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segunda-feira, outubro 15, 2007


Clayton, O Povo, CE


  • Depois de três dias tendo que suportar a síndrome de abstinência de internet, uma vez que meu provedor me deixou na mão, voltemos à ativa!
  • Misture-se uma dose de tempos politicamente corretos, o que dá margem a absurdas interpretações das coisas, com uma dose cavalar de um governo segregacionista e tem-se como resultado um monte de beócios falando besteiras a torto e a direito. A última foi a ministra titular da Secretaria Especial de política da Promoção da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que saiu com a pérola: "Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco". Em outras palavras, um negro pode ofendê-lo, agredi-lo, roubá-lo, fizer o que bem entender, como defesa basta adizer que fez iso porque você é branco e ele negro. Antes que alguém interperte mal e diga que estou sendo racista, que fique bem claro que sou negro, assim como a ministra, mas não é por isso que vou concordar com uma sandice dessas. Como todo ministro, dona Matilde tem foro privilegiado, ou seja, mesmo sendo instaurado um processo contra ela pela Procuradoria da república do Distrito federal, a sujeita vai sair sem qualquer arranhão e livre para falar outras besteiras como essa.
  • Andei lendo algumas opiniões sobre a mudança de postura dos parlamentares governistas que passaram a apoiar e até pedir o afastamento de Renan Calheiros, entre eles o abstêmio Mercadante. Uns dizem que foi por conta do reclame popular, outros dizem que foi um flash de consciência, mais uns acreditam que é uma questão de disputa pela presidência, ou seja, elo poder, do Senado Federal. Fiquei muito satisfeito com uma comentarista da Record News que falou o mesmo que eu disse aqui e em alguns comentários em outros blogs: A mudança de postura da base aliada deu-se por orquestração do Palácio do Planalto. tendo somente até 31 de dezembro - o que pode-se traduzir para 20 de dezembro, afinal os parlamentares não atrabalharão depois disso - para aprovar a CPMF, o governo preferiu entregar Renan às piranhas do que corer o risco de perder esses 40 bilhões. A oposição boicotava as votações, o que colocava em risco a aprovação do imposto, enquanto Renan estivesse na cadeira da presidência. Tanto acocharam Lula, que este preferiu se desfazer da pereba por 45 dias, prazo suficiente para as duas votações, negociar alguns cargos, talvez criar mais uns dois ministérios para abrigar mais coligados, do que correr o risco. Corja!
  • Por falar nisso, aí em baixo está a cópia do e-mail que acabo que enviar para todos os senadores:
"Escelentíssimos senhores senadores,
  1. Como os senhores aprovarão a CPMF não por convicção ou por acharem que o imposto é benéfico para o país, mas por contadas negociações por cargos, verbas, obras ou outras vantagens oferecidas pelo governo federal;
  2. Como a CPMF foi criada com o propósito de melhorar a saúde pública, mas não tem sido assim aplicada e hoje é destinada às bolsas-sociais bancadas para uma minoria da sociedade por aqueles que, muitas vezes, são apenas assalariados remediados e ainda dependentes do sistema de saúde público;
  3. 3. Como a dita saúde pública, a exemplo da maioria dos serviços públicos, continua sofrível, penalizando a grande maioria dos brasileiros que precisam de seus serviços por não poderem pagar médicos particulares;
  4. Como o erário está servindo para pagar quase 40 ministros, seus assessores e o restante de uma folha que não justifica seu alto custo se comparada aos serviços prestados à população;
Sugiro que vossas excelências criem uma lei nos moldes da Lei Rouanet, só que voltada para a saúde. As pessoas jurídicas poderão destinar parte de seu imposto de renda para ser aplicada m determinada unidade de saúde, com fins específicos, abatendo essa contribuição de seu imposto anual. Uma vez que os recursos públicos não estão sendo usados como deveriam para esses fins, talvez a contribuição privada ajude a socorrer os brasileiros mal assistidos e, não por coincidência, os mais necessitados.

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sexta-feira, outubro 12, 2007

