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quarta-feira, dezembro 01, 2010

Gente Humilde

attention_manipulation

“Eu nunca sonhei com você

Nunca fui ao cinema

Não gosto de samba

Não vou a Ipanema

Não gosto de chuva

Nem gosto de sol...” (Lígia, de Chico Buarque e Tom Jobim)

Quando a moda musical era a música sertaneja, que algum engraçadinho apelidou excelentemente como “sertanojo”, aquela ex-sem-terra e hoje piloto de Fórmula Truck, Débora Rodrigues, xingou uma celebridade, de quem não lembro o nome, porque o rapaz havia dito que não gostava do dito estilo musical. Agora me vejo imaginando o que o povo de Ipanema falaria mal do Chico e do Tom por eles não gostarem de sol e jamais terem ido a Ipanema; o quanto seriam xingados pelos sambistas por não gostarem de samba. Se eu tivesse um pouquinho mais de bom humor, me divertiria com a chatice que o mundo tem se tornado.

Você é quase obrigado a gostar de filme brasileiro, de novela brasileira, de futebol, de Chico Anísio (ou Anysio, porque pobres de espírito adoram y e w) e mais um monte de coisinhas.

Está no receituário dos politicamente corretos, dos papagaios acéfalos e nos livros de auto ajuda para os papagaios acéfalos: Se você quer fazer sucesso, comece sendo você mesmo. Só essa segunda oração do período tão imbecil já daria uma enciclopédia. Como ser “você mesmo”? Alguém consegue ser outra pessoa? Até quando você finge ser quem não é, está sendo você mesmo, ou seja, uma pessoa dissimulada.

Como vou ser eu mesmo se eu for, por exemplo, um pedófilo? “Por favor, respeitem minha opção sexual, eu sou um pedófilo e exijo respeito”. Tá legal, mudemos, então, as leis e o senso popular para que o pedófilo seja aceito como um respeitável cidadão e não um psicopata. Para isso, modifiquemos também os anais da psiquiatria.

“Por favor, troquem a arrumadeira do meu quarto. A atual é lésbica e eu sou homófobo”. Prontamente o hóspede teria seu pedido, afinal de contas ser homófobo é um direito seu tanto quanto ser lésbica é direito da camareira.

Ah, mas o politicamente correto também não diz que somos todos iguais? Aliás, o politicamente correto diz que temos que saber viver com as diferenças. Peraí, afinal de contas somos todos iguais ou todos diferentes? Ou somos todos iguais em nossas diferenças? Ou somos todos diferentes em nossa igualdade?

“Senhor, por favor, sente-se e aperte o cinto, o avião está pronto para decolar”; “Não, aeromoça (só os comissários de bordo se tratam como comissários de bordo, repararam?), vocês colocaram um oriental na poltrona ao lado da minha e eu sou racista”; “Bem, senhor, como ele chegou primeiro, arrumaremos para o senhor um lugar na primeira classe ao lado de outro negro”. Tá, todos teríamos o direito de sermos racistas, como se houvesse mais de uma raça humana, mas isso é papo para biólogos e filósofos.

O politicamente correto prega, por exemplo, o respeito ao credo alheio proibindo drasticamente que se fale mal dos credos minoritários, como o judaísmo ou as religiões afro-brasileiras, mas falar mal do catolicismo, pode. Tudo o que for maioria está sujeito a pedradas e aceitação passiva dos politicamente corretos. Pode-se, por exemplo, xingar um machista, mas nem pensar em macular as convicções feministas; pode-se ultrajar o patrimônio dos ricos (tá, os ricos não são maioria em número, mas são em numerários o que faz deles alvos legítimos dos pobres, desculpa, dos menos favorecidos, historicamente explorados e blá-blá-blá esquerdista), mas nem pensa em chamar pobre de pobre. O mesmo Chico Buarque, na magnífica e emocionante “Gente Humilde” apelidava pobres de gente humilde. Pobre é ofensa.

Aliás, virou ofensa chamar bairro de bairro e favela de favela. Agora são “comunidades”. Coletivo de “gente humilde” é “comunidade”. Os milionários de Angra não formam comunidade em seus condomínios fechados; os sócios do Pen Club não formam uma comunidade; não pode mais existir a comunidade científica. Esses privilegiados que arrumem outro nome para suas associações, comunidade é coisa de “gente humilde”.

Esse mundinho está muito chato! Já passou da hora de acabarmos com essas tais “justiças sociais” e os pseudo “resgates históricos” . Justiça social é tratar todo cidadão com os mesmos direitos como manda a Constituição Federal e não criar castas privilegiadas pela cor da pele, opção sexual, altura ou massa corporal. Resgate histórico é desculpa de recalcados que, a seu favor, pregam que as gerações atuais paguem pelos desmandos de seus tetravós, impingindo a todos os crimes de outrem, num claro desrespeito às normas legais.

 

©Marcos Pontes

8 comentários:

Madalena disse...

Que texto lúcido!

Perfeito, conseguiu transmitir a forma como eu também vejo essa suja realidade.

É uma lógica irracional. A nossa liberdade de expressão, termina quando paramos de reproduzir a expressão dessas bestas.

Adao Braga disse...

Quem é do grupelho tem tudo.
Quem é do grupelho é intelectual, é famoso. Quem não gosta de MPB, não é nem brasileiro.

Mas, só nós do lado, do outro lado, do lado de lá, que é lado, do outro lado de lá. Isto é, se reconhecerem as palavras do verso citado.

Beatriz disse...

A cultura do politicamente correcto torna as pessoas descaradamente falsas e mentirosas, tudo em prol do bom-mocismo asqueroso, da vaidade exacerbada. Uma sutil inversão da realidade? Não. Para saciar o desejo de aprovação dos outros e encobrir a covardia, chega-se a inverter fatos pessoais concretos à vista de todos, descaradamente. Um viva aos novos heróis da soberba, que é a fraqueza intelectual por excelência.

Então disse...

Adorei

Bete disse...

Como sempre arrasando nos textos!

Brasigrega disse...

Concordo perfeitamente. Quando se previlevia determinadas classes, automaticamente se discrimina a outra...
Um abraço

Maria Reis disse...

Adorei o texto, afinal uma das coisas que mais me irrita é o tal do politicamente correto.

livrexpress disse...

Mais um ótimo artigo do Marcos.

É a praga do politicamente correto e do marxismo cultural em ação: dividir a sociedade em grupos de eternas "vítimas" e eternos "culpados".

E, atenção, a praga não é exclusividade do PT, PCdoB e bandos assemelhados, embora esses famigerados partidos sejam grandes defensores dela. Observem que, além da esquerdalha tradicional, tucanos, demos & cia também adoram ser politicamente corretinhos e favorecer tal ideologia. Já é uma doença suprapartidária.

Saudações.