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segunda-feira, outubro 29, 2007


Lane, Jornal de Brasília, DF


  • Evo Morales ganhou prêmio da Europa por defesa dos direitos humanos, Chávez está fazendo moda em toda a América Latina, Lula acha que poderá ganhar o Nobel da Paz com suas lorotas populistas e a mulher de Kirchner, a exemplo das duas ex-de Peron, ganhou a presidência Argentina. Vai que dona Marisa começa a gostar da idéia... A frase atribuída a De Gaulle ("o Brasil não é um país sério") que na verdade ele nunca falou, mas apenas disse algo parecido referindo-se a crianças que brincavam durante uma solenidade pública, poderia ser dita por qualquer um de nós e ampliada para todo o continente. É uma bagunça generalizada!

  • Hora de rir: "Ninguém mais do que eu quer diminuir a carga tributária", Lula. Ou chorar.

  • Sérgio Cabral, inspirado no livro Freakanomics, do economista Stephen Dubner e do jornalista Steven Levitt, que associa o sucesso da política da Tolerância Zero, do ex-prefeito novaiorquino Rudolph Giulliani com a legalização do aborto nos anos 70, sugeriu a legalização do aborto por aqui também, como solução para a violência do Rio de Janeiro. O que o governador não contava é com a fúria dos religiosos (católicos, principalmente) e os defensores dos direitos humanos. Longe de mim defender ou condenar o aborto, isso é uma discussão longeva e sem data para acabar, conseqüentemente, não posso concordar ou discordar de Cabral. O fato é que ele vai ter que gastar muita saliva e energia para minimizar as reações que provocou.

  • Lula vai passear na Suíça com pretesto de defender a realização da Copa do Mundo por aqui; José Alencar vai retirar um segundo umor cancerígeno do abdômem; quem vai assumir a presidência? Arlindo Chinaglia. Taqueupa! O que fizemos para merecer isso?

  • A reeleição foi aprovada no governo FHC sem uma discussão profunda popular e às custas de muita compra de votos de parlamentares, num daqueles episódios da nossa história que jamais será devidamente apurado e esclarecido. Agora, tentando dar u7ma de paladino da moralidade e dos bons costumes, com uma tremenda dor de cotovelo ao ver a popularidade de Lula maior do que a dele no mesmo período de governo, mais uma vez o príncipe dos scociopatas, ou melhor, sociólogos acha "uma grande insensatez" dar um terceiro mandato pra Lula. Não tem do que reclamar, não, neném. Por que não pensou nessa nefasta possibilidade quando gastou fundos para reeleger a si próprio? A propósito, vossas senhorias lembram-se que FHC dizia-se contra a reeleição e que não desejaria se candidatar novamente? Até nisso Lula está igualzinho a ele agora que nega a possibilidade de continuar mais quatro anos no cargo. Gêmeos siameses!

  • Estudo do Supremo Tribunal Federal revela que 82,4% (!) das leis estaduais são inconstitucionais: OITO EM CADA DEZ leis aprovadas pelas Assembléias Legislativas ferem a Carta Magna! Isso que dá eleger Raimundinhos, Severinas e Diocélias sem qualquer preparo técnico, gente que sequer sabe as atribuições do cargo a que concorrem. Doutor Ulisses deve ter tomado umas e outras quando propôs o voto para analfabetos, só pode.

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domingo, outubro 28, 2007

Outra Língua



Depois do expediente, como de praxe, os amigos reuniam-se no barzinho da esquina. A animação do final de uma semana a mais de ganha pão e cansaço era comemorado efusivamente aos primeiros goles da cerveja gelada e, aos poucos, os grupinhos iam se formando. Por afinidade ou por interesses as mesmas turminhas de todas as semanas separavam-se aos pouquinhos e a conversa, antes animada, deixava de ser festa e virava bate-papo.

