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quinta-feira, dezembro 02, 2010

No meu tempo já era assim

sessao1

 

No Brasil Colônia a política era hereditária. Só os ricos e nobres (parece piada falar em nobreza num arremedo de país colonizado por traficantes, escravistas, ladrões e desterrados), além de seus apaniguados, poderiam exercer cargos públicos. Na inauguração dos governos instituiu-se o nepotismo.

Essa prática tornou-se característica permanente, ou quase.

Dom Pedro I, no auge de sua diarréia às margens do Ipiranga nos separou politicamente da matriz, mas as moscas permaneceram. De pai para filho desde 1510, os cargos públicos permaneceram nas mãos dos amiguinhos, puxa-sacos e dos filhos playboys dos grandes comerciantes que poderiam emplacar suas crias na gerência do Estado.

Veio a república e o vício permaneceu. Deodoro mudou a forma, mas não o conteúdo do modo de se fazer política por aqui.

Já estava arraigada na cultura político-administrativa nacional a práxis de se colocar nos cargos e eleger para os parlamentos municipais, estaduais e federal não os mais competentes nem os mais técnicos, mas os mais fiéis ao chefe de algum clã. Raramente alguém conseguia furar o cerco e emplacar-se. Oligarquias proliferavam-se e solidificavam-se Brasil a dentro.

O país ampliava suas fronteiras e os ratos se proliferavam, como ainda hoje e pela natureza dos ratos, em progressão geométrica. Dividiram-se as capitanias hereditárias, depois os estados para dar lugar aos mantenedores financeiros das famílias mandonas, seja pela paz, seja pela cisão. Novos estados, novas oligarquias.

O Nordeste é sempre o berço das oligarquias, no ideário popular, mas elas apenas mudam de forma em todo o país. Se no Maranhão há hoje a mais conhecida das oligarquias, com a malta Sarney mandando, desmandando e contando com o apoio sucessivo dos governantes federais e do Judiciário, em toda a Federação existem os grupelhos familiares se dividindo e alternando nos postos eletivos ou indicados.

Na Bahia, os Magalhães; em Pernambuco, os Arraes; no Rio, os Brizola e os Maia; em Minas, os Neves; no Ceará, os Cals; no Pará, os Barbalho; em Santa Catarina, os Amin... Não precisa governar diretamente e nem estar nas manchetes do noticiário político, mas estão lá, ocupando ou indicando, postos importantes da máquina ou ocupando cadeiras com o sobrenome ou com nomes de agregados nos legislativos e judiciários.

Os Maia, por exemplo, no Rio, criaram Índio, o vice de Serra. Se esse moço tiver equilíbrio e esperteza, logo se emancipa de sua família criadora e forma seu próprio feudo. Via de regra, é assim que se faz.

João Durval Carneiro, por exemplo, foi catapultado à condição de celebridade política por Antônio Carlos Magalhães. Ganhou nome e vulto, separou-se do seu Frankenstein e hoje tem filho prefeito de Salvador, nora deputada federal eleita, outro filho deputado federal e ele próprio no Senado. Os Siqueira Campos ganharam o estado de Tocantins de presente, quando este foi separado de Goiás – que, por sua vez divide seu território e seus cargos públicos com parentes e amigos de Íris Rezende e Marconi Pirillo. Os Siqueira Campos fizeram fortuna, abandonaram o poder virtual, mas espalham-se como metástase nas estranhas do estado.

Via de regra, mesmo quando fora do poder virtual, chefes de oligarquias fazem candidatos e emplacam alguns, usam de sua influência, chantagem e poder econômico para preencherem cargos estratégicos para seus negócios e negociatas, indicam desembargadores e delegados... A festa está feita, os caminhos abertos para fazerem, desfazerem e, literalmente, soltarem e prenderem.

A política nacional é viciada em todos os seus níveis. Quem conhece algum partido por dentro já deve ter visto, por exemplo, um candidato a candidato, por exemplo, a deputado estadual ser “convencido” pelos dirigentes do partido a abrir mão de sua candidatura e apoiar alguém de mais interesse para a cúpula. Não interessa se aquele afastado seria melhor parlamentar do que o indicado, o que interessa é o que o eleito pode fazer pelos amiguinhos .

Na atual montagem do mega ministério da presidente eleita, está claríssima a manobra dos bastidores. A presidente não tem a mínima força política natural, seu único trunfo é ser próxima do Lula, amiga do capo, mas não é amiga do Dirceu, o dono herdeiro do PT, nem de seus coligados; não é amiga, sequer interlocutora de seu vice, o testa – e que testa cheia de botox – de ferro do PMDB. Por essas e outras, os rios da política só correm para pó mar de lama das lideranças.

Ingenuidade do eleitor que acredita que pode mudar a política mudando os políticos. O feudalismo, a corrupção, o nepotismo e o oligarquismo corre da mesma cor nas veias de todos eles, antigos ou recém aparecidos.

 

Tema desenvolvido a partir de sugestão do tuiteiro @JrMouraBa , a quem agradeço.

 

©Marcos Pontes

7 comentários:

Dri Falavigna disse...

A oligarquia está presente, mais forte do que nunca, muito bem adaptada aos ventos da "esquerda" festiva, a qual dá boas vindas ao poder e suas benesses.
Quem diria que que a crítica á oligarquia seria elevada a preconceito? No seu tempo era assim?

ABB disse...

A política nacional é viciada em todos os seus níveis.

Petescadas disse...

O Sul é talvez pior pois elas não aparecem ou aparecem menos no cenário nacional, mas existem inúmeras.

E todo dia aparecem situações constrangedoras nos donos, seja cargos, funções, familias ou partidos.

Márcia de Alencar disse...

Tenho preguiça de constituir família, que dirá oligarquia.
Mas, acho que todo eleitor merecia uma oligarquia para chamar de sua...rsrs

Anônimo disse...

Parabéns pela lucidez histórica e pelo brilhante relato.Amei.@ocao_zili

to-deolho disse...

BRASIL: O PAÍS DOS FEUDOS E NÃO HÁ HOBIN HOOD QUE CONSIGA ELIMINAR ESTA INDECÊNCIA DENOMINADA PARTIDO POLÍTICO QUE EXISTE APENAS PARA BARGANHAR APOIO EM TROCA DE BENESSES.

Marcos Ordonha disse...

...Então o que fará o eleitor?
Que a população cobre de si e de todos a moralidade e o ensino? Mas como dito não há explicitamente como.
O que fará o eleitor?