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quarta-feira, fevereiro 15, 2006

"Mas doutor uma esmola
a um homem que é são
ou lhe mata de vergonha
ou vicia o cidadão."

(Luiz Gonzaga)


Universidade para todos?

Cotas I


Já que o brasileiro vê sacanagem em tudo e sempre encontra interesses escusos em qualquer coisa ( na maioria das vezes com razão, reconheço), de antemão deixo claro que, se não sou negro, sou quase, o típico "pardo" e que, por toda a vida, estudei em escolas públicas. Além do mais, classe média remediada, ou quase. Não há, portanto, qualquer interesse aqui em defender os mais abastados ou discriminar os menos favorecidos.

O propósito desse texto é, mais uma vez, repudiar a política de cotas para negros e oriundos de escolas públicas por acesso às universidades federais.

Esse tipo de coisa, discriminatória ao avesso, e paternalista como é praxis na política brasileira, em nada ajuda quem quer que seja. Ou melhor, ajuda um mínimo de bons estudantes que independem da escola de onde vieram e ao governo, que faz média com os pobres e negros, parcela considerável da sociedade nacional, tão grande que chegamos a duvidar que são minoria.

Na maioria dos casos de cotistas, o que vai ocorrer será um abandono, ainda maior do que o que já existe, dos alunos que não tem uma base educacional sólida para agüentarem o tranco dos cursos mais difíceis como as engenharias, medicina, odontologia, física, matemática e os mais caros. Ou vão criar a "bolsa-equipamento" para que os mais pobres comprem seus computadores e estetoscópios? E vão baixar a qualidade de ensino já defeiuoso, em alguns casos, das universidades federais?

O ProUni, sim, é um programa altamente válido, em que todos lucram. Os alunos de baixa renda conseguem seu acesso a um curso superior; as universidades particulares preenchem seus espaços ociosos; o governo faz sua média com as classes menos favorecidas realizando uma tarefa social; os impostos recebem um emprego louvável; as famílias experimentam uma melhora em seu status quo; a sociedade terá mais mão-de-obra qualificada. Enfim, só restará ao beneficiado se esforçar, que é o mínimo que se espera de um universitário, e conquistar sua promoção.

Dar vagas, porém 50% das vagas (antes se falava em 20%, o que já é um absurdo) pelo simples fato de a pessoa ser negra, índia ou pobre, é um atraso absurdo.

A classe média, maior prejudicada com essa política, fica acuada contra a parede, com medo de manifestar-se contra esse absurdo sob o risco de ser acusada de discriminação social, caso abra a boca para protestar.

A mesma classe média que se esforça para colocar seus filhos nas melhores escolas para que sejam concorrentes mais bem preparados e vêem as regras do jogo mudarem aos 45 minutos do segundo tempo.

O correto e desejado por quem entende um pouquinho de educação, seriam os governos darem escolas decentes, com professores bem preparados para que seus alunos concorressem em igualdade de condições com os das boas escolas particulares. Mas isso dá tabalho, e no serviço público poucos querem trabalhar de verdade, e ainda menos os que realmente têm coragem de ousar e contrariar interesses que a própria mídia incute em parte da população, justamente a parte menos satisfeita.

Criaram uma nona série no ensino fundamental, mas poderiam criar cursos pré-vestibular públicos sérios.

É o caminho das facilidades passando uma rasteira no mérito pessoal.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

"Não faça aos outros o que não queres que te façam", ensina a Bíblia. Das duas uma: ou nego a Bíblia ou nego a morena do 502.


Rapel


Rapel


Atanagildo havia a ceitado o convite de Siderlene, sua musa a quem tentava conquistar, para fazer rapel. Domingo cedo a garota o pegou em casa e partiram para o campo. No carro de Siderlene, além dos dois, iam duas amigas jovens lindas e animadas da Siderlene e todas aquelas tralhas de cordas e mosquetões.

Aos poucos, enquanto acordava de vez, Atanagildo começa a tomar consciência da besteira que fizera. Na tentativa de impressionar a garota, amante da vida ao ar livre e de esportes radicais, aceitara o convite sem ter-se questionado antes se seria capaz de realizar tal tarefa. Sua acrofobia adormecida voltava à tona.

