Pesquisar neste blog e nos da lista

sexta-feira, março 30, 2007

Image Hosted by ImageShack.us">Justiça


Histórias da Corte


Há dois anos saiu num jornal local daqui a notícia de uma garota que havia matado o irmão com uma facada. Como todo mundo, minha primeira reação foi de horror e de repulsa pela ação da garota. Hoje foi seu julgamento.

Daiane tinha 19 anos, um filho de um ano e três meses, e morava com a mãe, o padrasto e quatro irmãos, todos menores. Desses, o mais velho era o Henrique, com quinze anos.

No dia 24 de fevereiro de 2005 a mãe e o padrasto encontravam-se em outra cidade, respondendo a uma proposta de emprego. Daiane, também desempregada, ficara responsável pelos cuidados com os menores. Henrique trabalhava como flanelinha em frente a um supermercado, dois quarteirões distante.

No final da tarde, ao chegar em casa, Henrique encontrou os irmãos assistindo a um programa do SBT e Daiane na cozinha, limpando um pedaço de carne que seria preparado para o almoço do próximo dia. Henrique, o segundo mais velho, acostumado a mandar nos menores na ausência dos pais, mudou de canal, queria assistir à Malhação, da Globo. A molecadinha se rebelou, queria continuar assistindo aos seus desenhos. Começou a confusão.

No meio da gritaria, Daiane na defesa dos irmãos, discutia mais uma entre tantas as vezes que brigaram. Henrique arrancou com um puxão os fios da antena. Se ele não veria o que queria, ninguém veria nada. Daiane afastou o irmão e, com a faca com que tratava a carne, passou a desencapar as pontas dos fios arrebentados para religar a antena. Talvez com medo da faca, mas sem querer dar o braço a torcer, Henrique armou-se de um pedaço de pau e foi até o registro geral de energia, desligando-o. E a gritaria e ameaças continuavam.

Refeita a conexão da antena, os irmãos menores, de 14, 13 e 10 anos, alojados em frente à televisão, certos de que a irmã imporia sua autoridade e colocaria as coisas na ordem de antes, Daiane, saiu de casa para religar a energia. Ao virar-se de costas para Henrique recebeu uma paulada nas costas. Para defender-se, porém sem o intuito de ferir o irmão, apenas ameaçá-lo, prontamente a garota se virou. Nesse mesmo pedaço de tempo, Henrique se aproximava para desferir-lhe outro golpe, só que, ao dar um passo à frente, recebeu a lâmina no estômago. Um único golpe.

Ferido, o rapagote saiu correndo pela rua, mas caiu pouco mais de vinte metros à frente. A faca havia cortado a Aorta Torácica, levando-o a sangrar até a morte, pouco depois da chegada da ambulância, chamada por vizinhos assustados.

Durante o julgamento de hoje, no qual eu era um dos jurados, provou-se que Henrique era violento, já havia agredido a irmã outras vezes, numa delas deixando-lhe uma cicatriz profunda de mordida no braço esquerdo; já havia agredido a própria mãe, sendo necessária sua internação em hospital; era usuário de drogas.

Daiane, nesses dois anos, tentou levar a vida normalmente, estudando, arrumando empregos esporádicos. A família mudou-se.

Depois de seu discurso acusatório, o promotor pediu a absolvição, não diretamente, uma vez que seu ofício é acusar, mas deixando nas entrelinhas, baseando-se no Código Penal, que não recorreria de nossa decisão caso absolvêssemos a ré.

O advogado, o homem mais velho com quem já tive o prazer de conviver, o folcórico doutor Lopes, do alto de seus 95 anos, negrão com a cara de Pixinguinha, usou a Bíblia, católico fervoroso que é, para pedir a liberdade de sua cliente. Caim matou Abel, mas não foi condenado por Deus, que o marcou com uma cruz na testa e ordenou que ninguém o fizesse mal.

Falando assim, pode parecer que os discursos foram rápidos, mas advogados criminalistas, ao contrário dos trabalhistas que gostam de ir direto ao assunto, adoram o púlpito, a atenção e o rebuscamento da linguagem, mesmo que desconexa por vezes.

Na sala secreta, Daiane foi absolvida por sete votos a zero.

Dado o parecer pelo juiz, vi naquela garota magra, vestida com simplicidade, sua primeira manifestação de emoção. Os olhos deixaram escapar as lágrimas de alívio. Me doeu vê-la sozinha ali, nenhum parente ou amigo na platéia à sua espera. Sozinha no momento em que sua vida estava sendo decidida por sete estranhos. Não me contive. Fui até ela, apertei-lhe a mão, dei meus parabéns e recomendei que esquecesse o passado, levasse uma vida tranqüila, continuasse estudando para que seu futuro e de seu filho fossem mais felizes do que a vida fora até então. Aos prantos ela só conseguiu dizer "muito obrigado".