Crianças


Imagem daqui


Uma pergunta constante que ouço de alguns amigos é, por que eu trabalho com crianças e adolescentes quando essas são mimadas, irritantes, mal educadas, dependentes, enfim coisinhas incompreensíveis e cheias de vontade? Simples, porque alguém tem que fazê-lo e eu me acho muito bom nisso.
A maior dificuldade de se trabalhar com a molecada, são suas famílias. Nos dias de hoje, é muito comum encontrar pais que não têm tempo para a convivência diária com os filhos. Trabalham fora, alguns sequer têm tempo para almoçar com a família diariamente, chegam em casa à noite cansados e, muitas vezes irritados com o dia difícil, sentam-se em frente à televisão ou vão afogar as mágoas no boteco com os amigos. As mães muito ocupadas sofrem mais que os homens, via de regra, com esse afastamento. Sentem-se culpadas pela ausência e tentam compensar fazendo todas as vontades possíveis dos pimpolhos. Inconscientemente, tentam comprar a compreensão com a sensação de que estão dando carinho.
Crianças educadas dessa maneira costumam crescer cheias de vontades, acostumadas a mandar nos adultos uma vez que estão acostumadas a mandarem nos pais e serem atendidas. Os educadores formais, como os professores passam a ter duas opções ao se depararem com esse tipo de criança: ou se entram em conflito ou se esforçam em demonstrar uma hierarquia natural que deve ser obedecida. Não uma hierarquia militar do tipo "eu mando, você obedece", mas mostrando quem é a autoridade, demonstrando os porquês da obediência. Não mandando simplesmente, mas sendo exemplo e argumentando. Pela experiência, pelo preparo técnico e pela própria autoridade que lhe é investida nas funções que exercem, os educadores demonstram aos pupilos que a sociedade é hierarquizada, não só numa pirâmide de pessoas, mas de leis, regras, normas sociais que foram estabelecidas para uma convivência pacífica entre todos, como respeitar o espaço alheio, não se apoderar dos bens dos outros, comunicar-se sem agressão, mesmo quando em discordância, enfim, as nomas da boa convivência que todos os pais conhecem, mas nem sempre sabem como, ou tem interesse, de transmitir aos filhos.
Aparecem os filhos dos desonestos, agiotas, políticos corruptos, sonegadores... Bandidos também têm filhos e me impressiona como muitos deles são até muito bons pais. São atenciosos e carinhosos com os filhos, provêm a família com conforto, viajam juntos nas férias... O problema são os valores invertidos que transmitem, e aí a vida do educador se complica. Como ensinar ao filho de um agitoa que a agiotagem é crime, que lesa pessoas que muitas vezes precisavam de uma casa para morar, de bancar o hospital dos pais doentes e, sem recursos, terminam caindo nas mãos desses sanguessugas, sem ofender diretamente a família da criança? É complicado e perigoso, mas necessário para um verdadeiro educador. Saber usar as palavras nessas horas, é essencial. Uma palavrinha mal colocada pode criar um terremoto, uma ruptura entre a escola e a família e, é lógico, nessa queda de braço, a criança sempre ficará do lado da família e, por conseguinte, com os valores nocivos. Mais fácil para o educador se omitir e deixar que se crie mais um monstrinho que vai lesar a sociedade mais tarde, mas quem age assim não pode ser considerado educador, talvez um simples "dador" de aulas.
Vêm as crianças com necesidades especiais; o deficiente visual, o cadeirante, o anoréxico, o hiperativo, o com déficit de atenção, e imunodeficiente, o filho do presidiário,... Muitas vezes, numa mesma sala, vários problemas diferentes. A maturidade, o preparo, a boa vontade, a ausência de preconceitos, a capacidade de acarinhar e tantas exigências não podem deixar de fazer parte da caixa de ferramentas do educador. Pessoas deficientes não são coitadinhas, são capazes e merecem apenas um acompanhamento diferenciado, mas a elas também devem ser oferecidos desafios e condições para vencê-los. Se juntarmos dois seres humanos, estarão presentes as diferenças de toda ordem: social, econômica, de objetivos, de inteligências, de valores... Cabe ao educador mostrar com sua própria conduta que são todos iguais, mesmo com todas as diferenças. Mais uma vez os pais são o maior empecilho. Não é só coisa de novela, não, pais que não querem seu filhinho ariano na mesma sala do negrinho; que não querem que seu filhinho "perfeito" se relacione com o aleijadinho; que sua filha linda ande com a menininha estrábica... É um absurdo? É. Mas é real.
Engana-se quem acha que carinho é sinônimo de tolerância. Estudos da Universidade de Oxford demonstram que crianças e adolescentes gostam quando são repreendidas, embora não conscientemente. Ao serem chamadas à responsabilidade, ao serem "puxadas suas orelhas" por conta de algum erro cometido, sentem que o adulto tem interesse neles, que repreendem por se preocuparem, que brigam porque querem que cresçam. Se, nós adultos, pararmos para lembrar dos professores que tivemos, muito provavelmente lembraremos primeiro dos mais exigentes; os bonzinhos ficam perdidos no tempo. A repreensão e as exigências são tão importantes quanto o carinho. Estranho, mas verdadeiro. A educação não se faz só com carinho, a vida não é feita só de carinho.
Crianças pensam, criam e são capazes de resolver seus problemas, não são serezinhos incapazes e dependentes na integridade. Por outro lado, não são adultos miniaturizados. A elas sejam dados os desafios e a orientação para resolvê-los; o carinho e a reprensão nas medidas e horas certas; as tarefas e os exemplos; as brincadeiras e as responsabilidades; a liberdade e os horários a serem cumpridos; o espaço e a limitação de espaço. A vida é cheia de antíteses, por isso as crianças não devem ser educadas numa ilha de utopias, elas crescerão, não esqueçamos disso. O hoje não pode ser vivido como se fosse seu último dia, mas sempre o primeiro, elas devem ser preparadas para o futuro e este às vezes é ,inevitavelmente, cruel e doce, duro e macio.

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quarta-feira, outubro 10, 2007

Cuba




Algumas pessoas que conheci por essa vida merecem meu mais profundo respeito, a defesa sem titubear, e a Zeca é uma delas. Com essa mulher aprendi muito e serei grato para sempre. Formada em Serviço Social pela Universidade Federal do Pará, tornou-se marxista desde que soube o que é o marxismo. Não vive de favores, como os amiguinhos companheiros que aderiram à causa sem conhecê-la, ela estuda e trabalha profundamente. Sinto, porém, que ela tornou-se uma sectária mesmo condenando o sectarismo nos verdes anos de nossos primeiros contatos.

Ela me enviou o texto abaixo, que há dias venho ruminando uma maneira de responder criticamente. Ela não é autora, mas o simples fato de mo enviá-lo, demonstra que concorda com ele, enquanto eu tenho várias posições mais parcimoniosas ou de rejeição. O que está em negrito, é minha resposta imediata ao texto original. Se tiverem interesse e paciência, sigam-me e estejam à vontade para meterem o bedelho seja de que lado for:

CUBA ESTÁ DANDO CERTO!!


