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sexta-feira, dezembro 30, 2005

"Nunca ouvi nada tão E vindo da classe A"
(Caetano Veloso ao calar as 2000 vaias ao chamar Odair José para cantar com ele no Phono 73)

Maravilhoso 2006 para todos!

Depois dos posers roubarem meu texto de anteontem, vamos tentar de novo. Retrospectiva.

Se alguém me perguntar como foi meu último revellion, não lembro.

Ou, o ano foi bom ou ruim? Sem querer dar uma de Poliana, lógico que foi bom. Mantive meu emprego de que gosto muito num país onde é comum se odiar o emprego que se tem. Não passei fome e ainda ajudei alguns a comerem. Tenho sempre o que vestir num país de descamisados e ainda pude dar roupas para alguém. Tenho um teto num país de sem tetos, não abriguei ninguém, mas ajudei alguém a se instalar. Me apaixonei, tive alguém apaixonado por mim que desapaixonou e eu não. Isso dói, mas não é o fim do mundo. Não perdi nenhum amigo e, ainda por cima, ganhei vários outros, a maioria por meio desse blog, e isso é ótimo. Não perdi meus velhos vícios, mas não ganhei nenhum que poderiam fazer a vida mais alegre. Lucro. Não editei meu livro, mas já o tenho escrito e ilustrado, por outro lado, com a quantidade de coisas que escrevi aqui, pela qualidade dos poucos e fiéis leitores que tenho e com o sem número de comentários quase sempre elogiosos, o ego engordou, fez ginástica e está com barriga de tanquinho, contrastando com a minha de chopp.

Enfim, estou vivo e pronto para outro ano. Vocês estão aí, com seus problemas alegrias e juntos encararemos o novo ano cheios de saúde, um sorriso em nossas faces e as mangas arregaçadas para a labuta.

Que vengam los toros!

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Lá vem São Cristóvão
Todo crivado de flechas.
Bem feito,
quem mandou brincar com índios?
(Melquíades)

Sempre dói

Eunápolis, 30 de dezembro de 2005.

Minha mui amada rosa, Rosália,

A dor que dói mais que a dor do amor perdido é a dor da indiferença, de me saber excluído da sua vida. Não são só essas duas dores e a soma de todas as dores é uma prova para minha resistência.

Me dói não ter sabido reconquistá-la; dói a intromissão alheia em nosso tão novo romance, motivo maior de sua ruína; dói a lembrança de nossos bons momentos que eu sonhava fossem para sempre; dói a distância que eu sonhava se encurtar; dói não ter um ombro onde possa depositar minhas lágrimas, arredio que sou ao desabafo; dói não ouvir mais tua risada alegre e constante; dói saber que o abraço e o beijo não mais existirão; dói ver a morena bonita passar e eu comparar a beleza dela com a sua muito maior; dói não receber respostas aos meus apelos... São muitas dores.

Impossível fugir do clichê de desejar que o tempo voltasse para eu te falar tudo o que tenho guardado e não disse na hora certa, para evitar tudo o que não evitamos, para fazer com laços reais os laços etéreos que nos reuniam.

Mais uma dor se prepara para doer: a dor de respeitar tua vontade de não mais querer me ler, me ouvir, me ver.

O novo ano está chegando e invejo os braços que te abraçarão e os lábios que explorarão os teus no desejo de um ano novo excelente. Afora o beijo e o abraço, o desejo que daqui se dirige a ti é o mesmo, mas não apenas para o próximo ano, mas para todo o sempre.

Um de nós estando feliz é lucro, que seja tua essa felicidade.

Sinta p último beijo com sabor de saudade.

Do teu sempre teu, Admastor.

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Pára o trem que minha avó caiu!


Posers
Poser

Ser poser é ser fashion. Legal, comecei com um vocabulário bem poser. Eles se acham autênticos, mas são iguaizinhos e estão em todos os lugares, são aqueles que se destacam por contestação constante sobre tudo o que se mostra à sua frente e, quando míopes, pelos óculos de aros grossos e pretos.

Na net estão sempre contra qualquer coisa, "odiando" (essa é a palavra mais usada pelo poser) o que o senso comum gosta, ou "amando" (essa é a segunda palavra mais usada pelo poser). Para odiar ou amar o poser usa dos argumentos mais esdrúxulos que se possa imaginar ou simplesmente não usam nenhum.

Costumam acreditar em qualquer idiotice que lêem ou ouvem num papinho regado a Smirnoff Ice ou a proseco. Nunca leram Paulo Coelho, mas o odeiam, ou leram Paulo Coelho e o amam, porque é moda odiá-lo ou amá-lo; nunca leram um livro ou uma crônica de jornal de Luis Fernando Veríssimo, mas amam Veríssimo por seus textos que circulam em profusão na internet, mesmo depois do próprio Veríssimo dizer que a maioria daqueles textos não serem de sua autoria. Claro que eles não conhecem essa afirmação do escritor gaúcho, ele falou isso em entrevista para jornal.

Me perdi em divagações. Não era sobre os posers que queria falar, mas as palavras às vezes tomam as rédeas de uma redação e terminam se organizando por vontade própria. Minha intenção era falar das retrospectivas que costumamos fazer nos finais de ano e dos planos para o próximo período, mas já que saiu isso aqui, que fique, afinal de contas eu "odeio" os posers.

segunda-feira, dezembro 26, 2005

"Se você oferecer, saiba que irão aceitar e você não comerá o seu suficiente. Se não oferecer será taxado de egoísta da pior espécie."
(Na Capa)

Chafariz da Praça Frei Calixto
A Ceia
No laguinho do charafiz da praça haviam carpas coloridas.

Ao redor da praça, lojas cheias.

Dentro das lojas, efervescência de compras.

Os presentes embalados, multicores papéis a serem rasgados à meia noite.

Supermercados lotados.

Os últimos componentes da ceia eram providenciados.

Nos corredores, entre as gôndolas, surgem nas mãos de crianças, senhoras e homens pobres as caixinhas para a "caixinha". Uns compram, outros pedem.

Bacalhau para uns, farinha para outros; perus para uns, carcaças de frangos para outros; avelãs para uns, amendoim para outros; para uns terceiros, nada disso, apenas a pouca esmola nas calçadas.

à meia noite, enquanto uns banqueteiam após a troca de presentes, alguém janta uma carpa frita, pescada no laguinho do chafariz da praça sob o olhar complacente do zelador.

domingo, dezembro 25, 2005

Alma lavada a vinho.



Dia 26


Hoje a cidade não tem hora para acordar.

O semblante dos poucos que encontramos pelas ruas não está mais leve nem mais feliz do que estava ontem, a mesma seriedade urbana de cada dia. Nada mudou de fato.

O velhinho de chapéu atravessa a praça como faz todos os dias, um garoto de rua se detém diante da vontade de destruir o presépio público, as portas da igreja encontram-se cerradas como sempre, os quase nenhum carro trafegam em direção à casa dos pais, dos sogros ou de um amigo mais querido onde será servido um almoço com o que restou da ceia.

Uma enfermeira passa uniformizada para seu plantão de 24 horas, um bêbado de cachaça barata ainda dorme sob a marquise da loja de artigos infantis, a balconista da loja de conveniências atende solícita...

Ao longe ecoam os restos de uma música natalina, provavelmente em uma casa de uma família reunida e alegre entre os abraços dos que se amam.

Nos joenais estampadas as mortes no trânsito e os suicídios dos deprimidos.

O Natal não mudou a dinâmica da vida, mas para os românticos e os otimistas trouxe o desejo de que cada dia continuasse igual a hoje.