Alguns mais estressados não deixavam de falar do trabalho, da nova conta que teriam que conquistar na segunda-feira; as casadas não evitavam discernir sobre os últimos acontecimentos do lar, o filho que crescia bonito e inteligente, a empregada que não sabia cozinhar, a desconfiança que o marido tinha uma amante; as solteiras não cobiçadas pelos colegas agrupavam-se para combinar a balada desta noite, quem ficaria com quem, Astrobaldo iria?, Celineide estava ficando com Valdiomírio ou já estava com Garvanil?; as mais atiradinhas e desejadas viam-se cercadas por aqueles que as queriam e lhes faziam a corte, eles na esperança da conquista, elas na certeza que os despachariam na primeira oportunidade; os três mosqueteiros, Berlindo, Cariosso e Brólio, recepcionavam o novato Bugio, assim apelidado por ter vindo do Mato Grosso, Ijuína, pela primeira vez na cidade grande.

Para enturmar o colega, fofocavam sobre as vidas dos demais. Gracejos, piadas, indiscrições eram a pauta. Berlindo, o mais falador, começou a falar sobre Birdiana, a gostosa séria que para ninguém dava conversa.

- ... aí descobri que o namorado dela é médica, continuava seu relato.

- Era médico, tentava corrigir o ingênuo Bugio.

- Não, médica mesmo.

- Saquei. E aí?, o interessado Cariosso não segurava a curiosidade.

- Daí eu cheguei...

- Peraí. Por que médica e não médico? Você não estava falando do namorado dela? – Não se conformava Bugio com a aparente discordância de gêneros.

- Isso aí. O namorado dela é médica.

- Como? Ta maluco? O namorado, masculino; médica, feminino. Essa concordância ta errada, rapá.

Os outros dois que haviam entendido o sentido da colocação de Berlindo, gargalhavam da inocência do matogrossense.

- Que é? O que foi que não peguei?

Lógico que Bugio sabia o que eram lésbicas, da tv, dos filmes, das novelas, mas jamais havia tido contato com uma, imagina ser algo das ficções. Não consegui acompanhar o raciocínio de Berlindo.

È mais ou menos como o pessoal do Sudeste ou Sul ouvir falar de pato no tucupi, achar uma coisa normal, existe, sim, deve ser gostoso e coisa e tal, mas não saber reconhecer o prato quando deparar-se com ele. As informações, assim como na escola, são incompletas se não se conseguir tatear, não tiver contato direto com a coisa ou situação.

O professor de história fala que os navegantes portugueses corriam sérios riscos de contraírem beribéri e cobrava isso na prova, mas quem sabia o que, de fato, é beribéri? Não interessava, ninguém tinha beribéri que mais parece nome de fruta amazônica. Lésbicas, para Bugio, era beribéri. Algo de livros e não palpável.

- Pára e pensa, Bugio. O namoradO, sacou?, é médicA, sacou?

- Pra mim continua sendo um assassinato da gramática.

- Que moleque burro! Ela é lésbica, mane, e está namorando uma médica!

- Uai! Lésbica?

- Nunca viu uma lésbica não, capiau?

- Eu não. Pensei que elas fossem parecidas com machos, cheias de pêlos, falando grosso, cabelos com corte militar... Vocês tão de sacanagem, é trote no novato... Saquei.

- Que trote o quê! Você vai ter muito o que aprender sobre a cidade, ô, da roça.

- É verdade, então? Ela é lésbica mesmo? – com os olhos arregalados e ainda incrédulos, Bugio não conseguia esconder seu assombro.

- Ih! Tem mais um monte lá na firma?

- Pô, mas ela é tão bonita, delicada, cheirosinha... Eu tava até pensando em dar uma encostada, convidar para um cinema, sabe como é?

- Ué, convida, ela é gente boa. Só não chama pro motel.

- Eu hein? Vai que ela topa e quer dar uma de homem pra cima de mim?

Os estereótipos estavam arraigados no imaginário do ingênuo Bugio que não teve como escapar das gozações implacáveis dos colegas.