É engraçado ouvir ou ler os comentários de alguns brasileiros que passam alguns dias em Cuba, a turismo ou a trabalho, e manifestam opiniões definitivas sobre o país. Horrorizam-se com as moradias precárias e deterioradas e com as crianças que lhes pedem balas e chicletes nas ruas. Há mendigos, alardeiam. Criticam as filas, impressionam-se com os ônibus lotados e espantam-se porque todos os cubanos não têm acesso a todos os serviços e bens de consumo (contrário à doutrina marxista, diga-se de passagem, que pregava a igualdade de direitos e oportunidades). Vêem na existência de prostitutas e malandros nas ruas como prova definitiva de que Cuba vai mal, muito mal (isso não pode ser indicativo de que vai bem). Há pessoas que cometem atos ilícitos, roubando produtos nas fábricas e cometendo delitos, vejam só (em qualquer lugar do mundo, a miséria leva à ilicitude). E ainda lembram que milhares de cubanos procuram deixar o país, rumo aos Estados Unidos e a outros países do Primeiro Mundo. Esses brasileiros - entre os quais alguns jornalistas -- voltam ao nosso país com a idéia de que Cuba está à beira do colapso, tal a crise econômica que enfrenta e a falta de perspectivas para superá-la. E transmitem isso aos que os ouvem e, no caso dos jornalistas, aos que os lêem ou assistem (o colapso já se abateu sobre Cuba, mas isso discutiremos mais adiante ao refutar os argumentos que virão). Parece que esses brasileiros não vivem no Brasil. Pois falam como se aqui não existissem favelas e pessoas morando sob pontes e marquises. Como se aqui não houvesse crianças pedindo nas ruas, nem mendigos. Como se não houvesse filas. Vendo-os criticar Cuba, a impressão que se tem é de que no Brasil o transporte coletivo funciona muito bem. E que, em nosso país, qualquer cidadão pode comprar o que quiser e freqüentar qualquer restaurante, sem se preocupar com os preços. Além disso, não há prostitutas nem malandros em nossas ruas, ninguém rouba e nenhum brasileiro deixa o país para tentar a vida nos Estados Unidos, no Japão e na Europa. O Brasil, a julgar pelos comentários desses brasileiros que criticam Cuba por coisas como essas, está em ótima situação econômica, em pleno desenvolvimento. Sem pobreza, sem miséria, sem fome e sem desemprego. E em excelente situação no que diz respeito à criminalidade e à moralidade pública (a miséria e as celeumas sociais brasileiras existem, mas isso não quer dizer que as de Cuba diminuem. O fato é que se plantou no Brasil a idéia de que Cuba é o paraíso e quem sai daqui esperando encontrar só belezas, fartura, bem estar geral, se decepciona. O mesmo ocorre com os brasileiros que visitam diversos pontos turísticos dentro do próprio Brasil e descobrem que esses lugares não são a Ilha da Fantasia que pregam os folhetos publicitários. A desgraça brasileira não ameniza a desgraça cubana. Usar desses argumentos é cobrir a cabeça e descobrir os pés).

