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sexta-feira, dezembro 01, 2006

Moda


Moda


Quinto filho de onze, pai funcionário público e mãe dona de casa, fui criado dividindo roupas e calçados com os irmãos. Quando dávamos a esticada da puberdade ou as roupas davam a encolhida na lavagem, o irmão seguinte as herdava.

Raras eram as compras em lojas. A mãe, formada em prendas do lar, as fazia em sua própria máquina. Minha irmã, no privilégio de ser a única no meio de tantos marmanjos, recebia as mais bem confeccionadas e ficava linda.

Aos treze, quatorze anos, idade em que a auto-estima comanda as vontades, chegava a sentir inveja das roupas da moda dos amigos, das camisetas transadas (nunca entendi porque transa se escreve com "s" e não com "z"), enquanto eu vestia as camisas de algodão com cinco botões feitas pela dona Luci, a prendada.

Um dia minha mãe pegou o macete para nos deixar mais confiantes. Comprava tecidos numa loja e no armarinho vizinho comprava etiquetas de marcas famosas. Dona Luci era uma pirata das confecções. Aliás, foram anos de prática. Há muito ela copiava os modelos dos vestidos que faria para minha irmã, fosse de revistas, vitrines ou novelas.

Duas coisas nunca faltaram em nossa casa: comida e livros, talvez as coisas mais importantes na vida de uma pessoa. A leitura nos despertava o senso crítico nos fazia questionar antes de aceitar, mastigar bem antes de engolir. Nos fez ver que somos únicos, que temos nossas próprias vontades, gostos, carências e a respeitar os alheios.

Isso me fez abominar a formação em massa de pensamentos e formas, desprezando-se o conteúdo. A moda iguala, muitas vezes nivela por baixo.

Você não é magro, TEM que ser magro!
Você não é bonito, TEM que ser bonito!
Você não precisa ir à Disney, TEM que ir à dDisney!
Você não precisa gostar de Almodóvar, TEM que endeusá-lo!
Você não precisa usar uma calça que mostre a calcinha, TEM que mostrar a calcinha!
Você tem cabelos ondulados, mas TEM que alisá-los, mesmo que isso negue suas origens.
Você não tem amigos, não faz negócios, não viaja, mas TEM que ter um celular, de preferência o último modelo com GPS e "mp3 player", mesmo que não tenha computador.
Você não sabe falar uma palavra em inglês, mas TEM que gostar de Britney Sprears.
Você é interiorano, gosta de moda de viola, bolo de fubá, galinha caipira com angu, suco de graviola comprada na feira, quermesse na igreja, tomar banho de rio, passar o dia na roça montando a cavalo, mas TEM que negar tudo isso e trocar pela piscina do clube, domingo no shopping, selfisevis a quilo e maquidonals.

Os sujeitinhos civilizados são emprenhados pelos ouvidos, compram tudo o que mandam e depois falam mal do Natal. Se bem que falar mal do Natal é moda.





A Magui me convidou a participar desse post coletivo proposto pela Valerie. Como gostei do tema, estou aqui. Tem muita gente falando melhor que eu, visite-a.

Um comentário:

CosmoShine disse...

AMEIII, SIMPLESMENTE AMEII O BLOOOOOOOOOG! ESSA POSTAGEM ESTÁ A MELHOR QUE JÁ VIIII!PARABÉEEEEEENS!