Garoto do interior onde os prédios mais altos não passavam de sobrados de dois pavimentos, Atanagildo lembrava agora do dia em que fôra visitar o primo, morador do décimo andar de um prédio na Barra, em Salvador. Impressionado com a vista que se tinha do mar, saiu para a varanda a fim de ver melhor. Lembra-se como se estivesse vivendo aquilo nesse momento, do frio que sentiu lhe percorrer o espinhaço, da vertigem, da sudorese quando olhou para a avenida que passava em frente ao prédio; de como teve que segurar-se com força no parapeito para não desmaiar e de como o primo teve que conduzi-lo de volta para dentro do apartamento.

Com os pés na realidade, perguntava-se por que fôra tão covarde a ponto de não admitir seu medo de altura. Recuar agora seria uma vergonha muito maior. Se falasse antes, ela entenderia, saberia que não é uma coisa consciente, mas, não, o bobão tinha que topar o convite e se via dentro de um carro com três atraentes e aventureiras garotas, tendo certeza que estaria sendo vítima de piedade e chacota dentro de uma hora.

Depois de algum tempo de subida sinuosa por uma estrada de cascalho entre árvores e pastos, chegaram ao platô, onde já havia uma pequena e barulhenta multidão os esperando.

Naquele ambiente em que era possível sentir não só o cheiro, mas uma névoa densa de adrenalina, a adrenalina de Atanagildo empestava o ambiente e sua cueca.

Um bonitão com cara de super-herói de quadrinhos convocou os novatos para instruções sobre o uso do equipamento e as medidas de segurança.

Atanagildo ficou aliviado ao perceber que além dele, haviam mais doze novatos. Entre tantos, poderia se esconder melhor e, talvez, passar despercebido.

Tudo ia bem enquanto as instruções não passavam de nós, cordas, grampos, posição do corpo, como segurar a corda, o que evitar fazer e tal e coisa. O instutor instruia e Aatanagildo fazia caras e bocas, demonstrando que entendia tudinho, que não teria problema em praticar.

A descida pelo paredão de pedra começou numa seqüência acordada entre os veteranos. Desceria um antigo, depois um novato e essa alternância continuaria até o último.

Cavalheirescamente, Atanagildo ofereceu-se para ser o derradeiro. Para os outros foi uma atitude simpática, para ele foi um tempo a mais para pensar no que fazer.

Siderlene foi a quarta veterana a descer. Vendo-se sem os olhares de admiração e vigilância da amiga, sem ter pensado em nenhuma saída honrosa, Atanagildo embrenhou-se no mato e levou três dias para caminhar os cinqüenta quilômetros até sua casa, de onde não sai há um mês e sequer atende o telefone.

domingo, fevereiro 12, 2006

Quem?



Apelidos


Preciso acabar com essa mania de colocar apelido em tudo e qualquer coisa.

Criei esse hábito ainda guri. Com um tantão de irmãos que tenho, não via uns chamarem aos outros senão pelo nome. Não haviam apelidos lá em casa. Mas o rebeldinho aqui foi logo chamando o Normando de "coco seco" por conta de seus cabelos aloirados e o Ronaldo de "pirulito", a quem eu creditava uma cabeça de tamanho avantajado, o que corrigiu-se com o tempo.

No primário, segunda ou terceira série, tinha um coleguinha que cada vez que era xingado ou alvo de alguma brincadeira, respondia "nós dois". "Bobão!", e ele "nós dois". Nesse caso não fui eu quem apelidou, o próprio batizou-se de "nós dois", eu apenas dei uma forcinha pra popularizar o tratamento. Até hoje tento lembrar o nome do camarada, mas não consigo. Só lembro do apelido.

Meus alunos criaram uma comunidade pra mim no Orkut e eu coloquei um tópico: "Que apelido eu coloquei em você". Não entendendo bem o espírito da coisa, várias meninas disseram que as apelidei de "amarela". Isso não é verdade. Amarela não é apelido, é tratamento. Todo mundo é amarelo, uns mais claros, outros mais escuros, outros mais amarelos, mas todos amarelos. O baiano criou o "meu rei", o "pedinha" (corruptela de "pedrinha", por conta do tal pedra 90), como forma de cumprimentar qualquer pessoa, principalmente aqueles conhecidos de quem se esqueceu o nome. Para não passar pelo constrangimento de tratar uma pessoa pelo nome errado, o "meu rei" e o "pedinha" podem ser usados em qualquer situação e ninguém se ofende. Já meio baiano pelo tempo em que vivo aqui, peguei o jeitinho e criei o "amarelo/a".