Muitas críticas podem ser feitas a Cuba, e mais especificamente ao sistema político, econômico e social que lá vigora - e que, naturalmente, não é perfeito. Há problemas na sociedade cubana, e muitos (muitíssimos!). Mas esse tipo de críticas superficiais, de quem se esquece de olhar no espelho, cai no ridículo. São críticas que partem ou de um preconceito ideológico, ou de um desconhecimento profundo da real situação de Cuba ou do simplismo que caracteriza as observações de turistas apressados e jornalistas despreparados. Se deixassem o preconceito ideológico de lado e procurassem conhecer mais a realidade de Cuba, esses brasileiros saberiam que: - Cuba é um país pequeno, um arquipélago de 110.922 quilômetros quadrados e 11,2 milhões de habitantes, e poucos recursos naturais. Um país colonizado pelos espanhóis, que o exploraram até 1898. Tem todas as características históricas e culturais dos países latino-americanos. É um país pobre, do Terceiro Mundo (não precisa visitar Cuba para saber disso. Qualquer enciclopédia razoável é capaz de dar esses dados). - Cuba sofre hostilidades praticadas pelos poderosos Estados Unidos da América, ou com sua cumplicidade, há 43 anos: não apenas um bloqueio econômico drástico, como também ações armadas (essas ações armadas não ocorrem há décadas. A invasão frustrada da Baía dos Porcos foi uma tremenda lição aos ianques), atos de terrorismo (idem, a não ser que estejamos todos mal informados. Se isso ainda ocorre, seria interessante o autor mostrar fontes de informação), atentados a dirigentes (idem), transmissões radiofônicas e televisivas incitando à revolta (a guerra de propaganda existe de lado a lado, não é novidade, além de ser um estratagema usado por anos a fio em todos os lugares onde há conflitos no mundo), incentivos materiais e políticos à derrubada do governo e muitas outras (mais uma informação que precisa de fontes). - Com o fim da União Soviética e do bloco socialista europeu, de 1989 a 1991, Cuba passou a enfrentar uma crise econômica de enormes proporções (uma constatação que sua economia era de mentirinha, bancada por pesados subsídios soviéticos). Perdeu, praticamente de um dia para outro, 85% de seu comércio externo (não havia comércio externo. O que havia, de fato, era uma política de escambo. Cuba mandava açúcar para a União Soviética, por exemplo, e em troca recebia produtos, combustível, armamentos, que se fossem trocados a preços justos, a bancarrota cubana teria acontecido muito antes. E os soviéticos não alimentavam Cuba porque os cubanos são bonitos e têm olhos azuis, mas pela sua posição estratégica. Em troca do “açúcar”, a URSS instalou mísseis atômicos apontados para Miami e Nova Iorque). Seu Produto Interno Bruto caiu 34,8%, de 1990 a 1993 (novamente a falta de fonte confiável. Que houve uma tremenda queda, não resta dúvida, mas os números exatos são desconhecidos. Parte da guerra de informações). O déficit fiscal, em 1993, era de 33,5% do PIB (idem). A relação peso-dólar chegou a 140 por 1 (no final do “milagre brasileiro” a relação dólar-cruzeiro chegou a 1:13.000, o Brasil também estava quebrado). - Mesmo sendo um pequeno país de Terceiro Mundo, enfrentando uma pesada crise econômica e sofrendo bloqueio econômico e hostilidades por parte da maior potência da Terra, Cuba apresenta indicadores sociais que a colocam ao lado das nações do Primeiro Mundo em termos de educação (isso é notório, embora o pavão esteja enfeitado. O índice da analfabetismo é mínimo, de fato, mas o acesso ao terceiro grau não é universal, como gostam de fazer parecer os românticos), saúde (gratuita e preventiva, fato, mas tecnologicamente já ficou para trás) e previdência social (não conheço, nada posso falar). Esses indicadores são, hoje, melhores do que os de 1990 (lembremos que o Muro de Berlim caiu em outubro de 1989, portanto, o fundo do poço cubano ocorreu logo depois. Não existia mais URSS para presentear o país caribenho). A taxa de mortalidade infantil, por exemplo, baixou de 11,1/1000 em 1989 para 6,2/1000 em 2001 - índice menor do que o dos Estados Unidos (que está longe de ser uma país perfeito e igualitário – coisa que prega o governo cubano e seus amiguinhos – e conta com uma população 28 vezes maior que Cuba) . A partir de setembro, nenhuma sala de aula em Cuba terá mais de 20 alunos (assim como em Israel). - Sem recorrer ao Fundo Monetário Internacional e sem abdicar da soberania nacional, Cuba está em processo de recuperação econômica: o PIB vem crescendo desde 1994, alcançando 6,2% em 1999, 5,7% em 2000 e 3% em 2001 (a segunda taxa da América Latina, muito acima da média de seus países); o déficit fiscal foi reduzido para 3% do PIB; o desemprego urbano é de 4,5% (o segundo menor da América Latina). A relação peso-dólar é de 26 por 1. A economia cubana já recuperou 85% do que perdeu de 1989 a 1993 (isso tudo, a bem da verdade, à base de muito sacrifício imposto à população: filas para adquirir gêneros básicos, empobrecimento da dieta alimentar, que nunca fora grande coisa, total ausência de produtos considerados supérfluos, controle ferrenho do Estado na aquisição de qualquer tipo de produto pelo cidadão comum...). - Cuba foi atingida no ano passado pelo pior furacão dos últimos 50 anos, o Michelle. Plantações foram destruídas, mais de 45 mil casas foram derrubadas ou danificadas, torres de transmissão de energia e de telecomunicações ficaram inoperantes, enfim, um prejuízo calculado em US$1,5 bilhão. Mesmo assim, ninguém ficou desamparado. E apenas cinco pessoas morreram, graças às medidas de prevenção tomadas (devem ter sido dias terríveis para a população que não vive em fortalezas, como Fidel e os comandantes do Partido. Furacões naquela região são uma constantes, natural que todos os países, até mesmo o Haiti, tenha programas de prevenção de catástrofes. O ideal seria não haver morte nenhuma, uma vez que a cada ano, a ilha é atingida por vários furacões de maior ou menor intensidade, mas seria querer muito, além do quê, contra essa força da natureza, não se luta, previne-se).

