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quinta-feira, setembro 07, 2006


Labirinto

Não fossem os enjôos e a ânsia de vômito, os problemas de labirinto seriam um grande barato.
Da primeira vez que passei por esse mal, sentia um ardor terrível nos olhos, não conseguia fixar a vista em qualquer coisa, os objetos dançavam à minha frente. Foi uma noite em claro e os olhos queimando. Como era algo novo pra mim, sequer suspeitava que o problema estivesse no ouvido interno.
De manhã, na primeira hora, fui ao oftalmologista. Era um amigo antigo e, melhor ainda, tinha consultório pertinho do hotel onde eu morava. Feitos alguns poucos exames ele diagnosticou conjuntivite, uma leve conjuntivite. Eu já havia tido conjuntivite e os sintomas não incluíam tonteira e ânsia de vômito. Nunca mais voltei lá, sequer para atualizar meus exames de vista, que acho que é a coisa mais simples que um oftalmologista pode fazer. Perdeu minha total confiança.
Ainda na calçada, e ainda sentindo tonteira, me vieram à memória minhas aulas de ciências da sétima série. Não seria o ouvido interno o responsável pelo equilíbrio do corpo? Me dirigi direto para o consultório do otorrinolaringologista, poucas quadras dali e também amigo meu. Sua agenda estava cheia e tive que apelar para a emergência e para o pistolão. Me identifiquei para a secretária e pedi que ela falasse com o médico.
É, fui contra meus princípios e furei a fila. Ele prezou nossa amizade. Mas, convenhamos, a causa foi justa.
O médico me deitou numa maca e injetou água no meu ouvido com uma seringa e pediu para eu comparar a sensação que estava sentindo com as que sentira na noite anterior. Eram idênticas. Me mandou fazer várias radiografias da cabeça e lá fui eu ao radiologista. Eu já suava frio. Tantos exames e mais os que ele agendara para a manhã seguinte não me davam boas perpectivas e, como todo brasileiro paranóico, já imaginei que poderia ser algo grave.
O radiologista, coincidentemente hoje meu vizinho de baixo, agilizou os exames, não pediu laudo nenhum uma vez que os exames seriam levados a um especialista, me entregou as chapas em pouco mais de uma hora.
O otorrinolaringologista havia me receitado um vaso dilatador e me disse uma coisa interessante: nos seus doze anos diagnosticara apenas um caso de labirintite. Pouco provável que foi esse o meu caso, mas que as pessoas, leigas ou profissionais da saúde, têm o hábito de batizar de labirintite qualquer caso de perturbação no labirinto.
No dia seguinte fiz vários outros exames clínicos e veio o veredito final. Eu tenho uma pequena artéria estrangulada no ouvido interno direito. Eu deveria tomar o vasodilatador e, persistindo os sintomas, eu deveria fazer uma ultrassonografia para ver se não havia um tumor. Por sorte os problemas passaram e o temido tumor foi descartado.
De lá pra cá senti essa tonteira mais umas três vezes, a última nesses dois últimos dias. O santo vasodilatador tem surtido efeito e já estou bem de novo.
E onde está o barato disso? Nos efeitos dispersivos do mal. Fica-se como uma sensação de flutuação, uma pequena dormência nos braços e a memória duvidosa. Você escreve, tem a certeza que está escrevendo corretamente, mas não reconhece o que está escrevendo, tem a sensação de que as linhas estão saindo tortas e as palavras indecifráveis. Tenta se concentrar no que escreve, mas não consegue. É tudo muito estranho. Você não consegue reconhecer a própria caligrafia.
Liga-se a televisão, mas não consegue concatinar as idéias do que está vendo e ouvindo. Pode aparecer o rosto mais conhecido que você possa imaginar, Chico Anísio, por exemplo. Você sabe que é o Chico Anísio, faz força para lembrar do nome da figura, lhe vem o nome de Chico Anísio, você fala Chico Anísio bem alto para ter a certeza de que não está maluco e que reconheceu o homem que vê. Mas sua visão não concorda com suas palavras, nem com sua audição e você duvida que seja o Chico Anísio. O programa termina e você não se dá conta, continua tentando lembrar-se do nome do Chico Anísio, mesmo tendo acertado na primeira tentativa. É uma viagem.
Você sente fome e só consegue fazer um simples sanduíche de queijo porque já fez centenas de sanduíches de queijo na vida, mas tem dúvida se está fazendo a coisa certa. Não seria correto colocar uma fatia de pão entre duas de queijo? Ou duas de pão e uma de queijo sobre elas? Melhor não seriam duas fatias de queijo e uma de pão em cima? E aí você ri da própria conclusão. O sanduíche é a única e mais importante coisa do mundo naquele momento. Caramba!, você sabe fazer um sanduíche de queijo, já fez tantos sanduíches de queijo na vida, porque essa dúvida agora?
Será assim que se sentem os portadores do mal de Alzeheimer? E aí você quase entra em pânico. Será que está com Alzeheimer? Não, é apenas um distúrbio labiríntico...
Você já conhece os sintomas, já teve isso antes, por isso providencia o vasodilatador imediatamente antes que as coisas fiquem mais difíceis. Se deixar para telefonar para a farmácia mais tarde (sair de casa nesse estado está completamente fora sequer cogitar sobre), não vai conseguir teclar os números corretamente. E não vai mesmo, nem adianta tentar. Aliás, eu já tentei e não consegui. Você sabe de cor o número de um amigo que possa ajudá-lo e tenta chamá-lo: 3... 2... 8... 1... Péra, eu teclei 34 96... recomeça e falha novamente e mais uma vez e outra e outra, até que desiste, percebe que não vai conseguir.
É muio divertido, mas espero que vocês não passem por isso. Depois de algumas horas pode transformar-se em desespero e depressão.
A propósito, por via das dúvidas, revisei esse texto três vezes, achei vários erros e acho que ainda existem alguns, mas relevem, por favor.

