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quinta-feira, janeiro 06, 2011

Cabeça de Brasileiro

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Quem está na rede é pra se molhar, parafraseando o ditado popular numa referência à internet. Precisava explicar diante da obviedade? Pois bem, meu post anterior chegou aos olhos do jornalista Lucas Echimenco, o que nos levou a uma breve e curta discussão, como o Twitter permite. Travar duelos longos com sentenças de 140 caracteres é missão para monge tibetano. Dessa discussão surgiu um desafio, no bom sentido, proposto por Echimenco: por que não escrevíamos sobre o mesmo tema, postássemos em nossos blogs e colocássemos as sentenças nas mãos dos leitores. Lógico, creio que a intenção dele não era o duelo gratuito, mas uma discussão mais aprofundada.

Pedi que ele sugerisse o tema e ele mandou “a cabeça do brasileiro”, motivado pelo livro de mesmo nome, de Alberto Carlos de Almeida. Missão um tanto dura, já que o Almeida levou 280 páginas para concluir que não somos tão simples de entender, o que também me parece óbvio.

Para se entender a mentalidade de um povo e uma vila que seja, muitos são os fatores a se levar em conta, a começar da origem dessa população, das miscigenações surgidas no decorrer de sua história, de seus hábitos alimentares, do seu sistema social de classes ou castas, enfim, uma gama infindável de afluentes que levam ao caudaloso rio da interação social. Como imaginar, então, que é uma ciência exata traçar o perfil de quase 200 milhões de cabeças?

Partindo para o simplismo que o empirismo me apresenta, já que não sou sociólogo, antropólogo ou sequer analista do IBGE ou do IPHAN, me atrevo a determinar alguns traços comuns à maioria dos brasileiros, mesmo sabendo que desagradarei aos mais ufanistas, sem levar em conta, porém os regionalismos. Os sulistas, por exemplo, julgam-se mais cultos que os nordestinos; os paulistas, com alguma razão, alegam que transportam o país em suas costas econômicas; os alagoanos raramente abandonam seu estado, enquanto que os cearenses espalham-se mais que gíria em boca de adolescentes; os cariocas, quando criticados, costumam alegar, como se fosse a defesa ideal, que o restante do país os inveja. O país é muitos, parafraseando Thayguara que um dia cantou “o homem é mil”.

Ouvi, desde a primeira infância, que o Brasil tinha muitos problemas por ser um país jovem. A história se encarregou de me mostrar que essa justificativa é falha. Os Estados Unidos têm apenas 8 anos a mais que nós e, talvez, mais de 8 vezes o tamanho da nossa economia. Já ouvi a justificativa que a culpa de nossas mazelas é nossa colonização feita por bandidos, degredados e aproveitadores. Ora a Austrália, além de descoberta 160 anos depois de nós, somente em 1770 passou a ser oficialmente uma colônia inglesa, além de ter sido moeda de troca com bandidos condenados. Ou eles cumpririam suas penas ou iriam, como “voluntários”, desbravar, colonizar e explorar a possessão na longínqua Oceania. Em 1997 o PIB da Austrália era de US$ 988, 99 trilhões e o do Brasil, em 2010, 13 anos depois, foi de US$ 2,1 trilhão; a renda per capta da Austrália, em 1997, era US$ 35.677, enquanto que a do Brasil, em 2010, foi US$ 10.296. E olhe que a Austrália não tem a metade dos recursos naturais que nós temos.

Talvez, então, os bandidos portugueses eram mais vorazes que os ingleses. Se lá eles exploraram as riquezas naturais, escravizaram os aborígenes e arrumaram tempo para construir um país que respeitasse à risca as leis do Império britânico, os nossos bandidos também exploraram as riquezas da terra, também escravizaram e mataram os aborígenes, mas fizeram suas próprias leis e preferiam contrabandear os produtos explorados do que pagarem altos impostos para a corte portuguesa. A propósito, a Austrália jamais sediou a moradia dos reis ingleses, mas nós já fomos moradia da Coroa portuguesa. Seriam nossos imperadores mais venais que os bandidos ingleses?

