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terça-feira, janeiro 05, 2010

Estou com medo da juventude

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Me dirijo à caixa da padaria e aguardo enquanto um garotinho de uns dez anos escolha a bala que deseja na vitrine do balcão. A atendente, uma senhora, também aguarda pacientemente o pequeno freguês se decidir. Provavelmente o menino tinha dificuldade em escolher entre tantas tentações, mas as duas moedas em sua mão limitavam a seleção.

Por fim, já resoluto, o menino aponta pra algum papel colorido, “duas dessa”. A atendente se dobra e pega uma bala. A criança, já saboreando o doce por antecipação, exaltado a corrige “essa não, a outra”. Novamente a senhora erra de doce. Quase possesso a criança esbraveja, “essa não, sua burra! Eu disse aquela!”.

Educado sob normas rígidas daquelas em que os pais repetiam diariamente para respeitarmos os mais velhos, e não esquecer as palavras que abriam qualquer porta: por favor, com licença e muito obrigado, me espantei com a ira da criança, o desrespeito com que se dirigiu à nobre trabalhadora, a agressividade em suas palavras.

Reações desse tipo de jovens e crianças têm-se tornado corriqueiras, por incrível que possa parecer. Não são poucas as notícias de estudantes que agridem professores, de jovens motoristas que resolvem questões de trânsito com agressões físicas, de bandidos menores de idade, de filhos dando ordens e até sabão nos pais cada vez menos disciplinadores.

Os netos da geração de 68 foram educados pelos rebeldes que não confiavam em ninguém “com mais de trinta anos”, que ouviram seus pais serem reprimidos pela televisão, pelas revistas, pelo cinema e por outros amigos quando davam uma palmada ou levantavam a voz para colocar a criança “no seu lugar”. Criou-se uma culpa coletiva nos pais mais rígidos, mas não os orientaram como fazer a transição da disciplina da peia para a disciplina do diálogo. Os pais, que antes eram orientadores, se viram perdidos, sem parâmetros, não sabiam mais educar.

Hoje falar em disciplinar os filhos pode ser doloroso para os ouvidos dos mais liberais, como se disciplinar fosse sinônimo de surrar, sendo, tão somente dar disciplina, que, por sua vez, significa, segundo o dicionário Aulete, “Instrução, ensino dados por um mestre a seu discípulo; submissão do discípulo à instrução e orientação do mestre; Respeito e obediência a regras, métodos, autoridade superior etc.; Conjunto de princípios e métodos estabelecidos para o funcionamento adequado de qualquer instituição, atividade etc.; Ordem, arrumação, organização”. Não pode-se considerar errado, portanto, disciplinar um filho, um aluno ou qualquer outra criança, o erro estaria se a maneira de se fazer isso for desrespeitosa para com a criança, para com sua integridade física ou psicológica.

Disciplinar é impor os tão famosos limites, é ensinar-lhe o que ensinavam os “antigos” como, por exemplo, que o seu direito termina onde começa o direito do próximo; a coisa pública deve ser respeitada porque não tem um dono, todos somos donos; os mais velhos podem até errar, mas devem ser respeitados, assim como devem ser respeitados os irmãos, os colegas, os vizinhos... São muitas as regras da boa convivência e do respeito mútuo, difícil, parece, está sendo os pais e responsáveis saberem como colocar esses limites sem sentirem a famigerada culpa.

Nada do que foi dito até aqui é novidade, pode até parecer piegas para muitos dos que lerem, mas, mesmo sendo sabido por todos, algo de novo está proibindo que esses princípios sejam retransmitidos para as gerações seguintes. Estamos formando gerações dos detentores de todos os direitos e poucas obrigações, o que dá ainda mais medo das gerações seguintes.

Já vi filho de treze anos dar esporro no próprio pai, um doutor médico, na frente de seus professores e colegas; já vi jovem empurrar idoso em fila de banco e ainda proferir o odioso “sai pra lá, velho”; já vi filha de doze anos mandar a mãe para lugares anatomicamente inadmissíveis; já li em jornal menor assassinar casal de velhinhos aposentados a pauladas porque esses teriam revidado a um assalto, sendo o senhor mutilado nos membros; já vi filhos, não poucas vezes, mandarem os pais calarem a boca e, pior, os pais obedecerem.

Confesso que estou amedrontado com a juventude que nos cerca. Medo de chamar a atenção do motoqueiro que passa com sua moto sobre a calçada do comércio sem medo de atropelar alguém, de pedir ao rapaz para voltar ao final da fila por que nós chegamos antes, de comunicar a um aluno que ele reprovou na escola.

Ficar refém desse sentimento de insegurança diante da juventude que deveria ser preparada para nos substituir melhor do que nós fomos em nossa geração é um dos sentimentos mais frustrantes, já que engloba em si a incompetência de minha geração que não soube melhorar o mundo a partir de seus descendentes e a sensação de que, por conta de nossos erros na educação, o mundo será menos seguro e gradável na próxima geração.

©Marcos Pontes

4 comentários:

Cachorro Louco disse...

Marcão ,bom dia .
A coisa tá braba mesmo.Este país de ovelhinhas doces e covardes permitiu que se fizesse uma lei para facilitar a delinquência chamado Estatuto da infancia e adolescência ,e agora paga por isso Esta lei foi feita para facilitar a impunidade dos menores infratores ,permitindo assim que criminosos adultos não sejam presos .Basta treinar um adolescente para executar o crime e depois ficar com o resultado e dar migalhas para o menor.Isto gerou uma monstruosa distorção na sociedade politicamente correta ,na qual é proibido bater ou castigar um filho ,e cria-se monstros a partir disso.
Será muito difícil mudar este estado de coisas pois os páis estão mais interessados em ver o BBB-10 ,do que saber o futuro de seus filhos .
Somos infelizmente uma sociedade de covardes preguiçosos,e quando uma voz se levanta contra este estado de coisas logo é calada por advogados brandindo o estatuto.
É claro que se pode usar mão de obra infantil semi-escrava nos confins do país ,mas isto já é outra história .

Abraços

Beatriz disse...

Querido,
no país das celebridades, do personalismo em que o presidente prima pela falta de educação...que esperar?
Aqui, elegância, polidez, finesse são sinônimos de patetice. O ibope é pros espertos, "oa caras" aqueles que aqui ganham a vida com a corrupção, os malandrões que compram carros importados e não pagam as mensalidades da escola de seus filhos.
E por aí vai mal

Fábio Mayer disse...

Sou de um tempo em que criança que fizesse isso apanhava ato contínuo... mas hoje em dia, é capaz de ter algum promotorzinho imbecil de justiça dizendo que a xriança tem razão, a velha é burra mesmo e mandando prender o agressor do "menor inocente".

Anônimo disse...

Eu falo que tenho medo de ter filhos na brincadeira, pra assustar minha mãe. Mas de fato, a cada dia fico mais apreensiva com o quanto aumenta a responsabilidade dos pais no mundo, quando vemos crianças e adolescentes cada vez mais cheios de vontades.

Eu me espanto com "vós" dando presentes pro irmão do aniversariante, pra ele não ficar com inveja. Eu só tenho 25 anos, mas passei a infância ganhando presente apenas no aniversário e no Natal, lembrança no dia das crianças, e nunca fiquei com inveja de ninguém, porque minha mãe nos ensinou que havia ocasião pra se ganhar presentes.

Tenho a sensação que meus filhos serão educados como meus pais. Nada de atrapalhar a conversa das visitas, nada de gritar com adultos, passar por média na escola não é mais que obrigação, e por aí vai. Só vou tirar as surras de cinto e cipó, claro...