terça-feira, setembro 05, 2006


Pater, A Tribuna, ES

  • Não sou nada original, mesmo. Ontem falei da minha intenção de confeccionar um banner contra candidatos barulhentos, hoje o Pater sai com essa charge.
  • Por que Lula cresce também na classe média? A venda de veículos flex aumentou 8% em agosto. O fato é que a oposição baixa o malho, mas nenhum candidato apresentou um programa factível alternativo ao programa do atual governo, que, por sua vez, também não apresentou nenhum programa econômico para os próximos quatro anos. Aí o eleitor, sem alternativa melhor, prefere deixar como está. Simples assim.
  • Outra. A exportação de veículos e máquinas rendeu R$ 1,086 bilhão no mês passado. Isso significa divisas, emprego e renda. Tá ruim? O P.I.B. é insignificante, mas ainda tem gente crescendo mais que 0,5% e o eleitor só quer trabalho, segurança e comida na mesa, não necessariamente nessa ordem. A propósito, quem são os marqueteiros das campanhas atuais? Pra falar a verdade, não sei, mas que os caras são ruins de estratégia, lá isso são.
  • E o Lembo ainda aparece para atrapalhar mais a campanha tucana ao dizer que não pagará indenizações às famílias dos agentes carceiros mortos nos levantes terroristas do PCC. Alckimin deve estar amando seu ex-vice.
  • Por falar em vice, alguém aí se deu ao trabalho de pesquisar quem é o suplente de seu candidato a senador? Olhos nas cobras, elas, às vezes, são ainda mais peçonhentas que os titulares.
  • Pesquisa do Ibope atesta que o acesso á internet cresce 30% durante o horário eleitoral. Só deve ficar em frente à televisão os fanáticos e os parentes dos candidatos. O acesso à internet só não aumenta porque somente a minoria dos eleitores tem computador em casa.
  • A imprensa e os direitos humanos, que dupla! O sujeito pode ser flagrado em plena ação criminosa, mas a imprensa tem que tratá-lo como "suspeito". Me lembra a piada do cara que procura um advogado. O advogado pergunta por que o cara o procurou. "Doutor, matei minha mulher!", confessa o assassino. "Calma, meu amigo. DIZEM que você matou sua mulher, nós vamos provar o contrário", acalma o advogado.
  • O babaca Steve Irwin, o caçador de crocodilo caçado por uma arraia, agora está sendo endeusado. A agência de notícas AFP estampa o título "Morte filmada de caçador de crocodilos torna-se seu legado". Legado uma pinóia! Há quem ache bonitinho, emocionante e coisa e tal, pra mim não passa de mais uma cena do circo dos horrores. Daqui a pouco os telejornais vão nos encher a paciência mostrando e remostrando o tal vídeo. Pelo menos o bobão morreu fazendo o que gostava. Mas o que o tal sujeito tinha que fazer deitando-se sobre uma arraia? Aí é pedir pra se dar mal.

