o tipo
Sejam coisas ou idéias.
Ao encontrá-lo, constipo.

Desses estamos cheios
Como intelectuais letrados.
Não lhes falo, não proseio.