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terça-feira, fevereiro 07, 2006

"O tempo é o melhor professor, mas mata todos os seus pupilos."


Noite e dia se confundem




Tem texto meu na Gueixa.



O Menino Que Nunca Dormia


Aderaldo não dormia. Ainda bebê, recém saído do útero, apresentava os olhos arregalados. Chorava quando sentia fome, chorava quando tinha sede, chorava quando sentia cólicas, chorava quando sujava os cueiros, mas não dormia.

A mãe o colocava no colo, cantava mil cantigas de ninar, mas o pequeno Aderaldo sequer mostrava sinais de sono. Caladinho, observava os lábios da mãe se mexendo, ouvia a voz melodiosa que todas as mães, mesmo as mais desafinadas, têm quando cantam "tutu marambá, "boi da cara preta" ou outras cantigas para seus filhotes dormirem.

Com o tempo os pais desistiram, acostumaram-se com a insônia permanente do guri. Acreditavam que a criança dormia depois deles e não se preocupavam. O pai, curioso, passou a acordar de madrugada na esperança de encontrar o filho de olhos fechados no berço. Pé ante pé se aproximava, mas lá estava aquelas bolinhas escuras o observando.

Apenas por cisma o levaram ao médico, que não acreditou no relato dos pais de Aderaldo. Por via das dúvidas, deixaram o garoto internado por dois dias no hospital, monitorado 24 horas por uma enfermeira, que caia no sono antes da sua substituta aparecer, mas sequer um cochilo foi observado pela equipe médica ou por aquele monte de eletrodos colados em sua cabecinha. Como os exames clínicos não acusvam uma anormalidade que fosse, o liberaram.

Aderaldo crescia, estudava, jogava bola, brincava com os colegas, batia e apanhava, apaixonava-se pelas professoras e pelas colegas... Vida normal de menino, mas não dormia.

Para preeencher as madrugadas, o garoto lia tudo o que lhe passava diante dos olhos abertos, jogava ao computador, estudava, assaltava a geladeira, fazia amigos virtuais, mas não dormia.

Tornou-se um funcionário exemplar no mrcado financeiro. Seus olhos não perdiam nada do que acontecia nas bolsas de valores de todo o mundo. De madrugada, enquanto seus colegas e concorrentes dormiam, Aderaldo acompanhava as bolsas de Tóquio e de Seul. Investia, especulava, fazia fortuna.

Conseguiu uma velhice rica e confortável. Envelheceu desperto como vivera. Em seu enterro, fecharam o caixão, mas não conseguiram fechar seus olhos.

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

"Quanto de álcool se precisa para ficar completamente honesto?"
(Woody Allen)



Tem texto meu na Gueixa.


Vale a pena assistir

Um Bom e Um Péssimo


Antes que o Pedro, o Gabriel e mais algum atento leitor desse blog que tenha memória me apedrejem, quero deixar claro que o texto abaixo não é uma crítica do ponto de vista jornalístico, muito menos uma recomendação, apenas impressões pessoais.

Contraditório, eu? Confesso.

Eu gosto de escarafunchar as prateleiras de vídeos que ninguém mais vê ou que foram sucesso e que não assisti junto com todo mundo ou, ainda, locar filmes que ninguém viu. Volta meia faço isso.

No último final de semana aluguei o Escorpião de Jade, do Woody Allen, e o Vítimas Inocentes, com a participação do Morgan Freeman.

O Escorpião foi fácil. Gosto do humor sutil, original e inteligente de Allen. Se um dia eu aprender a escrever, que seja do jeito que esse sujeito faz. Tenho inveja de cada diálogo, cada referência que ele coloca dentro do contexto.

Fico imaginando alguns amigos meus assistindo a esse filme. A cada gargalhada minha, eles perguntariam do que eu estava rindo. Ou eu sou um completo débil mental ou eles não entenderam a piada ou eu estaria rindo apenas para dar a impressão de que entendera alguma frase vazia como uma criação altamente intelectual. A verdade é que os textos de Allen são biscoito fino.

É ou não é coisa de uma mente diferente da média das mentes humanas?

- Nunca aposte num cavalo que tem mal de Parkinson.

- O lugar é esfumaçado, o que diminui seu trabalho com a maquiagem.

- Sou mais esperta e mais rápida que você. Sinta-se ameaçado mesmo.(A Helen Hunt fala isso no meio de uma das muitas discussões com Allen).

- Por pior que a economia fique, você não vai passar fome. (Uma cantada que Allen dá na secretária).

- A vida fica tão complicada quando achamos que é simples... (Dan Aykroyd, tentando convencer a amante que vai deixar a esposa).

- Você é tão adolescente...
- Mas... Bonitinho?

- Detestaria ter eu atrás de mim.

- Se eu morrer enquanto estivermos juntos, pede ao embalsamador para não desmanchar o meu sorriso.