Trabalhando diretamente sob a coordenação de Birdiana, Bugio evitava olhá-la de frente a partir da segunda-feira, esquivava-se inventando algum afazer urgente quando se via só com ela na sala, olhava-a de soslaio por trás da pasta que abria para disfarçar sua curiosidade, na esperança de vê-la coçar o saco em público.

Birdiana percebendo as fugas nada dissimuladas do colega, querendo entender o que se passava, chamou-o á sua sala e mandou que fechasse a porta quando entrasse. Ofereceu-lhe uma cadeira em frente à sua escrivaninha e foi direto ao assunto.

- O que está havendo, Bugio, por que você está estranho comigo?

- Nada, não, impressão sua, tentava disfarçar o rapaz, incomodado na cadeira, como se fosse um catre de faquir.

- Vai, fala comigo. O que aconteceu? Fiz alguma coisa que o ofendesse?

- Não, senhora, quê isso?, apressou-se.

- Você está insatisfeito aqui, quer mudar de sessão?

- Se a senhora não se importa, gostaria, sim.

No dia seguinte, foi enviado para o setor de correspondência. Ao apresentar-se, foi recepcionado pelo chefe, Flaurínio, que o recebeu com incontida alegria.

- Ai, que lindo! Até que enfim um homem bonito nesse departamento. Sente, querido, você vai ser meu assistente direto.

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sexta-feira, outubro 26, 2007


Lane, Jornal de Brasília, DF


  • Só rindo mesmo. Que Lula fala uma besteira atrás da outra, até o New York Times sabe, mas a de hoje foi, no mínimo hilariante. O presidente chegou à brilhante conclusão que o biocombustível diminuirá o consumo de bebidas alcóolicas. Será que o engenheiro químico Luis Inácio 51 sabe que são doistipos de álcoois diferentes, o combustível automotivo e o ingerível? Será que ele acredita que a Ambev deixará de fabricar cerveja e passará a investir em postos de combustíveis? Talvez por acreditar piamente na bobagem que falou, que os carros da presidência da república são movidos a gasolina. Assim, Lula preserva seu estoque particular para a caipirinha.

  • Ohhhhhhh!!!! Todos comigo! Ohhhhhhhh!!!!!!!! Sheila Mello posou nua para a Sexy! Ohhhhhhhh!!!!!!!!!! Aliás, as fêmeas têm uma grande vantagem anatômica sobre as mulheres. As fêmeas não têm cérebro, em compensação têm quatro peitos, doi naturais e dois de plástico, e quatro bundas (idem).

  • E por falar em perereca milionária, Mônica Veloso, que ganha uma pensão de R$ 12 mil de Renan Calheiros para sua filhinha (essa criança terá sérios problemas a partir da pré-adolescência, coitada), comprou uma casa de R$ 2 milhões na praia de Jurerê, em Santa Catarina. Isso equivale a 167 meses de pensão, o que significa que ela tem um Casa da moeda entre as pernas. Se depender de mim, ela fica sem essa grana, não vou gastar meu suado dinheirinho comprando a revista em que a porta de entrada e saída e entrada e saída e... de Renan Calheiros está exposta.

  • Não que eu esteja duvidando da probidade moral dos senhores ministros do Supremo tribunal Federal, mas não é interessante o fato de quatro senadores que não perderão seu mandato mesmo depois de terem trocado de partido, serem da base aliada do governo? Romeu Tuma, que era do DEM, oposição, mudou para o PTB, governista; César Borges, ex-Dem, foi para o PR, governista; Patrícia Sabóya, ex-PSB, governista, mas sem expressão, foi para o PDT, que é de quem der mais: e Edison Lobão, maior baba-ovo de José Sarney, também saiu do DEM e foi para o PMDB, governista, não importa qual seja o governo. Estranho, muito estranho...

  • No Brasil, licitações públicas bem poderiam chamar-se ilicitações privadas com dinheiro público.
  • Olha só o nome do cara: Divino Aluizio de Souza. O cara deve achar-se divino mesmo. Preso por ter enviado um pó verde e ameaças para 20 embaixadas, para a Fiesp e mais algumas instituições, o sujeito afirma, orgulhoso: "Vocês estão cometendo um erro! Eu sou o homem mais importante desse país!", e ainda prega a Jihad Islâmica no Brasil. Tudo bem que o homem mais importante na política do Brasil atualmente também é um lunático, mas quem agüentaria dois?