Não é justo, porém, exigir que todos os brasileiros que forem a Cuba passar uma ou duas semanas saibam tudo isso. Mas, se deixassem de lado os preconceitos ideológicos e o simplismo, e conseguissem refletir por mais de cinco minutos, esses observadores acidentais da vida cubana veriam que: - Há muitas moradias precárias e deterioradas em Cuba, especialmente em Havana, a capital com dois milhões de habitantes. Havia até 1990 (e o programa teve que parar por conta do fim dos subsídios soviéticos) um enorme esforço de construção e recuperação de casas e apartamentos, reduzido em decorrência da crise econômica (exatamente). Mas todos os cubanos têm uma casa, um endereço (mesmo que nesse endereço vivam três gerações de uma mesma família. O “cortiço” familiar faz parte da cultura cubana pós-59). Um aluguel sai por US$ 1 (o que não é tão pouco, fique bem claro, para os padrões econômicos cubanos. U$ 1 pode ser considerado uma miséria para os padrões brasileiros, em se tratando de aluguel, mas, só a título de comparação, o salário de um professor, classe “bem” remunerada, vai de 300 a 400 pesos, ou seja U$ 11, 75 a U$ 15,38, o que significa que um professor paga, em média, quase 8% do seu salário em aluguel. Comparando-se, novamente, aos padrões brasileiros, está abaixo da nossa média, mas não esqueçamos que sobraram apenas U$ 10 a U$ 14 para o resto do mês) ou US$ 2, 85% das moradias são próprias. Ninguém mora nas ruas. - Muitas crianças pedem balinhas e chicletes aos estrangeiros, pois lá não há a diversidade de confeitos que se encontra em outros países (a herança espanhola deixou grandes culinárias nas Américas, inclusive em Cuba, grande produtora de açúcar. A falta de doces para crianças é sinônimo de quê? Miséria). Mas todas essas crianças têm casa, estão na escola, vestem-se decentemente (?) e não passam fome (mas têm uma alimentação mais pobre que a média da maioria das crianças da América Latina). Os que pedem esmolas em Havana podem ser contados em duas mãos - são pessoas pobres (não conheço os dados), mas também têm suas casas (nem que seja com uma multidão dentro) e, diferentemente de muitos brasileiros, não passam fome (idem com a dieta das crianças). O governo cubano reconhece que 14% da população vive em situação precária (ou seja, 3,6 milhões de pessoas numa ilha de 26 milhões. Não é pouca gente, não) - o que está muito longe de viver na miséria - e dá a essas pessoas uma atenção especial (qual?). E os índices de criminalidade em Cuba são baixíssimos (pobre roubar pobre não seria crime, seria humor negro. A propósito, prostituição não é crime em Cuba), sendo o furto o crime mais comum (pelo Código Civil brasileiro, isso seria conhecido como “furto famélico”). - As filas são decorrência da carência de vários produtos e da relativa (relativa! Guardem bem isso. Eis uma das negações ao marxismo pregado) igualdade entre as pessoas, pois todos, sem exceção, têm direito ( mas têm acesso? Não, existe a relatividade de igualdade) aos mesmos produtos que integram a "libreta" - a cesta básica de alimentos e produtos que custa US$ 0,80 (para se manter três gerações de uma mesma família, dentro de uma mesma casa, quantas “libretas” são necessárias?)- e as atividades culturais, recreativas e desportivas são muito baratas (isso é fato, e muitas são gratuitas). Quem for ao Parque Coppelia, em Havana, verá filas enormes, desde cedo, para tomar sorvete (um dos supérfluos que citei anteriormente). Há filas porque todos os cubanos têm condições de tomar os sorvetes da Coppelia (não, meu caro. Tem fila porque é uma das poucas sorveterias da cidade. Isso está parecendo uma daquelas justificativas malucas do Mantega). - Os ônibus são poucos, muitos deles - como os chamados "camelos" – são ruins e geralmente estão lotados (e é comum apenas um ônibus, daqueles da década de 50, fazer a ligação entre duas cidades. Sai da cidade A para a cidade B de manhã e volta à tarde. Quando esse ônibus quebra, quem precisa se transportar fica à mercê das próprias pernas ou à caronas que são pagas com bananas, galinhas ou algo assim que se tenha à mão). O transporte urbano é um dos maiores problemas do cotidiano cubano e a carona é uma instituição nacional (um dos motivos é o que citei anteriormente). Mas há sensíveis melhoras em relação aos anos anteriores, inclusive com a montagem de ônibus, em Havana, por uma empresa cubano-brasileira, a Tranbuss. - Uma das estratégias para enfrentar a crise econômica foi institucionalizar a dupla moeda em Cuba, uma medida considerada transitória. Por isso, há um mercado em dólares uma maneira que o estado arrumou, com muita criatividade, é verdade, para que os turistas fizessem um câmbio informal, desse modo, as taxas que ficariam nas casas de câmbio do local de origem do turista, ficariam em Cuba) e outro em pesos, a moeda nacional, o que cria desigualdades sociais que não existiam antes (portanto, a medida oficial – não exatamente oficial, mas de vistas grossas – ajudou a capitalizar o país, mas dando outro golpe no marxissismo). Quem tem acesso ao dólar (estima-se que, em variadas medidas, 64% da população), ou quem tem mais dólares, tem acesso a produtos e serviços que não estão ao alcance dos que têm apenas pesos (capitalismo à cubana). Uma desigualdade, porém, milhares de vezes menor do que a que existe no Brasil ou em qualquer país da América Latina (porque está ocorrendo com 43 anos de atraso). - Há prostitutas (e prostitutos) em todos os lugares de mundo, e em Cuba também. Lá, como no Brasil, vender o corpo não é crime. A diferença é que a prostituição em Cuba não é questão de sobrevivência (mentira!), mas de opção de vida em busca de um melhor padrão de consumo proporcionado pelo dólar (outra explicação à la Mantega. No Brasil existentes prostitutas de luxo, filhas de classe média, universitárias, que estão fazendo um pé de meia e prometem deixar a profissão depois de formadas e montarem seus negócios, pelo menos elas dizem isso, mas, tirando a Bruna Surfistinha, não conheço nenhum outro caso. Na maioria das vezes, e a maioras das prostitutas vem de famílias pobres ou desarranjadas, vendem o corpo mesmo é por necessidade, assim como em Cuba, e mais uma vez o estado faz vistas grossas, uma vez que o turismo sexual deixa muita grana na ilha).. Aumentou, na década de 90, em decorrência do enorme crescimento do fluxo de turistas e de estrangeiros (viu?). - Há malandros também, pessoas que abordam os estrangeiros para vender produtos roubados ou falsificados (principalmente charutos) (necessidade!), ou oferecer seus serviços informais de "guia turístico" (necessidade!), cafetão ou algo semelhante (miséria!). Há funcionários e trabalhadores que cometem ilícitos (corrupção, como era farta na União Soviética), menores ou maiores, para ganhar um "extra", em dólares - de preferência - ou em pesos. É uma conseqüência da crise econômica, do crescimento do turismo e da dupla moeda (à la Mantega, a culpa é do turismo, não do governo). Mas em Cuba não há corrupção sistemática no governo (a Forbes disse que a fortuna de Fidel no exterior ultrapassa U$ 3 bilhões), e isso é reconhecido por todos que lidam com as autoridades do país (todos quem, buana?). - Do mesmo jeito que há cubanos querendo ir para os Estados Unidos e outros países desenvolvidos, em busca de melhores oportunidades, há brasileiros, mexicanos, hondurenhos, argentinos, equatorianos, haitianos...(assim como existem europeuse estadunidenses saindo para países do Terceiro mundo em busca de melhores oportunidades. É algo totalmente natural. Mas, além da miséria, tem a opressão política, negar isso é burrice). A imigração é uma aspiração compreensível. Muitos cubanos que não conseguem obter o visto de entrada no consulado norte-americano em Havana tentam entrar ilegalmente nos Estados Unidos, da mesma maneira como outros latino-americanos - a diferença é que são apenas 180 quilômetros de distância por mar e a lei norte-americana incentiva as saídas ilegais, ao receber os cubanos que tocam o solo dos Estados Unidos, enquanto manda devolver aos países de origem os demais estrangeiros (os EUA seriam duramente criticados pelas demais nações do Primeiro Mundo se negassem asilo político para os cubanos fujões. Deportando-os, estaria condenando muitos a el paredón).

