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sábado, maio 28, 2011

Você é vitima, coitadinho


Certo dia eu e o Almirzinho fomos visitar um amigo comum, o Mário, que tinha um filho com dois anos e pouco de idade, o Pedro. Mário e Almirzinho eram músicos e eu arriscava escrever algumas letras de vez em quando. Sentados em cadeiras na varanda discutíamos música, cantávamos alguma coisa enquanto o Pedro brincava ao redor, pulando, correndo, gritando, coisas de um quase bebê. Num determinado momento o Pedro tropeçou e caiu aos pés do Almirzinho. De pronto levantou-se e já se preparava para voltar às suas peraltices, mas o Almirzinho, com aquele tom de voz que costumamos usar com as crianças, meio tatibitati, como se o consolasse, começou com um “tadinho do Pedrinho. Chora não, bebê, não foi nada, só um tombinho”. O Pedro não ameaçava chorar, pelo contrário, queria era voltar às brincadeiras.

Sem tocá-lo, o Almirzinho continuou: “ô, dodói, Pedrinho. Num chora, se der um beijinho passa, logo, logo para de doer. Ai que peninha...”. E insistia que o garoto havia se machucado. Aos poucos vimos o sorriso sumir do rosto do Pedro, sua boca arqueando-se para baixo, as lágrimas vindo aos olhos. Quanto mais o Almirzinho a consolava, mais a criança passava a sentir pena de si. Não demorou, Pedrinho abriu o berreiro, se jogou no colo do Almirzinho e o deixou afagá-lo para consolar a dor que não sentia.

A cada tentativa da esquerda de vitimizar partes da sociedade, me lembro desse episódio. Que no Brasil sempre houve desequilíbrio social, racismo, discriminação contra velhos, deficientes físicos, índios, macumbeiros e outros muitos grupos, isso é sabido, embora disfarçado ao longo da história. Para minimizar isso algumas leis foram criadas, outras aperfeiçoadas, a mais famosa delas a Lei Afonso Arinos que tornou crime o racismo – volto a dizer que não concordo com essa terminologia por não reconhecer raças nos seres humanos. Raça é a humana, o resto são etnias.

Há décadas é permitido ao cidadão recorrer à justiça sempre que se sentir ultrajado, discriminado, ofendido, caluniado, difamado ou injuriado, mas não basta à esquerda conscientizar as potenciais vítimas, cada um de nós, de seus direitos legais, tem de vitimizar-nos, de preferência em grupos, para que seu intento tenha mais notoriedade e os resultados massificados. É como se chegasse a um negro, por exemplo, e insistisse na idéia de que ele é discriminado, mesmo que o indivíduo jamais tenha sentido-se excluído. “Meu querido afroamericano, a sociedade o discrimina”, aí o cara diz “não, jamais fui discriminado. Sempre fui bem tratado, estudei na mesma escola em que muitos outros negros e brancos estudaram, tive as mesmas oportunidades e tentei minha ascensão social em igualdade de condições”. Porém, a esquerda insiste, “não, querido, isso é apenas o que a elite branca permite que você ache. Hoje você é apenas um diretor da empresa, por que não é o presidente, ao invés daquele branco europeu? Porque ele é favorecido pela cor da pele”. O negro ainda não vê assim, insiste, “o currículo dele é melhor que o meu, ele tem doutorado em Harvard, tem vinte anos mais de experiência que eu, está há dez anos a mais que eu na empresa, é justo que ele presida, um dia talvez eu chegue lá”. Mas a coitadização ideológica não se deixa vencer com essa argumentação e continua insistindo, tanto argumenta e mostra seus fatos que o negro começa a duvidar de que o processo é transparente, passa a crer que por trás das aparências há uma manipulação conspirativa para usá-lo como escada para que a elite branca se promova às custas de seu suor negro. Por fim, cede. Percebe que jamais será alguém sem o respaldo humanitário da esquerda maravilhosa e torna-se mais um militante do socialismo redentor.