Sem falar na cara que ele faz ao ser hipnotizado. Me fez lembrar o saudoso Costinha, cuja cara por si já era uma piada.

Mas nem tudo são flores.

Estou há dois dias tentando entender qual a intençaõ do autor de Vítimas Inocentes. Se a intenção do cara era fazer um alerta aos jovens do seu envolvimento com o tráfico de drogas, foi apenas mais ou menos bem sucedido.

A narração do filme é confusa, pelo menos para alguém como eu que não tenho o ouvido tão afinado para perceber as diferenças de timbres nas vozes de quatro jovens negros estadunidenses. Pois a narração é assim. A cada momento a narração cabe a um dos personagens.

Peguei o filme por dois motivos: um, eu nunca ouvira falar dele (agora sei porque); dois, é (ou era, depoisdessa) sempre um prazer ver Morgan Freeman interpretando.

A história é confusa.

Os atores são péssimos. Tem gente olhando para a câmara a cada momento, tem criança que reclama da falta de doce com sorriso nos lábios, tem até defunto que pisca.

Vítima inocente, só uma. As outras duas mortes são de traficantes. Um comete suicídio e outro é assassinado na prisão por ter matado a filha de outro bandido. O título poderia ser Uma Vítima Inocente, Só Uma.

Erros de continuidade.

Não vou reclamar pelo dinheiro gasto porque o primeiro valeu o dobro do que paguei.

domingo, fevereiro 05, 2006

"- Ai meu Deus; ele está morto! E agora, o que a gente faz?!
- A carteira, relógio e o boné são meus".



Cruel, muito cruel


Amor Platônico Também Termina


Teobaldo nutria por Ziluê um amor inesplicável. Nunca haviam conversado, não sabiam o telefone um do outro ou sequer sabiam seus gostos, mas o frio na coluna e o embrulho na boca do estômago eram constantes è simples lembrança dela.

Tinham um casal, amigo comum, que casaria em fevereiro, na véspera do carnaval. Adevando, o noivo, prático e farrista, idealizaria a festa de recepção aos convidados como um baile de carnaval. Decoração havaiana com cenário de papelão e plástico, vodca a rodo, bebidas tropicais a base de frutas e petiscos. Ambiente propício para oembebedamento geral.

Durante toda a festa Teobaldo vigiava Ziluê à distância. Via o alvo dos seus suspiros emborcar as taças na boca e saracotear pelo salão. A moça não percebia um assédio ou outro de algum solitário, sua festa resumia-se às bebidas e à dança. Depois de poucas horas e muitas doses, suas passadas já não conseguiam ser retas o que fez o zeloso Teobaldo aproximar-se para um socorro que se fizesse necessário. E não demorou.

Ziluê entonteceu, ficou pálida, ensaiou um desmaio no meio do passe de uma dança de axé. Antes que fosse ao chão teve o amparo dos braços do admirador que a levou para um banco do jardim, abanou-a com uma folha de bananeira retirada da decoração, assistiu ao seu vômito sem cara de nojo, trouxe uma garrafa de água mineral para que tirasse o gosto ruim da boca e ouviu suas lamúrias de b~ebada.

A moça falava o quão era infeliz; que se apixonara pelo professor de química da faculdade, mas não era correspondida; que para fazer ciúme ao mestre, tomara Caléfolas como namorado, justamente o mais feio, burro e sem graça colega de turma; que Caléfolas era feio e burro, mas tinha uma cantada infalível; que perdera sua pureza para Caléfolas; que depois de empanturrar-se, lamber os dedos e passar as línguas nos lábios, Caléfolas a abandonara; que engravidara; que fora expulsa de casa pelo pai, velho conservador bedel da prefeitura; que, desempregada e sem poupança, fizera um aborto para não colocar no mundo uma criança sem pai e sem futuro; que morava num quartinho de pensão e vendia pules do jogo do bicho para poder manter-se; que gastava tudo em roupas para causar uma boa impressão e talvez ser beliscada pela sorte de um bom marido oude um bom emprego.

Teobaldo a levou para casa e prometeu-se nunca mais beber.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

"Ecologia é coisa de veadinho. E de macaquinho, de leãozinho, de elefantinho..."




Perdas e ganhos é o tema do meu texto hoje estreando no blog da Cláudia. Vai conferir?



Tudo começa no flerte

Erótico?


De uma ponta do balcão ela logo o notou na outra. Alto, bonito, olhos claros, sorriso branco, roupas elegantes e bem sustentadas pelo corpo forte, olhar de homem seguro se bem sucedido.

Assim que chegara, ele logo viu-se atraído por aquela loura que bebia um coquetel verde azulado. Alta, olhos amendoados, busto empinado como se quisesse saltar para a liberdade, cintura esculpida por cinzel de mestre, pernas aparentemente perfeitas sob o longo azul turquesa, sustentando-se sobre os saltos finos como a ponteira de um peão.