Não tem como controlar, a coisa é automática. É só me dar dois centavos de intimidade que seu nome logo vira outra coisa. A Ozanir virou "Ozana nas alturas"; A Célia virou "Célia Maria"; Eugênio é "Ogênio"; Jaíza é por mim conhecida por "Jáiza", o que a deixa furiosa, aumentando minha vontade de chamá-la assim; Clemens é "Cremilda" ou "Creme", dependendo da ocasião e do ambiente; Paulos são dois no ambiente de trabalho. Um é baiano e outro mineiro. Para diferenciá-los um é "Paulo Macaxeira" eo outro, "Paulo pão-de-queijo"; O Ari virou Ariovaldo. E por aí vai. Esses são alguns dos que apenas dou uma arranjadinha no nome verdadeiro. Mais legais são os apelidos que retratam uma característica do apelidado.

Uma garota que vai fazer o vestibular, mas parou de estudar, passou a ser chamada de Faesa, uma faculdadezinha meia-boca de Vitória; Matheus, gordinho, virou "Skol", redondo, redondo; uma garota que tem um cabeção enorme, é a BH, Big Head; o mesmo cabeção tem o Valentim, que nas horas de carinho é "Valente", nos momentos de porrada torna-se o "estrupador de Camisetas"; a Priscila é linda em seus 1,45 m, "Pee-Wee"; Iane, "Inhame"; Juliana, "Jujuba"; e mais uns tantos.

As coisas também são rebatizadas: calculadora é calculatriz; apagador, apagatório; abridor de garafas, abritório; banheiro, unitário, afinal, tirando os banheiros de bar e os femininos, ninguém costuma ir acompanhado; garfo, forquilha...

Não teve graça pra você? Pois eu me divirto.

E por que preciso parar com isso? Primeiro, porque costumo esquecer os nomes das pessoas e passo a conhecê-las só pelo apelido. Em algumas situações é um atraso terrível. Alguém me fala de outro alguém e só lembro da pessoa meia hora depois que meu interlocutor se esforça em me dar as características da pessoa; segundo, tem horas que pareço estar falando em algum dialeto africano que só eu conheço, daí tenho que repetir a frase com as palavras corretas, o que gera um atraso da porra numa conversação.

sábado, fevereiro 11, 2006

Quem mais gosta de ver homens fortes, suados, correndo e se agarrando? As mulheres? Não, os torcedores de futebol.


Mané


Mané


Prazer, Chefia. Adenevaldo Gobera Sidônio, Gobera por parte de mãe e Sidônio por parte de pai. Pode me chamar de Guêbo, a seu dispor. Guêbo do Cavaco, pra ser mais claro. 72 anos de puro samba e malandragem. Filho de Josenaldo Sidônio e Adegeilza Gobera Sidônio, nascido em Pau Grande, terra do Mané, saca o Mané? Pois é, mermão, o maior craque que os quadrado de grama já viu. Vossa senhoria sabia que o Mané era amigão do meu progenitor? E era mermo! Que zé Pelé! Maradona era fichinha. Craque mermo era o Mané. Além do que, era um sujeito de prima. Depois das pelada lá no campinho do arranca-tôco, passava na bodega do velho Jôse - era assim que ele chamava meu velho - e encaçapava umas branquinha legal, isso quando não era antes do quebra-canela. Só não conseguiram quebrar as canela do Mané. O cara era mais liso que enguia ensaboada, ninguém encostava no negão. Tá, ele não era negão, tava mais pra índio, incrusive pegava passarinho com as facilidade que só os índio têm. Mas nós chamava ele de Negão. Uma vez o Mané me deu um dibre que minhas perna quais fica orta que nem as dele. Dotê, eu puderia falá do cumpade Mané até vossa incelênça ficar com calo nos ouvido, mas o senhor tá quereno saber mesmo é da minha labuta, né mermo? Pois toca o intêrro! Quando o Mané veio pro Rio, meu pai num viu mais porque ficar em Pau Grande. Queria ver o Mné esculachar os "joão" no Maraca e veio embora também. Mudamo pra essa merma casa onde moro hoje, aqui em Bonsucesso. Tu num vai acreditar, doutor, mas todo dia tinha jornalista quereno falar cum meu pai, tudo afim de ouvir umas história sobre o Mané. A vizinhança, tudo gente boa, mas sem capilé pra pagar nem a geral, vinha pro boeco do velho Jôse pra ouvir os jogos do Bota no rádio rabo-quente, de antes do transistor, que meu pai deixava no máximo. Cada dibre do craque era como se fosse um gol. Era o dia que mais vendia cachaça pros proleta e cevejo pros abonado. Até framenguista virava Botafogo quando o Mané jogava. Aí meu velho contava as história de Pau Grande pra malandragem, até alta madruga. Devo muito a Pau Grande. Os camarada ma admira porque fui amigo do Mané e as mulher gosta de mim porque sou de pau grande. Sacou? Sacou?