Esse exagero fictício repete-se deveras no dia a dia. Dividindo a sociedade em guetos, negros-vítimas, índios-coitados, mulheres-ultrajadas, pobres-explorados, gays-massacrados, crianças-bulinadas, wiccas-incompreendidos e dezenas de outras minorias são cooptadas com a argumentação de que são todos vítimas dos que estudaram, se esforçaram, aproveitaram as oportunidades que o sistema lhes deu e, meritocraticamente, assumiram a gerência das empresas, da produção e do país.

Com esse exército à paisana, mas uniformizados como os coitadinhos, a esquerda avança galgado na empatia que demonstra pelos fragilizados.

Termos como “releitura” e “desconstrução” tornam-se populares por meio de artistas cooptados, jornalistas e lideranças comunitárias, mas nada mais são do que a demonstração de que o que já existia tem de ser destruído para que a nova ordem se fixe. As minorias que, somadas, tornam-se o quase todo, são o apoio do qual é retirada a capacidade de análise imparcial, lobotomizada, crédula por ter suas fraquezas e inferioridade expostas na insistência do coitadismo de que fizeram com que acreditassem serem vítimas.

Mas nem só com idéias compram-se consciências, há a necessidade material, e aí surgem os programas sociais, as bolsas, os empregos, as assessorias, as ONG, o apoio estatal, as leis discriminatórias às avessas, o poder não meritório dado às vítimas que, revanchistas e raivosas, tornam-se elite, mas continuam no discurso vazio contra as elites. Palavras de ordem são plantadas na mídia e gente que se diz tão culta e capacitada as repete como verdades absolutas.

Usando da força da insistência dos discursos repetitivos, a esquerda ganha simpatia e manda e desmanda. Seus chefes fazem fortuna usando a igualdade social, contando com a desculpa repetida pela sua convicção delirante e desonesta na ilusão de que as palavras mudarão a realidade. Premissa que não sustenta um minuto de suas vidas que ao contrário do que afirmam não se encarna em discurso mas na experiência vivida.

©Marcos Pontes e Beatriz Mecozzi Moura



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12 comentários:

Ajuricaba disse...

Mais um grande texto. Ótimo mesmo.

nadiavida disse...

Que presente de sábado este. Obrigada queridos, vcs me fazem refletir e aprendo muito.... Texto impecável.... Precisa ser lido por muitos. Farei minha parte. rsss Abraços e ótimo fim de semana!

Brasigrega disse...

Em poucas palavras: Os canalhas aproveitam a desgraça alheia pra se promoverem!!!

Joao Santos disse...

Maravilhoso, bem explicito, Parabens!

Ery Roberto Correa disse...

Marcos, receba meu aplauso, pois além de conhecimento de causa, há no seu texto uma amostra viril de coragem para dizer abertamente tudo aquilo que a esquerda faz questão de esconder.

Não gosto de fazer menções quando ela é parte de livros religiosos, mas aqui faço uma exceção para repetir um belo versículo que aprendi nos tempos de criança, quando estudei a Bíblia: "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará". É isto!

Anônimo disse...

Cara, é isso mesmo o que acontece, vi essa cena do Almirzinho muitas vezes em minha vida, as pessoas acham que ter dó é algo positivo mas é muito pernicioso. Sempre que alguém perto de mim diz "coitado", eu digo: coitado é quem sofreu ação de coito. Parabén pelo texto.

Ari disse...

Parabéns pelo texto
Deus te ilumine

Adriano Dal Molin disse...

Muito bom texto!

@ALiberty_ disse...

Aplaudo de pé! Parabéns!! Excelente!!
Pena que essa mensagem chegará a tão poucos brasileiros.. mas fico feliz por ter chegado até mim e alguns Queridos que muito estimo como Ajuricaba, Nadia e Adrí!
Abraços!!!

marcia1907 disse...

meninos, vocês ar-ra-sa-ram! a imagem da criança foi a melhor sacada que li em tempos.

PoPa disse...

Muito bom. Mais um elucidativo texto!

sergio nogueira disse...

Qualquer comentário, seria apenas redundante. Texto, como sempre,muito claro e corajoso, que bem demonstra a manipulação esquerdista nos seus interesses.
Parabéns!