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quinta-feira, outubro 25, 2007

Quase Pai

O bebê nasceria a qualquer momento. Adanálio alertou os colegas de trabalho e os chefes que, assim que a esposa telefonasse dando o alarme, deixaria tudo como estivesse e partiria correndo, não perderia por nada o parto de seu primeiro filho.

Precavido, durante toda a semana voltava para casa pelas ruas que denominava “rota de fuga”, ruas laterais onde o trânsito era bem menor que o das grandes vias. O trajeto ficava um pouco mais longo, mas poderia ser percorrido em vinte minutos, enquanto que pelas vias principais poderia levar quarenta minutos ou mais. Familiarizava-se com cada buraco, esquina, semáforo.

O expediente matutino estava no meio quando o celular tocou.

- Amor, vai ser agora.

A mensagem curta sequer foi ouvida até o final. Pulou da cadeira gritando “ta na hora!”. Estabanado saiu correndo do escritório em direção aos elevadores antes dos colegas recuperarem-se do susto com o grito que quebrara a calma habitual.

- O elevador! Segura o elevador!, bradava durante a corrida.

Para sua sorte a porta abria-se no justo momento. Entrou, a porta fechou-se. Estava subindo.

- Droga!

Apertou o botão 6 do andar imediatamente superior. A porta abriu-se mais lenta que sempre. Saltou. As escadas. Desceu como um atleta de cem metros rasos. Passou a toda pelo saguão, pela portaria, pela porta rumo ao estacionamento. O carro na vaga 1. As chaves! Esquecera-as no bolso do paletó pendurado na cadeira. Cérebro rápido como um ladrão, pega o celular e liga para o escritório. Os dois toques antes do atendimento pareciam um ano.

- Sanderléia, rápido, esqueci a chave no bolso do paletó. Rápido! Joga pela janela.

Sanderléia prestativa, mas com um raciocínio lento, esbaforida abre a janela, vê Adanálio na calçada fazendo gestos como um operador de taxiagem, não entende os gestos do quase pai, atira o paletó com a chave no bolso.

Aberto ao vento, a roupa faz acrobacias e cai sobre a marquise, lento como um pára-quedas. Xingava enquanto corria para a portaria, “mulher burra!”.

O porteiro não entendia nada pela segunda vez em poucos minutos ao vê-lo passar como um raio. Nada de elevadores. Escadas subidas de dois em dois degraus. Corredor. Abre a porta da sala de espera do escritório do advogado num supetão. A secretária solta um grito, atira os papéis que segurava para o alto, tropeça no bebedouro derrubando o garrafão quase cheio que se arrebenta no chão. Cachoeira mineral que alaga o carpete e os documentos.

Em sua carreira irrompe o escritório. O advogado, em choque, vê sua peruca voar enquanto despenca da cadeira aos gritinhos. A cliente idosa reage apenas com o esbugalhar dos olhos e a cara de pânico. A janela travada por causa do ar condicionado. Pega a cadeira vazia do advogado, agora encolhido no canto da sala em posição fetal, e a arremessa contra o vidro, lançando cacos em todas as direções e o barulho de um trovão seguido da sirene do alarme.

Salta para a marquise, pega o paletó. Tem vontade de se jogar dali direto para a rua, mas, sensato, percebe que altura não recomenda. Salta de volta para o escritório. Na porta já coalhavam curiosos. A secretária histérica grita “pega! Pega!”. O contador tenta segurá-lo, a dentista, o office-boy, a pequena multidão. Com os braços agitados como um nadador frenético, tentava se desvencilhar enquanto berrava “sai! Meu filho vai nascer!”. O cotovelo acertou um nariz, o dedo entrou num olho, a palma da mão acertou uma orelha, viu uma dentadura voando.