Não demorou para que estivessem na pista de trocando salivas e pernas nas danças e suspiros e juras nos ouvidos. O álcool, a dança e o calor já fervilhavam idéias libidinosas.

Mais um pouco e estavam no carro que ele guiava apressado tentando manter a concentração, enquanto ela lambia seu pescoço e apalpava as coxas e mais.

Pouco tempo depois, praticamente arrombavam a porta do quarto do motel. Ele, garanhão escolado, sabia que bastava afastar as alças que aquele vestido cairia até o chão sem dificuldade. Ela, amante de tantos homens, não tinha dificuldade de abrir-lhe os botões da camisa. Ele abria qualquer de sutiã com destreza e aquele não foi diferente. Ela, sem perder a concentração nas línguas entrelaçadas, arrancava-lhe a camisa de dentro das calças com maestria. Ele estranhava o peso do sutiã, mas não dava importância. Ela estranhava a aspereza no contato de suas barrigas, mas não se importava. Ele enfiava as mãos espalmadas dentro da calcinha para arrancá-la mais facilmente. Ela abria o cinto e o zíper como já fizera tantas vezes antes. Ele estranhava a fofura do tecido da calcinha, enquanto ela estranhava a falta de ereção.

Na penumbra se atiraram na cama. Mãos, pernas e bocas a mil. Ela se esforçava para fazê-lo rijo e ele para suportar seu hálito. Depois de muito tempo de tentativas que ambos se enganavam como preliminares, em cinco minutos deram por encerrado o ato. Ele bufava, ela fazia muxôxos de resignação. Sem sequer um "boa noite", viraram-se e dormiram como dois condenados à mesma cela.

Mal amanhecia, ambos se apressavam a deixar o lugar do martírio. Olhando o sutiã no chão ele entendeu o peso extra, enchimento de silicone. Olhando-o nos olhos, ela viu que seus olhos azuis também eram de silicone. Vendo a calcinha, ele entendeu que o tato diferente fora por causa do enchimento de algodão. Ela, vendo a cinta no chão, entendeu porque a barriga dele parecera áspera. Ao ver as pernas finas e marcadas por escapamento de moto, ele entendeu porque ela usava longo no verão quando todas as outras na boate usavam mini-saia. Percebendo que os dentes eram artificiais, ela entendeu porque seu sorriso era branco. Ao lavar o rosto, ela sentiu seu hálito pútrido e, envergonhada, entendeu a impotência do parceiro. Ao lembrar-se de sua impotência, ele apressou-se a abandonar o motel antes que ela voltasse do banheiro. Cavalheirescamente, não esqueceu de deixar trinta reais sobre a cama para que ela pegasse um táxi.





Não gosto de contos eróticos. Me sinto como se olhando oklhando pela fechadura. Sem falar nos clichês. Como sujeito esculahado que sou, resolvi escrever um anti-erótico.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

"Não leve a vida a sério... você não vai sair vivo dela!"




Como alguns de vocês não conseguiam comentar no Haloscan, o anjo da guarda desse blog, Lelinha, inseriu um segundo sistema de comentário com a ajuda da Dinda Gueixa.


Família perfeita.

Vida Dura


Qual é? Vai ficar encarando? Tira o olho, mané! Tá, tô bem vestido, tô sabendo, mas esse lance de você ficar me tirando não tá pegando nada bem. Sou macho, cara! Tá vendo essa magricela aí do lado? Por que não olha pra ela?
...
Pelo visto gostou mesmo da minha roupa... Vai lá dentro, cara. Tem um monte iguais a essa, sem falar que com essa barriguinha que você carrega a duras penas, minha camisa não vai caber em você, muito menos a calça. Imagina se tua cintura vai caber nesse cós... Isso, vai embora, isso aqui não é pro seu bico, não. Vai procurar algo que te vista lá no RM. Não sabe o que é o RM? Raimundo Marreteiro, bobão! Aquele cearense da barraca de camelô ali do outro lado da rua.
...
Opa! Boa tarde, gostosa. Tá gostando do que vê? Isso, dá uma voltinha, aprecia o material. Olha só meu corpãp, barriguinha de tanque, bíceps perfeitos... Hein? Hein? Me leva pra casa, avião. Isso, vai lá, conversa com a Charleana.
...
Sabia que você ia voltar. Isso, Charleana, tira o cinto, assim... Vai, abre o zíper. Que gostoso... Quê isso? Vai tirar minha calça aqui mesmo, na frente do povão? Safadinha.

Ô! Volta aqui! Devolve minha roupa! Socorro, segurança! Pega essas duas aí!

...

Colé, Zoaldo? Me larga, cara! Não! No depósito não, Zoaldo! Me larga, cara! Só porque você é maior que eu? Me põe no chão, camarada, por favor, por favor...

Vai me deixar aqui, amigão? Sozinho nessa sala escura, úmida, mal cheirosa? Faz isso comigo não. Tenha piedade.

Droga! Essa vida de manequim de loja é um saco!