Talvez por termos tantas riquezas, tanto alimento e água, negligenciamos o valor das coisas, afinal, já vaticinava Pero Vaz, em se plantando, tudo dá. Para quê tanto esforço se basta esticar o braço e tirar da mata ao lado o alimento de amanhã?

Talvez por contarmos em nosso DNA a mistura de tantas culturas, algumas conflitantes, como os bantos e os Boubon, uns silvícolas e macumbeiros, outros nobres europeus e católicos por determinação do estado, tenham havido conflitos de idiossincrasias e dificuldade na formação de uma identidade nacional.

Nos acostumamos com a vida fácil, levando vantagem econômica as regiões que mantiveram-se mais fiéis aos costumes europeus: A São Paulo poliglota, o Rio Grande Alemão, o interior paulista italiano e japonês (que, embora não europeu, aprendeu cedo a lutar contra as forças naturais e inimigos poderosos, China e EUA, para produzirem alimento, moradia, educação, saúde e transporte para sua população hoje quase tão grande quanto a nossa numa ilha do tamanho do Piauí), os pomerodes catarinenses e espiritossantenses. Essa gente já veio ao país sabendo que seu suor é o maior adubo para sua riqueza, enquanto que os norte-nordestinos, e não vai aqui nem uma discriminação maldosa, foram educados com a esmola do Estado, o assistencialismo eleitoral, a compra de sua produção por favores mentirosos.

No segundo Império, mesmo que houvesse boa intenção, D. Pedro II tratou o Nosdeste com uma região de coitados que mereciam a ajuda dos demais sem a necessidade da contrapartida. Na primeira República, instaurada por um alagoano e tendo outros grandes nomes nordestinos no pelotão de frente, como Floriano Peixoto, também alagoano, apelaram para o ufanismo e o privilegiamento, embora parco, do Nordeste, do que no investimento sólido em educação e geração de emprego e renda. Mais uma vez o assistencialismo e a esmola social, precursora das bolsas sociais, foi moeda de compra de consciências.

E assim nascemos, crescemos e envelhecemos sob antigos hábitos e mudanças de hábitos não se dão por decreto e composição de caráter levam gerações, enquanto isso não se dá, e nem afirmo que seja bom ou ruim que mudemos, vamos vivendo como país de mil cabeças e muitas sentenças.

Em Mossoró, em pouco mais de dois dias, ouvi a mesma queixa de três pessoas diferentes, em ambientes diferentes: como nosso sotaque é feio. De tanto assistirem ás novelas e programas do Centro Sul, muitos com discriminação patente contra qualquer cultura fora do eixo, faz com que quem não tenha os mesmos costumes envergonhe-se de quem é. O Rio de Janeiro deixou de ser a Corte, deixou de ser a capital da República, mas ainda dita as regras sociais tanto quanto São Paulo dita as regras econômicas. Somos uma grande periferia das duas grandes capitais, nos envergonhando de nossos hábitos, muitos dos quais deveriam mesmo ser razão de vergonha, e aceitando muitos dos hábitos de lá como os a serem seguidos, como a marra, a carteirada, o golpe econômico, o rouba ma faz de Maluf, ou o mundo nos inveja, de Sérgio Cabral.

Não somos uno, mas muitos países, cada um com sua identidade e alguns costumes se intercedendo, muitos dos quais vergonhosos e amorais.

 

©Marcos Pontes

12 comentários:

Ery Roberto Correa disse...

Marcos, você traçou um perfil perfeito, ilustrado pelos nossos valores históricos e dados comparativos tão importantes de outros países.

O que me parece muito importante na análise desse conjunto verdade, que resolve nossa equação social - aliás, bem calculada pela sua lógica matemática e racional - é a necessidade de cada um, seja nordestino, sulista ou de qualquer outro canto, assumir sua verdadeira identidade.

Um país como o nosso é um caleidoscópio humano. E é essa soma que nos fará fortes, cada um contribuindo da forma original, sem prejuízo, entretanto, da sagrada obrigação de lutar pelo melhor lugar no futuro.

O assistencialismo que você toca com certa tristeza (sei da sua forma de pensar a respeito), volto a frisar, antes de nos ser nocivo culturalmente, como verdadeira vergonha no processo de construção e crescimento de uma grande nação, é lamentável sob o aspecto individual.