Sob impropérios e palavrões a escada que desceu voando. Portaria. Uma peitada no moto-boy jogando-o cada um para um lado aos tropeções, reequilibra-se como Pelé e vê um capacete no ar seguido por dois envelopes. Calçada. Estacionamento.

- Moto-boy filho de uma égua!

Xingava não pela trombada, mas pela moto estacionada fechando seu carro. Tentou arrastá-la. Não conseguiu, as rodas travadas. Atirou a moto no chão e, com uma força que não sabia ter, arrastou-a para longe do caminho dos pneus. Abriu a porta, atirou o paletó no banco do carona e partiu a mil. Ainda pôde ver a turba saindo pela portaria à sua caça.

Viraria à direita no primeiro semáforo. Fechado! Um ano para abrir e os carros da frente impedindo que cometesse uma infração. Abriu. Vira. Acelera.

Como previra, o trânsito era tranqüilo naquelas ruas. Poderia aumentar a velocidade, na maioria vias preferenciais. E se houvessem crianças brincando na rua? Um cachorro? Um velhinho atravessando? Corria apertando a buzina com força desejando que fosse uma sirene.

Voava pelo asfalto liso. Ao passar por uma esquina, teve a impressão de ter visto um policial numa moto na transversal à direita. Estava certo, era um policial que se apresentava à sua retaguarda, sirene e luzes ligadas.

A cidade estava muito violenta, a polícia muito tensa. Melhor parar para não correr o risco de receber um tiro de um policial afoito que já se comunicava pelo rádio, provavelmente pedindo reforço, via pelo retrovisor. Seta para a direita, reduz a velocidade e encosta no meio-fio. O policial pára alguns metros atrás, saca a arma, agacha-se atrás da moto.

- Rápido, seu guarda, rápido. Multa logo e me libera, falava entre dentes.

- Abra a porta devagar e saia do carro, gritava o policial.

“Pombas! Tem que ser devagar?”. Obedeceu, mãos para o alto.

Ele não queria sair devagar, desejava apressar as coisas, mas não faria nada impensado que pudesse fazer seu filho nascer órfão de pai.

O policial com a pose de autoridade que é peculiar à função, talvez esperando uma oferta de propina que não viria jamais do correto Adanálio, ou apenas exercitando o poder, dava sermão e multa. Inquieto o quase novo pai ousou interromper e explicar que a esposa o aguardava para que a levasse à maternidade, daí tanta pressa.

- Por que o senhor não disse antes? A minha também está grávida e eu imagino seu desespero. Não se desespere, cidadão! Siga-me que lhe farei a escolta, falava de peito inchado o policial do alto do seu coturno e importância.

Agora eram dois sem freio pelas ruas do bairro: o policial, sua moto e sua sirene, e Adanálio com seu desespero e a camisa empapada de suor.

Oitenta, cem quilômetros por hora pelas ruas estreitas. Os poucos carros que vinham à frente encostavam ao som e luzes da polícia. Agora as coisas estavam quase perfeitas.

Malditos vândalos! Roubaram a tampa do bueiro!

O policial viu a tempo de reduzir a velocidade, mas não de evitar a queda. Saiu catando cavaco pelo asfalto, moto estraçalhada quicando sem rumo, a freada brusca de Adanálio que mal espera o carro parar e já salta correndo em direção ao policial deitado que mantinha a pose de herói:

- Vá, cidadão, sua esposa precisa mais do senhor do que eu nesse momento.

Com o celular na mão e ligando para o serviço de ambulância, Adanálio sabia que não poderia abandonar o soldado sozinho sobre o asfalto fervente e sob o sol, escaldante.

Já juntava gente. Turba, burburinho, os moleques depenando a moto, as velhas e seus “coitadinho”, os inventores de histórias e suas várias versões, o calor infernal e nada de ambulância.

Juntos chegam o socorro e a rádio patrulha. Pressa no socorro, vagar nas explicações. O próprio guarda ferido fala a um colega o ocorrido, ajudando a liberar Adanálio.

