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segunda-feira, novembro 15, 2010

Em defesa do Lobato

Nilma

"Tia Nastácia, esquecida dos seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão".

"Não é à toa que os macacos se parecem tanto com os homens. Só dizem bobagens".

Trechos de “Caçadas de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, obra de 1933

 

“Nega do cabelo duro

Qual é o pente eu te penteia”

Treco da música “Nega do Cabelo Duro”, de David Nasser e Rubens Soares

 

“Nega do cabelo duro
Que não gosta de pentear
Quando passa na baixa do tubo
O negão começa a gritar”

Treco da música “Fricote”, de Luís Caldas e Paulinho Camafeu

 

“Veja, veja, veja os cabelos dela
Parece bombril de ariar panela
Quando ela passa, me chama atenção
Mas seus cabelos não têm jeito não
A sua catinga quase me desmaiou”

Trecho de “Veja os cabelos dela”, de Tiririca

 

A heresia é minha em querer comparar Monteiro Lobato, a Tiririca, mas ao lembrar de um, não deixei de lembrar do outro. E o que Tiririca e Monteiro Lobato têm em comum? Uma visão culturalmente racista? Provavelmente, sim.

Vem a professora Nilma Lino Gomes, da UFMG, membro (ou seria “membra”, pela lógica sexista da “presidenta”?) do Conselho Nacional de Educação, esta negra linda que ilustra o post, sugerir ao ministro que vira manchete uma vez por ano, quando dá chabu nas provas do ENEM, Fernando Haddad, que não permita a distribuição do livro de Lobato pelo seu conteúdo racista. Sei não, a discussão não pode ser tão rasa, mas também não merece um maremoto.

Muitos anos depois das mortes de David Nasser e Rubens Soares, sua música, um clássico do cancioneiro popular há pouco desencavado por Marcelo D2, um negro de cabelo desgrenhado, também foi alvo da sanha furiosamente politicamente correta. Não me lembro quem e nem gostaria de lembrar, pediu a censura à música, sua exclusão dos anais brasileiros.

Tiririca, em 1996 foi apresentado ao Ministério Público e teve que se explicar. Por pouco não foi parar em cana por dizer que sua negra tem catinga e cabelo de bom bril. Ora, ora, ora, logo Tiririca, um caboclinho que esconde sua cabeleira crespa por baixo de uma peruca amarela? Um cearensezinho de Itapipoca, terra onde se misturam índios, negros e portugueses gerando um monte de mulatinhos engraçados, como seu Chico, meu pai, e branquinhas graciosas, como Luci, minha mãe.

Luís Caldas, pelo que me diz a memória e o conhecimento, passou incólume pela ira persecutória dos politicamente étnicos, mas só por citar uma “negra do cabelo duro” já corria o risco de ser empurrado para a Lei Afonso Arinos por alguma ONG ansiosa por notoriedade.

Nasser, Caldas e Francisco Everardo cometeram o pecado do mau gosto. Quiseram ser engraçadinhos e erraram a mão. Merecem crítica poética e musical das mais severas, sim. Mas talvez seja apenas elitismo meu querer que todo letrista brasileiro seja um Chico Buarque ou um Lupicínio Rodrigues, talvez por isso jamais comprasse um disco do Tiririca ou do Luís Caldas.

Monteiro Lobato, não por comparar a agilidade da Tia Nastácia à de um macaco em escalar árvores, ou de chamar os homens de macacos por termos cérebros defeituosos – talvez os cérebros dos macacos sejam mais bem acabados do que os nossos -, mas por não ter dito no mesmo livro, por exemplo, que Pedrinho corria mais rápido que um coelho, ou que o Marquês de Sabugosa era tão pensativo quanto uma coruja, merece um puxão de orelhas por não ter-se precavido contra os censores raivosos do seu futuro.

©Marcos Pontes

12 comentários:

Anônimo disse...