É claro que os problemas de Cuba não se limitam a esses citados, geralmente os mais alardeados. Há outros problemas econômicos e sociais, até mais graves, mas há também críticas ao sistema político: alega-se que não há democracia (e não há, o próprio Fidel reconhece), não há eleições livres (e não há), que a população é subjugada pelo Partido Comunista (e é, tanto que é o único partido legalizado), que não há liberdade de imprensa (só existe a imprensa oficial, as demais estão sujeitas à censura permanente), que o regime é policial (a exemplo da matriz, a URSS), os direitos humanos não são respeitados (condenação à morte ou à prisão por tribunais sumários não pode ser considerado respeito aos direitos humanos). Em Cuba, há uma resposta para cada contestação (todo e qualquer governo em qualquer lugar do mundo tem todas as repostas para qualquer contestação), embora se admita a necessidade de aperfeiçoar – mas não mudar (claro que não. Tanto que Fidel se afastou e deixou o irmão. Continuísmo sempre)- o sistema político. Essa é uma discussão inócua, se feita superficialmente ou para que um lado convença o outro (o que jamais acontecerá) (isso é fato, Fidel jamais se deixaria convencer a largar o osso). Os conceitos da democracia socialista, na visão marxista, não são os mesmos da democracia capitalista. Não pode haver democracia socialista em um país capitalista, e vice-versa. Logo, a contestação ao tipo de democracia que se pratica é a contestação à raiz do próprio sistema. Há, porém, um fato inegável: a maioria da população cubana aprova o sistema e o governo (e pobre daquele que disser que não aprova). Há indicadores confiáveis para demonstrar isso, entre os quais até uma pesquisa realizada por instituto norte-americano (respondida por cubanos que vivem em Cuba, sob o julgo do Partido. Chavez foi eleito com 90% dos votos, e daí?). Mas basta ir além das áreas turísticas e das conversas com os que cercam os estrangeiros nas proximidades dos hotéis para verificar pessoalmente isso (tem coisas que a gente não fala nem pra mãe, noleito de morte. Imagina se um cara que vive num estado policial vai confessar que não aprova o governo justamente para um estrangeiro que ele nunca viu na vida? Medo, meu amigo, puro medo. É óbvio que existem muitos cubanos que apóiam Fidel, assim como existem milhões de estrangeiros que acham que o governo cubano é maravilhosos, a diferença é que quem ta fora pode dizer isso, enquanto que o pobre cidadão cubano tem que se calar, caso discorde)). Não é que a população esteja plenamente satisfeita. Há reclamações, queixas (mas nunca contra Fidel). Situadas, porém, dentro do sistema (viu? Críticas que o sistema aceita, e aceita para inglês ver como os comuna são legais). Há uma consciência majoritária (efeito da propaganda oficial) de que os cubanos estão em melhor situação do que a maioria dos que vivem em outros países latino-americanos, inclusive no nosso. E que um retorno ao capitalismo causaria mais prejuízos do que vantagens (poderia até causar danos, é claro, mas só existiria uma maneira de saber para que não fiquemos no campo das suposições). Além do que ninguém pode achar que, em uma sociedade plenamente participativa como a cubana (fato que também se desconhece fora de Cuba (confesso que desconheço)), o povo não derrubaria o governo e o sistema se quisesse (foices contra AK-47 dificilmente se dariam bem). Ainda mais tendo ao lado os Estados Unidos, ansiosos por isso (de novo a teria da conspiração. Os EUA, nos últimos anos, não conseguiu derrubar Chavez e, para piorar, terminou fortalecendo o maluco venezuelano. Para a turma de Bush, é mais negócio esperar a morte de Fidel e pensar em como atacar o novo governo. Isso pode demorar 20 anos, e daí? Vinte anos na história não é nada. Volto a lembrar o fracasso da invasão da Baía dos Porcos. As tropas estadunidenses falharam e terminaram fortalecendo Fidel, ou seja, mais uma vez os EUA atiraram no próprio pé. Tentar dar um golpe em Cuba hoje seria de uma burrice absurda. Os mísseis atômicos não existem mais, Cuba não oferece qualquer risco ao poderio estadunidense, além do mais, as pressões internacionais seriam caríssimas para os ianques. O resto é vitimização de Cuba, como pregam Fidel e seus torcedores mundo afora). Um dado pouco levado em conta nas avaliações que são feitas fora de Cuba é que o sistema contou com uma ampla base de apoio social mesmo nos piores momentos da crise econômica, de 1992 a 1994, quando faltavam alimentos, veículos não circulavam e fábricas estavam fechadas porque não havia combustível, os apagões chegavam a oito ou dez horas por dia (como se organizar com polícia secretíssima, dedos-duros em todos os lados, associações, sindicatos, cooperativas controladas pelo Estado, ausência de partidos políticos, imprensa vigiada...?). Em Cuba não há miseráveis nem ricos (U$ 3 bilhões!). As pessoas se situam entre a pobreza com decência e a classe média "baixa", com alguns bolsões, mais recentemente, de classe média "média" (pouquíssimos que conseguem captar dólares). Como a opção é pela igualdade (brincadeirinha), ainda que menor (igualdade é igualdade. Menor é sinal de desigualdade) do que a que existia nos anos 80, o estilo de vida é modesto e austero (pobre! U$ 15/mês). A classe média brasileira, que vai a Cuba a passeio ou a trabalho, tem, é lógico, dificuldade em entender e aceitar isso. Compara o padrão de vida dos cubanos não ao padrão de vida da maioria dos brasileiros, mas ao seu padrão de classe média "média" e "alta". E rejeita o socialismo, independentemente de razões políticas, porque fatalmente perderia renda e nível de vida se o sistema fosse adotado no Brasil ( que memória fraca... A União Soviética quebrou. A China está partindo para o capitalismo vermelho. A Albânia não existe. A Coréia do Norte vive sob armas...).