segunda-feira, setembro 04, 2006


Agê, DCI, SP

  • Me esqueci de mandar confeccionar um baner onde escreveria "Não voto em quem perturba meu sossego" para afixar na minha janela. Agora tenho que aturar esses carros de som a cada cinco minutos...
  • Ih! Os candidatos descobriram a internet e os anti também. Invadiram o site do PT e fizeram protestos e eu nem consegui ver o que foi feito... Sujeitos que se dizem democratas agem dessa maneira e acham que conseguem a simpatia de quem quer que seja ou apenas demonstram sua intatisfação? Algo me diz que essa moda vai pegar.
  • Como era de se esperar, Jorge Bornhausen, presidente nacional do PFL, o partido das hienas, já admite romper com o PSDB depois das eleições. Provavelmente prevendo (como todo mundo) a vitória de Lula, já se prepara para arrumar uma ponga na Esplanada dos Ministérios. Eita, gentezinha sem caráter...
  • Mas, para fazer jogo de cena, o Borhausen diz que entrará na Justiça contra Lula. Sábado, na Cidade de Deus, crianças assistidas por programas do governo federal pediram apoio à reeleição do presidente. A hiena-mor afirma que elas foram levadas à manifestação por órgão ligados à presidência. Se for fato, que seja acionada a justiça e que se pague, o difícil é acreditar em políticos, ainda mais em época de campanha (como se ela acabassem em algum período).
  • Pelo visto a política de Bush já está fazendo seguidores no Brasil. Imaginem, vossas senhorias, que o ex-procurador geral da República, Cláudio Fontelles, aquele acusado de ser o maior engavetador de processos que o país já teve, afirma que o pedido de quebra do sigilo bancário não pode ser interpretado como uma violação ao direito à privacidade das pessoas, que esse sigilo poderia ser quebrado sem autorização judicial. Quer dizer que qualquer um pode fuçar minha conta e eu não posso fazer nada? Legal. Alguém aí concorda com o Fontelles e gostaria de me passar o número da sua conta pra eu dar uma fuçadinha?
  • Pelo menos em um estado haveria segundo turno, segundo o Ibope. No Rio Grande do Sul há empate entre Alckimin e Lula.
  • Adoro as "pesquisas científicas" do primeiro mundo que a gente encontra de vez em quando nos jornais. Quem tem dinheiro sobrando inventa cada uma... O neurocientista britânico Jamie Ward chegou à conclusão de que pinturas também podem ser ouvidas. Segundo o sujeito, os "sinestetas" têm seus sentidos interligados de modo que, ao verem um quadro, este lhes emite som. Acho que vou encarar o poster da Playboy fixamente para ouvir o que aquele xibiu tem a me dizer.

domingo, setembro 03, 2006


Clauro, O Imparcial, SP

Blogar é como masturbação: a gente faz pensando nos outros, mas o prazer é solitário.

sexta-feira, setembro 01, 2006


Waka Tokori, José Luis Handal

Novo Nome

Adai não gostava do seu nome e jamais perdoaria seu pai pelo batismo. Já não bastasse um nome que gerava dúvidas sobre o gênero a que pertence quem o ostenta, ainda era acrescentado de um Júnior. Seu pai, não satisfeito de ter um nome tão feio, ainda o repetira no filho mais velho.

Quando garoto achava que fora fruto de uma gravidez indesejada e o nome era uma vingança. Mais tarde concluíra que não, não seria uma vingança, mas a satisfação do ego do pai. Filho sempre é satisfação de ego dos pais. Essa conversa de que a função do filho é perpetuar a espécie é coisa de biólogos e antropólogos. Tirando a Ásia e o Oriente Médio, onde há geurra todo dia e qualquer quedinha de bicicleta mata vinte de vez, em qualquer outro lugar do planeta a espécie já tinha exemplares garantidos por muitos séculos.

Homens e mulheres gostam de ter filhos apenas para poderem se gabar para os amigos, parentes e vizinhos de que fizeram u bolinho de carne lindo e inteligente, como eles dizem, perfeito, mesmo quando a criança é mais feia que bater em velho e mais burra que uma burra. Como se algum humano pudesse ser perfeito.

Pedia, implorava, chorava, esperneava, chantava seu Adair para que ele mudasse seu nome no cartório, mas o pai se negava. Dizia-se ofendido, como poderia o próprio filho renegar o nome do pai que o amava, alimentava, educava...? Rebuliços no ego ofendido.

Ao fazer dezoito anos arrumou um emprego. Saiu de casa, emancipou-se e entrou na justiça solicitando a mudança de nome. Passaram-se intermináveis cinco anos de entre argumentações, audiências, recursos, gavetas e prateleiras, até que o juiz o autorizasse a adotar uma nova identidade.

Hoje anda faceiro e orgulhoso, queixo erguido e satisfeito com o novo nome: Adenair Neto.

  • Para meu amigo que, enjoado do nome de batismo, João Bosco, conseguiu mudar para João Batista.