Cada pessoa que hoje sobrevive nestas circunstâncias deveria ter um mínimo possível de formação, que lhe desse capacitação para um trabalho, que aliás deveria ser a primeira preocupação do Estado - prover condições para que os excluídos pudessem caminhar na direção do seu autoprovimento.

Mas isto é outra história. O Estado parece não ter interesse primordial na Educação, pois entre dotar o cidadão de capacidade de pensar e escravizá-lo através das esmolas, ele prefere o segundo.

Uma vez mais me orgulho de ser leitor dos seus textos. Parabéns, amigão.

Anônimo disse...

O texto é ótimo, falta mesmo aos brasileiros um pouco de bom senso, mas não espere muito de quem ouve "funk carioca" e acha que é música,,,

Anônimo disse...

Concordo com a análise do Ery.Sou mineira, criei-me no estado de SP e vivo no MT.Aqui, pude perceber que, sem abandonar os costumes do lugar, o povo adaptou-se aos migrantes que para cá vieram e trataram de arregaças as mangas, em vez de ficar esperando benesses.Ao NE, falta-lhe sentimento de cidadania.Os coronéis e os políticos atuais minaram o pouco que tinham para dominá-los totalmente.Quando acordarem,serão outra região.Mas terão q passar por um período bem duro para que isso aconteça.C/o dizia o Gonzagão- viciaram o cidadão.opcao_zili

Anônimo disse...

Maravilha de texto!

Hugo Venturini disse...

Bom texto.

Reginaldo Martins de Oliveira disse...

Caro amigo.
Não direi que sua análise é completa, correta, mas que, necessita de uma análise mais profunda dos fatos históricos. Não nego que o Nordeste seja mais atrasado que o sul e sudeste mais não é mais do que as outras regiões. Fome, miséria e subserviência existe em todo país. Seria necessário levantar quanto recebe cada região ao longo dos anos; quem foi mais beneficiado; quem, ao longos dos dominou o Brasil etc etc levanto essas questões porque não é tão simples analisar, comparar ou medir quem é mais desenvolvido, isso é folclórico. A situação climática e geográfica tem uma interferência inimaginável para o desenvolvimento de uma região ou não? quem mais se beneficia disso? contudo, também não são as únicas diferenças que justifique quaisquer vantagem de uma sobre as outras...gostaria de me estender nessa análise mais isso não vai equacionar as disparidades e privilégios históricos existentes. O conformismo ou a falta de indignação é nacional, não é só do nordeste, do norte é também do sudeste, do sul e centro-oeste, ou seja, a diferença é só o sotaque, logo, não existe superioridade de uma região mas tão somente uma série da fatores econômicos e políticos que favorecem umas em detrimento de outras. Mas não poderia de respostar ao comentário de que o Nordeste falta sentimento de cidadan é porque não conhece, nunca estudou e tão pouco sabe as riquezas diversas e a capacidade de superação e indignação do nordestino. Se não tem dominio de um determinado assunto é melhor não escrever besteiras. Abraço

Beatriz disse...

Excelente texto. Claro e corajoso. Sem os preconceitos da ditadura cultural marxista que é um escotoma servil para defender e justificar as carências nordestinas.
Gilberto Freyre - esse gênio tão mal tratado pela esquerda ignorante (um pleonasmo)disse em " Nordeste", seu segundo livro, escrito na capital e no Engenho Queimadas, também localizado na Zona da Mata pernambucana,que o nordestino é algoz e vítima de sua história.
E, minha opinião é a de que somos todos os brasileiros a mesma coisa.
E nossa vitimização é alimentada, engordada por essa mentalidade marxista travestida de discursos sociológicos buarqueanos que paternalizam o povo brasileiro enquanto criticam os tais males feitos pela colonização européia.

Outro ponto que você muito bem aponta é o de que a colonização norte-americana por ter sido feita por homens e mulheres mais religiosos, cumpridores das leis de Deus e dos homens, resultou numa cultura mais ordenada, menos 'malandra", mais comprometida com valores e virtudes.


e para quem exige que um post vá além do que vc foi aqui..sorria e desconte a exigência arrogante de quem não tem senso de medida.