Pode-se optar pelo capitalismo ou pelo socialismo, gostar ou não do sistema cubano. Mas não há como negar que nenhum país latino-americano (para nos restringirmos à nossa região) enfrenta uma crise econômica: 1 - com as proporções da enfrentada por Cuba (já ouviu falarem Haiti?); 2 - sob o bloqueio econômico que sofre Cuba (verdade) ; 3 - mostrando índices de recuperação econômica como os de Cuba (a economia mundial está em alta. Nessa semana saiu um relatório, não lembro exatamente de onde, dizendo que o mundo viverá uma época de riqueza jamais igualada na história); 4 - sem recorrer aos Estados Unidos e ao FMI (sorte deles. Se recorresem ao FMI perderiam até a roupa domingueira) e sem abdicar de sua soberania nacional (devo reconhecer que acho isso louvável) e do controle de sua economia (perdeu o padrinho soviético); 5 - sem provocar altos índices de desemprego e a exclusão e marginalização de parcela de sua população (tirando os empregos oficiais, a hotelaria e suas ramificações, que já não são lá grande coisa devido aos altos encargos, o resto é subemprego); 6 - sem que essa crise se transforme em crise política, com protestos de rua e instabilidade social (sob o tacão de Fidel e das AK-47); 7 - com o presidente da República mantendo e até aumentado sua popularidade (foi um herói e é bom de propaganda e tem pulso forte e armas letais). Cuba tem imensos problemas, mas seguramente não é o país em pior situação na América Latina (isso é fato. O desarmamento da população é um ponto favorável para a segurança). Economicamente, recupera-se. Socialmente, é equilibrado e estável (a duras penas. Pobreza constante também é estabilidade). Politicamente, tem um peso específico muito superior às suas reais dimensões (graças à simpatia, mas não à ajuda, internacional). E, apesar de suas fragilidades, não teme desagradar os Estados Unidos (já falamos sobre isso. Os gritos de Fidel soam como sussurros aos ouvidos de Bush. Já percebeu que muito raramente algum governante estadunidense dá-se ao trabalho de responder à gritaria castrista?) ao defender suas posições de princípio. Cuba está dando certo (não, meu caro, está estagnada na UTI), e por isso incomoda muita gente. Que então fala em casas precárias, ônibus lotados, crianças pedindo chicletes, prostitutas, emigrantes clandestinos...

PARA TODOS AQUELES QUE QUISEREM MAIS INFORMAÇÕES www.unb.br/ceam/nescuba ______________________________




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terça-feira, outubro 09, 2007

Cultura Subsidiada


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Há alguns dias uma amiga me pediu que escrevesse um texto, não sei para que fim porque não a deixei terminar o pedido. Ela queria que eu falasse sobre a “morte da cultura”, não a morte iminente, mas a morte acontecida.

Precisaria ouvir dela o que se entende por cultura, mas não me dei ao trabalho. Ela é professora de teatro, teatro amador, como o que fiz quando adolescente, com a diferença que fui dirigido e ensinado por alguém que conhece, gosta, estuda e escreve sobre teatro, um cara que dirigiu Cacilda Becker e Fernando Montenegro, amigo de Gianfrancesco Guarnieri e correspondente de Augusto Boal, enquanto ela tem uma cultura de folhetim e faz teatro porque gosta. Não quero me mostrar mais importante ou culto que ela, não sou dos que botam títulos à frente do talento ou dos gostos. Acho até muito nobre e corajoso da parte dela se dedicar à arte sem qualquer respaldo financeiro, porém, para se fazer bem feito, acredito eu, o conhecimento empírico pode até levar a bons resultados, mas o caminho é muito mais árduo e demorado.

Como ela conheci vários vida a dentro, fossem compositores, instrumentistas, atores, cantores, escritores... uma multidão. E a queixa é quase sempre a mesma: o estado não investe em cultura e as empresas não investem em desconhecidos. Isso é tido e sabido, repetido a gerações, mas não é de todo verdade. Dentro dessa multidão, vi gente que se deu bem em seus projetos por conta de alguns fatores que há quem acredite que dê em árvores: talento, discernimento, conhecimento, elaboração, treino e competência. Não basta se gostar de uma coisa ou saber fazê-la, é preciso conhecê-la.