Dificuldade em se livrar da multidão. Atenção no caminho, velocidade controlada e nervos quase. Nada mais poderia dar errado. E não deu. Caminho livre e sereno até o edifício onde morava no oitavo andar.

“Olá” para o porteiro, corrida até o elevador, aperta o botão e a luz não acende.

- Ta sem energia, doutor, faltou agorinha.

Escada. Por sorte não parara com o futebol domingueiro, o preparo físico seria essencial. Subida, dois em dois degraus, oito andares. Rezava enquanto subia.

Na porta do apartamento o bilhete curto e duro: “Fui de táxi, seu irre4sponsável!”.

Exausto, sentou-se no chão, recostou-se na porta, respirou fundo e tomou uma decisão definitiva e irrevogável:

- Vasectomia.

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quarta-feira, outubro 24, 2007


Novaes
, Gazeta Mercantil, SP


  • Coisa difícil é encontrar um bom dicionário da língua portuguesa on-line. Seus problemas acabaram! O G1, site de notícias da Globo, está disponibilizando gratuitamente o dicionário Aulete. Na coluna da esquerda, na parte de Serviços, basta acessar "Dicionário on-line", fazer o download e fazer bom proveito. Tem-me sido bastante útil.

  • O PC do B, antes sisudo e acusado de comer criancinhas, resolveu aderir definitivamente ao populismo desregrado, está filiando qualquer çelebridade. Agora foi a vez da bandeirinha, Ana Paula Sa-be-se-lá-das-quantas. A nova geração de políticos nacionais promete... De Gretchen a Rita Cadilac, de Ana Paula ao dono do puteiro...

  • Das duas uma: ou o Congresso aprova a CPMF ou o governo federal cria algum novo imposto. Ou os tolinhos aí acham que Lula vai abrir mão de uma arrecadação monstruosa para ele e seus amiguinhos fazerem monstruosidades?

  • Como bom nordestino, criado no Norte, me recuso terminantemente a dizer que políticos são todos farinha do mesmo saco. Farinha é um negocinho tão gostoso, não merece essa comparação. Digamos que políticos são todos caca da mesma fossa. Talvez estejamos sendo injustos com as cacas, mas é um pouco mais próximo da realidade.

  • E agora, tucanos, com que moral poderão falar das negociatas petistas? Bastou livrarem a cara de Azeredo, para os pessedebistas abriram as pernas para aprovarem a CPMF. O paido de Aecinho matou dois coelhos de uma porrada só: livrou a cara de um dos seus mais importantes quadros e ainda conseguiu uma aproximação com a base governista. Renan deve estar rindo à toa, o caminho para sua volta e sua completa absolvição está sendo asfaltado. Quem está chateado com isso é o pessoal do DEM que vê seu irmão siamês descambar para o lado do ex-inimigo. Definitivamente, ninguém se salva nesa corja inteira.

  • Preparem-se para mais um "eu não sei de nada", de Lula. A Cisco, envolvida na tentativa de golpe milionário contra o Banco do Brasil, fez uma contribuição de R$ 500 mil para o PT. Sábio dito popular que diz que cachorro só cheira o cu de cachorro.

  • Há sete anos eu fui um dos coordenadores da campanha do vereador mais votado daqui. Logo depois de eleito, me distanciei dele, não quero nenhuma proximidade com políticos empossados. Contraditório? Talvez. Mas trabalhei em sua campanha por acreditar em suas boas intenções, em seu preparo para a vereança e em sua honestidade. Ledo engano. logo, logo o sujeito vendeu-se, rasgou o discurso e tornou-se mais um calhorda diplomado. Resolvi, então, me distanciar de campanhas políticas. Hoje fui procurado por um velho e bom amigo. Está lançando sua candidatura à vereança no próximo ano e me pediu para ajudá-lo na campanha. Fiquei de pensar e agora estou realmente pensando em como dizer a ele que não vou topar. Sinto que vou perder um amigo, resta saber se será agora ou depois que ele se eleger.

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