Fiquei feliz ao ver os demais jurados me seguirem, abraçarem-na. Vi que aquele apoio poderia ser um bom começo para seu futuro que desejo o melhor.

P.S.: Da última vez que narrei aqui um desses julgamentos, um leitor perguntou se eu não estava sendo anti-ético. Não, não sou anti-ético. O processo era público, qualquer pessoa presente poderia contá-lo, não necessariamente um jornalista. Não criei fatos, apenas narrei, resumidamente, é lógico, o que passamos naquela sala. Mesmo sobre o Henrique, que não foi um rapaz muito sociável, nem bom filho, nem bom irmão, pelos fatos narrados, foi por mim espinafrado. Não julgamos a ele, mas à Daine, que matou, sim, mas não é nenhuma criminosa. Aquela pobre moça não merecia passar dezenove anos na cadeia. Os anos que passou apanhando e mais esses dois que passou sofrendo enquanto corria o risco de perder a liberdade e açoitada pelas lembranças e pelo remorso, já lhe foram penas muito duras.

quinta-feira, março 29, 2007

Amarildo, A Gazeta, ES


  • Recebo mais um maldito telefonema de um desses milhares de telemarketings que lotam o Brasil. A telefonista pedia contribuição para a LBV, Legião da Boa Vontade. Só acreditei que era uma voluntária do Paiva Neto por conta do português tacanha e de tantos "graças a Deus", "com a graça de Deus" e "Deus o abençoe". Deus, o maior capitalista do século 21.


  • A biologia, como não é uma ciência exata, troca os nomes dos seres vivos a cada nova descoberta. As hienas, por exemplo, acabam de serem rebatizadas como "democratas". Assim, o PFL, passa a se chamar Partido Democrata.


  • A gente fica batendo panelas contra o auto-aumento dado pelos parlamentares e esquecemos de olhar os outros. O presidente da república receberá um aumento de 83%! Isso confirma minha tese que não existe independência dos quatro poderes - incluindo a imprensa -, mas interdependência. Um faz um favorzinho para o outro hoje e amanhã recebe a recompensa.


  • A Itália se mostrou interessada no álcool brasileiro, mesmo com os barbudinhos na rua protestando. Só tem um porém, ou melhor, dois poréns: a burocracia brasileira e a hiper burocracia italiana. Mesmo as contas da Petrobrás sendo uma das maiores mentiras no mercado financeiro, pelo menos a médio prazo, até que alguém resolva abrir a caixa preta, isso poderá nos ser muito bom. Torçamos.


  • Por que o presidente do IBGE não é nomeado ministro do planejamento? O cara, com duas canetadas, já nos fez crescer em 10% a economia, já fez o PIB de 2006 ser maior que o anunciado, e já elevou a taxa de crescimento previsto em 2007 para 4,1%. Crianças, não percam tempo lendo Harry Poter... A verdadeira magia está no Planalto. O dia que resolverem contar a economia informal, quase a metade do mercado brasileiro, nossa economia vai crescer ainda mais. Onde o Estado não mete o bedelho, as coisas acontecem e dão certo.


  • Nada como o fim de uma oligarquia... O secretário de segurança da Bahia descobriu, na semana passada, uma sala secreta onde eram escondidos dezenas de processos abertos durante a dinastia malvadeza e que não tiverem continuidade por serem os denunciados amigos do rei. Agora a nova Sercretaria da Educação andou caçando os fantasmas. Pasmem! Até o bispo de Eunápolis era funcionário fantasma, lotado como professor, sem nunca ter ministrado uma aula. E esses senhores ainda vêm me falar em ética, moral e honestidade...

quarta-feira, março 28, 2007

Desenho de Elaine Gonçalves


Os olhos que me olham crus
não são frios mortos e mortos,
olhos cor de vidro e brilhantes,
não são olhos com olhar de ontem,
olhos dormidos ao relento e molhados,
não são quaisquer olhos
que vimos nas esquinas barulhentas
ou nos bares por detrás da cerveja.

Não são quaisquer olhos
os olhos que me olham,
nem claros ou escuros,
olhos oblíquos de Capitu
olhos de gueixa ou terceiros olhos.