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

"O dinheiro não é tudo e, muitas vezes, não é nem mesmo suficiente."


Capinzal, SC

"E no entanto, ela se move..."


Ninguém na praça àquela hora. De vez em quando o vigia noturno passava ali em sua ronda pelo quarteirão e não via qualquer coisa fora do normal. Não ver qualquer anormalidade nas ruas de Capitel Santo Antônio, bairro distante de Caínzal, cidade com menos de vinte e cinco mil habitantes, é quase uma redundância. Na pequena cidade catarinense, o máximo que acontecia era uma discussão na feira por conta do repolho. O chucrute estava ficando caro...

Vigia noturno era apenas uma desculpa de alguns bons amigos para dar uma ocupação para Wilfredo, pai de três guris.

Na noite fresca de março, Wilfredo passeava pelas ruas calçadas, radinho de pilha no ouvido, apito no bolso e o despreocupado ar de quem sabia que não encontraria sequer ladrão de galinha. O cacetete pendurado no cinto era apenas cacoete da profissão.

Em sua terceira passada, em posição diametralmente oposta à em que se encontrava, viu o doutor Asdrúbal sentado sob a luz do poste, vestindo um pijama de listras. Ficou curioso em saber o que levava o advogado a colocar-se ali àquela hora, mas conteve-se. Primeiro, porque o doutor negava-se a contribuir com seu minguado salário, o que o isentava de vigiar a casa do rábula; segundo, porque o doutor Asdrúbal fora o advogado da ferrovia em que Wilfredo trabalhara e o fizera perder todo o dinheiro a que se jlgava merecedor na causa trabalhista que abrira contra os ex-empregadores. O advogado jamais seria perdoado pelo vigilante.

Tentando ignorar o advogado, Wilfredo continuou sua ronda.

Mais uma volta no quarteirão, não pôde evitar uma olhadela em direção ao banco onde Asdrúbal se encontrava. Teve a impressão de que ele arfava, com a cabeça caída sobre o peito. Estaria o doutor passando mal? Rescostou-se em uma árvore e, por alguns minutos, enquanto pitava, não desprendeu os olhos do outro homem. Quando já se preparava para retomar sua caminhada, viu Asdrúbal cair de lado abruptamente e, com as pernas penduradas do banco, o tronco dilatar-se e comprimir-se com sofreguidão. O advogado tentava respirar e o ar lhe faltava.

Wilfredo tirou o apito do bolso e o soprava a todos pulmões enquanto corria em direção ao banco onde se encontrava seu desafeto.

Aos poucos as janelas ao redor iluminavam-se, algumas eram abertas mostrando os moradores assustados atrás de suas caras de sono, outros saiam para as varandas e calçadas. Todos viam Wilfredo socar o peito do advogado e soprar forte em sua boca na tentativa de dilatar-lhe os brônquíolos e refazer o coração retomar o pulso.

Ainda sonolento o médico, doutor Astrogildo, logo percebeu o que acontecia. Entrou em casa correndo, recolheu sua maleta com os apetrechos médicosao mesmo tempo re ordenava à mulher que ligasse para a ambulância e, acelerado, foi ajudar o vigilante que já suava em seus esforços de salvar a vida daquele que por tantas vezes desejara que morresse.

Os primeiros socorros ministrados por Wilfredo, aprendidos num curso obrigatório para os funcionários da ferrovia, ressuscitaram o homem que depusera contra ele.