Apegados a essas máximas de falta de patrocínio, os fazedores de cultura se queixam da falta de verbas. Lógico que existe uma derrama de grana quando uma peça é encenada por um ator “global” ou dirigida por um sujeito de renome, mas em só de produções milionárias vivem os espetáculos. Se fosse assim, as bandas de pífanos nordestinas já haviam se extinguido, as rodas de carimbó paraenses não existiriam mais, as centenas de bumba-meu-boi maranhenses seriam apenas lembrança. Esses espetáculos são feitos, muitas vezes, por gente analfabeta ou quase, mas que conhecem a fundo seu ofício. Metem a cara no mundo, reúnem os vizinhos, parentes e amigos, ensaiam nos terreiros dos sítios ou nos quintais de suas casinhas suburbanas e saem às ruas encantando as gentes.

João Ubaldo Ribeiro, um dos meus prediletos autores vivos, meteu a boca no trombone essa semana porque o governo da Bahia deixou de repassar R$ 68 mil mensais para a Fundação Jorge Amado. O governador rebateu que esse corte já estava previsto desde o governo anterior. Vamos por partes. A Casa de Jorge Amado ainda precisa de verbas públicas para funcionar, estabelecida, visitada e adorada por baianos e turistas como ela é? Assim como a CJA, várias outras produtoras culturais já podem manter-se sozinhas, não acho justo que tenham que contar, a fundo perdido, com o dinheirinho que eu, tu e o rabo do tatu pagamos de impostos enquanto ficamos sem esgotamento sanitário, saúde decente, escolas que funcionem, estradas que permitam o trânsito com segurança... Uma questão de prioridade.

A meu ver, cabe ao estado dar condições para que as produções artística e cultural se desenvolvam e não bancá-las integralmente.

O governo baiano da época da ditadura, ACM à frente, cooptou os artistas bancando suas despesas de viagens, alimentação e até cachês. Aqueles que eram engajados contra a ditadura ficaram esquecidos, como o grande Capinam, os alienados que apenas batem tambor para o público balançar a bundinha ganharam as benesses em troca da propaganda carlista. E a Bahia, terra do samba de coco, de Adonias Filho, de Anísio Teixeira, de Amélia Rodrigues, do afoxé, dos bacamarteiros, do banho da paixão, dos termos de reis, das puxadas de mastro, da Irmandade da Boa Morte, dos bolinhos de estudantes, do Teatro Plataforma, dos cultos africanos, de Caymmi e de tantas e tantas outras culturas, passou a ser conhecida nacional e internacionalmente como a terra do axé music, de Caetano e do acarajé, por força da caixa alta e da propaganda exaustiva, mas nem por isso as demais manifestações culturais morreram.

Para alguns, infelizmente, fazer cultura é sinônimo de grandes públicos e altas fortunas.

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segunda-feira, outubro 08, 2007

Eclampsia

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Engraçado como algumas não parecem com aquilo que querem dizer ou parecem com outra coisa, mas não com aquilo que dizem. Essas duas coisas parecem a mesma coisa, mas é uma questão de semântica e, como não sou bom de semântica, melhor não tentar explicar.


Taí! Semântica não parece algo relacionado à botânica? A semântica é a parte da biologia que estuda as sementes! Seria legal. O universitário, preocupado, teria que voltar para a república mais cedo, teria que estudar para a prova de semântica, não a relacionada ao significado das palavras ou enunciados, mas a que estuda as sementes, sua fisiologia, germinação e tal e coisa.


Eclampsia é outra palavrinha diferente do que é. Não parece uma doença convulsiva que pode ser fatal aos bebês e às parturientes e sim uma peça de auto-forno ou de um maquinário complicado. Não seria estranho ouvir um gerente de produção gritar para os subalternos: “Fechem a eclampsia antes que a caldeira exploda!”.


Você nunca pensou nisso? Tudo bem, você deve ser um sujeito culto e ocupado demais para perder tempo com essas bobagens, além do quê, não é de bom alvitre fazer piadinhas com doenças, as pessoas podem tomá-lo como um insensível. Mas eu sou apenas um sodomita desocupado e sem peso na consciência.


No parágrafo acima, duas outras palavras me encafifam: “alvitre” bem poderia ser uma ave oceânica : “Pai, encontrei um ninho de alvitre lá no rochedo!”. Ou um mineral: “O governo do Zimbabwe acaba de anunciar a descoberta da maior mina de alvitre do mundo, tal descoberta está causando furor nas bolsas de valores de todo o mundo, o que poderá ajudar a dar uma alavancada na economia do país”. E “sodomita”. Este, sim, parece o portador de uma doença: “Ele é diabético?”, perguntaria um amigo, ao que outro responderia, “não, é sodomita”.


Esse meu devaneio não é tão original. Luiz Fernando Veríssimo já escreveu, bem melhor que eu, é óbvio, a estranheza que a palavra “falácia” causa ao ser lida. A bem da verdade, eu não conhecia tal palavra antes de ler a crônica do gaúcho e não tive a mesma sensação que ele. Em determinado ponto ele imagina a falácia como “um animal multiforme” e escreve: Todos os dias, de manhã, eu e minha mulher, Bazófia, saímos pelos campos a contar falácias. E cada dia há mais falácias no meu campo. Quer dizer, cada dia eu acordo mais pobre, pois são mais falácias que eu não tenho. Corri ao dicionário para descobrir o significado da tal palavra, mas no caminho imaginava ser algo flácido, do tipo “Maria tem as nádegas muito falácias”, talvez pela parecência com a palavra “flácida”.


Assim como imagino ferrolho uma pessoa com as orelhas tortas, a exemplo de zarolho.


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