Mas olho tais olhos sem fogo ou neve
com o desinteresse com que olho
meus próprios olhos no espelho.
Olho-os como se os conhecesse há anos
sem nunca tê-los visto
por um átimo de tempo
e eles se tatuam em minhas retinas,
marcam meus nervos ópticos
e me seguem pela vida.

terça-feira, março 27, 2007

Amarildo, A Gazeta, ES


Post-umbigo:
  • Ó pá isso, algumas buscas que trazem pessoas a esse blog:
    - "Arte rupreste (sic) (pintor, que ano surgiu, uma obra)" - Tá, eu sei que não é lá muito elegante rir da ignorância alheia, mas esse aqui cometeu mais erros por centímetro quadrado que eu pudesse imaginar. Primeiro, o certo é rupestre e não rupreste; segundo, o que esse sujeito está pensando? Que pintura rupestre é um estilo artístico?; terceiro, em que ano surgiu? Perguntinha que nem os arqueólogos conseguiram responder com segurança, imagina se eu iria poder responder...
    - "Bush vem ao Brasil" - De novo? Que sujeitinho retardatário esse.
    - "Câncer no mediastino sente dificuldade de comer" - quisera, meu caro, que o câncer tivesse dificuldade em comer em qualquer que fosse a parte onde se alojasse...
    - "Vitória, ES, sexo sayonara puteiro" - Tá procurando a mãe, filho?
    - "Tatuagens de lagartixa" - Putz! O que ando perdendo... Nunca vi uma lagartixa tatuada.
    - "Sintoma de ânsia de vômito pela manhã" - Situaçãozinha brava, sô. Em primeiro lugar, antes de procurar Marquinhos de Ogum, deveria procurar um médico; em segundo lugar, até onde minha parca cultura médica me permite chutar, vômito já é sintoma de algum outro mal.
    - "Exercícios poema e poesia diferenças" - Há poucos dias, depois de tirar a dúvida com alguns professores de português e de literatura, falei aqui da diferença entre poesia e poema. Um nobre leitor, porém, comentou que bem sabia que não havia diferença, que poesia e poema são a mesma coisa. Depois dessa, prefiro nem opinar.
    - "Como fazer uma promessa?" - Oxente, eu lá tenho cara de padre?
    - "Artista plástico paulista de raça japonesa" - Pimeiro que não gosto desse papo de raça japonesa, prefiro dizer origem japonesa. Raça, para mim, só existe a humana e cabô! Mas se for para citar um, eu chutaria Manabu Mabe, embora tenha dúvida se ele não era todo japonês e não apenas de origem.
    - "vigiar olhar vida alheia deus" - Hein? Acho que Deus deixou essa missão de vigiar a vida alheia para nós, humanos. Ele, pelo visto, não tem olhado para cá há séculos. Deve ter enjoado do brinquedinho que inventou.
    - "Corida de cem metros no pan" - Assine a SporTv, pô!
    - "Como se escreve que porra é essa em inglês" - Essa foi a melhor! What a hell...?
    - "Marcos" - Presente!
    - "Brasil é o único país no mundo onde as prostitutas gozam" - Não fui eu, foi o Tom Jobim quem falou isso, ou quase isso.
    - "Simpatias contra inimigos" - Acho engraçado esse emprego da palavra simpatia. Não combina nada em desejar o mal. Coisas da língua portuguesa.


  • Acho que minhas instalações elétricas foram feitas por um amador. Quando tomo algo muito gelado, como água de coco ou açaí, dói no fundo do olho direito.


  • Outra esquisitice na minha formação: a maioria das pessoas consegue identificar porque gosta ou desgosta de alguém. Pode ser a educação, a cor dos olhos, o sorriso, a inteligência, a sensibilidade, o hálito, os gostos... Eu apenas consigo gostar ou não. Descobrir as causas me é impossível e pouco importa.


  • Você chega para uma pessoa e diz que jamais iria para a cama com ela. Ela, sendo homem ou mulher, mesmo quando diz o contrário (salvo se ela não gostar nadinha de você) se sentirá diminuída, ultrajada, ofendida, com o amor próprio ferido, rejeitada...
    Se você disser, na lata, em momento pouco esperado, sem clima, que iria para a cama com ela, se ela for homem, se assanha toda; se for mulher, farse-á de ofendida, mas o ego vai lá em cima.

domingo, março 25, 2007

Quadro de Eduardo Depinho


Falta II

Sinto saudades dela
como a prostituta do hímem,
uma saudade conformada
com jeito de nunca mais.

Sinto a falta dela
como quem sente a falta
do que nunca teve,
uma falta de quem sempre faltou.

Por essa saudade e essa falta
choro choro de carpideira,
choro sem sentimento,
apenas pelo prazer da lágrima quente.




Tem conto meu na Revista Extremo 21. Tendo um tempinho, passe lá.