E o Lula, quando como fica , quando ele diz que a culpa pela crise " é dos loiros de olhos azuis " , não é racista também ?

Beatriz disse...

Marcos, hoje é impossível um escritor como Lobato. O que essa paspalha repercute é pura retórica, cuja finalidade é vencer um debate e não tem nenhum compromisso com a verdade. Mulher sem caráter, especula desonestamente sobre um dos maiores escritores brasileiros.
sofista paga pra fazer esse discurso desclassificado. Não me convence nunca.
Que respeito merece essa maluca?
Voc~e foi umuito elegante, correto e ainda por cima deu importância a essa marionete das idéias hegemõnicas neste país abestalhado pelo discurso petista-castrista- leninista-marxista.
Este país - Brasil - raciocina torto como essa tonta. ninguém quer a verdade.
ela nunca mudaria de opinião. Portanto, merece uma banana, um solene desprezo.
este texto seu é muita areia pra esse caminhão arriado.

Sonia disse...

Eu até entenderia se Monteiro Lobato fosse perseguido pelas duras críticas políticas contidas em "Hans Staden" ou "O Poço do Visconde". Mas, classificá-lo como racista e privar nossas crianças e adultos, todos os cidadãos brasileiros, de uma obra riquíssima, só posso taxar de ridículo. E vindo do governo que vem, nem posso dizer que surpreenda, infelizmente.

CHUMBOGROSSO disse...

Estes tempos serão lembrados como TEMPOS DE VERGONHA !!!
O desrespeito à literatura em seu tempo e suas expressões significa rasgar a HISTÓRIA e seus VALORES.
Vão queimar livros muito breve e sabemos muito bem o que isso significa.

TonMoura disse...

Chico Buarque? E a morena de angola que leva o chpcalho amarrado na canela? Se não fosse de angola, mas do Brasil, seria racismo? Aliás, não é racismo chamar Morena? Em angola tem negro, mas como é morena, dá a idéia de ser bonita e graciosa.
Ora, negra do cabelo duro é mais redundância do que racismo, negra que num tem cabelo duro é a Tina Turner que é careca, mas duvido q as perucas dela sejam macias!
Racismo é dizer que existem a raça negra, a branca, a mulata, a índia, etc... a minha raça é a HUMANA, e sou racista, se um filho meu casar com macaca porque fumou um baseado numa folha do livro do Darwin eu interno, mas o moleque é lindo, mulato e humano!

Beatriz disse...

Genial., tom . Essa família me mata de orgulho

Beatriz disse...

by the way...minha raça aqui na bahia é definida pelo escrivão pela cor da pele que pra ele é uma doença - leucoderma = albinismo. rsss
não sou branca , nem preta...sofro de uma sídrome.
imagine se eu fosse me arretar com ele - negão?
e se fosse o contrário..ele loiro de olhos azuis e eu preta e ele me chamasse de ....por exemplo? ah, sei lá...

Cachorro Louco disse...

É , Marcão ,como dizia a meiga e doce madre superiora : é phoda ...

Maria Amora disse...

Não entenderam nada. Como era de se esperar...

LN Rodrigues disse...

Parabéns pela crítica!!!!"Chifre em cabeça de cavalo" é o que procuram, meio a tantas "encrencas" pra resolver.

Varwald disse...

É, mais uma tentativa de criar a "novilingua" de 1984. Parece que o ptralhismo não tem parâmetros, e junta-se a eles a síndrome de cachorro vira-lata de todos os brasileiros que deram corda ao "racismo de estado" criado por Lulla da Silva e seus cumpanheros...um país que olha para trás tropeça quando pensa em andar pra frente...

Adao Braga disse...

Será que eles querem é reescrever Lobato? Afinal, na época em que ele escreveu isto e aquilo, era assim que o mundo vivia, e assim é que aceitavam.

Idiotas! Daqui a pouco vão querer cassar aquelas bíblias mais antigas onde se lê ainda:

- E Maria então pariu um filho varão!