TonMoura disse...

O texto tá bom, mas me permita discordar da conclusão (ou talvez adicionar - talvez não teha entendido direito), acho que esta multiplicidade acaba gerando um sentimento único: o brasileiro gosta de ser diferente do próprio brasileiro, é egoísta e individualista e acha que é perda de identidade querer ser igual e trabalhar em equipe. Seja nortista ou sudestino todos querem se dar bem. Todos querem ser Pelé e ninguém quer ser Amarildo. "Antes de ser brasileiro eu sou (acreano?)!", este é o brasileiro.

TRISTÃO disse...

Marcos.
Sua análise contém verdades irrefutaveis, merce da sua argúcia e vasta cultura.
O progresso é intimo das condições adversas. O Japão e a Europa arrazados na segunda guerra reergueram-se com investimentos maciços em educação.
Enquanto os Estados Unidos foram construidos através da "união" de povos e culturas, aqui havia um vasto território loteado aos "amigos" da coroa, os ditos coronéis das capitanias. Enquanto o pioneiro americano pensava produção e produtividade, aqui se praticava extrativismo predatório.
Japão, America do Norte e Europa construiram seu progresso sob condições climaticas muito adversas.
Povos europeus e asiaticos que aqui aportaram trouxeram técnicas de produção e espirito empreendedor.
Daí o progresso das regiões Sul e Sudeste.
Holandeses estiveram por muitos anos no nordeste, mas ao contrario dos outros imigrantes queriam a dominação politica. Dai foram escorraçados.
Conclusão: A politica brasileira é sui generis;não combina bem com produção, produtividade, cultura. Combina com assistencialismo, conchavos, negociatas, e tudo o mais que debilita o carater das pessoas de um povo.

Aluizio Amorim disse...

Caro Marcos,
um belo artigo. E um artigo, claro, não esgota o assunto. Mas está muito bom. Meus cumprimentos. Abraço.

TonMoura disse...

É, Reginaldo Martins Oliveira é político nordestino da ala governista e que lucra com assistencialismo em cima do povo nordestino. Natural ele ficar tão ofendido. Caso ele mude de lado, com certeza sua opiinião e discursos mudarão. Isto posto, só rAtifica a sua análise, afina, você é nordestino de Fortaleza, nunca morou no sudeste, sul ou centro-oeste e atualmente mora na Bahia. O que o credencia para omitir opinião sobre esse povo, na visão de gente do povo. Mas, se os nordestinos (menos letrados/graduados que os sudestinos ou sulistas) votaram, na sua maioria na Dilma, foram os paulistas que elegeram Tiririca e Maluf, este, o criador dos incentivos sociais, afinal, o Ticket do Leite foi inventado por ele e essa linha assistencialista foi copiada por Brizola no sul que chegou aonde chegou defendendo idéias nazistas, né? Commo eu disse antes, o povo brasileiro quer que o governo lhe ajude porque acredita que essa ajuda é de graça.

Lilly disse...

Amei o texto.... Gostei das ponderações, hahahah, adorei seu comentário do carioca (rs, sou carioca por acidente de percurso, de alma e coração sou brasiliense) realmente, ele tem o discurso de "disco arranhado": falar mal do Rio e de Carioca é por inveja... Mas, da mesma foram é errôneo, quem fala mal de lá, sem nunca ter ido conhecer. Assim como eu tenho talvez, uma noção errada do norte e do nordeste, pq não os conheço para além do estereótipo que se faz do povo de lá. Mas apesar das diferenças, somos todos do mesmo maravilhoso país, e deveríamos lutar por ele, para melhorá-lo... sem ufanismos, ou idolatrias e ainda fanatismo... Em suma, brilhante texto....

P.S: Pessoas, please, não generalizem... Rio tem o samba, tem a beleza da arte das escolas no Carnaval e, ainda é mto lembrado pelo excelente ritmo Bossa Nova, então please, não generalizem dizendo que só tem aquele lixo de funk, e que todo carioca, tem mal gosto por curtir Funk... Odeio Funk, amo Rock e MPB e sou carioca, sim, com orgulho sim... Só me sinto mais brasiliense por morar aqui desde mto pequena....